16 janeiro 2009

Viagem ao país da bandeira em branco

Este pretensioso ensaio que aqui posto hoje vem tratar, mais uma vez devo dizer, sobre algo que não está relacionado com as três principais referências na descrição deste blog, tolkien, lovecraft e sigur rós, mas obviamente vem tratar sobre a última referência encontrada que assume todas as outras coisas que o valham, e acredito que tratar sobre a obra de josé saramago é uma outra coisa que vale, pois o autor nascido em portugal em dezesseis de novembro de mil novecentos e vinte e dois, e por conseguinte o único escritor de língua portuguesa a receber o prêmio nobel da literatura em mil novecentos e noventa e oito, tem em sua extensa e excelente obra poesias, reportagens, contos reflexões, memórias e romances que cercam o fantástico, o realismo mágico, por assim dizer, fazendo-nos crer que ao longo de seus intermináveis parágrafos e frases, ao longo de seus intricados diálogos e pensamentos, a narrativa pode nos levar a uma viagem, afinal saramago parece adorar a idéia de viagens, até um país cuja bandeira deve ser branca, branca como a cegueira, branca como os votos de seus cidadãos, mas sempre ficará a dúvida sobre qual país é esse, um país fictício de certo, como ele e seus críticos afirmam, mas quem sabe um país próximo e conhecido, como ouso concluir ao final desse já anunciado pretensioso ensaio, e antes que eu me refira aos dois ensaios de saramago que me levaram a deduzir sobre esse país de bandeira branca, devo dizer antes de mais nada o ensaio sobre a cegueira e o ensaio sobre a lucidez que não se tratam especificamente de ensaios e sim de romances, continuo dizendo da onde parei que antes que eu me refira aos dois ensaios de saramago que me levaram a deduzir sobre esse país da bandeira em branco acho importante fazer um pequeno retrospecto de sua obra que inclui tantos livros bons, famosos e importantes que fica difícil listá-los e comentá-los a todos, restando-me apenas seguir uma linha mais frágil e ao mesmo tempo mais consistente, que começa não com o seu primeiro romance, que deveria se chamar a viúva mas acabou sendo chamado de terra do pecado e foi descriminado pelo próprio autor, mas começa com o memorial do convento escrito em mil novecentos e oitenta e dois e já lá se apresentava o inconfundível estilo de saramgo sem letra maiúsculas, sem travessões, sem aspas e sem parênteses, apenas uma mistura de palavras bem arranjadas e com muita sorte de produzir um momento histórico e fictício importante em portugal, o mesmo que ocorre em dois outros livros de saramago, o ano da morte de ricardo reis e a história do cerco de lisboa, sendo que o primeiro, escrito em mil novecentos e oitenta e quatro, trata sobre a morte do famoso pseudônimo do famoso poeta poeta português fernando pessoa, tão adorado por saramgo e outros autores e leitores em todo o mundo, mas como eu ia dizendo, uma outra produção que aborda portugal é a jangada de pedra, na qual a península ibérica se destaca do continente europeu e passa a vagar pelo oceâno como uma ilha, uma jangada de pedra a qual o título do livro se refere e onde saramgo pôde expressar artísticamente sua controversa opinião de que a espanha e portugal deveriam integrar um único e mutuamente benéfico país ibérico, o que incluiria o país basco mas excluiria a frança, uma questão importante a ser discutida aqui lgo adiante, antes devo dizer também que outra polêmica que saramago causou e viveu envolve a humanização do messias das religiões cristãs em seu popular livro o evangelho segundo jesus cristo, não bastasse isso, seus parececres a cerca da atual situação das explosões na faixa de gaza causaram furor entre os judeus, que não compreenderam suas insinuações e o processam sob a acusação de antisemitismo, bem como a sociedade norte americana de apoio aos deficientes visuais foi boicotar o lançamento do filme ensaio sobre a cegueira, dirigido pelo brasileiro fernando meirelles inspirado no livro de homônimo de saramgo, lançado em mil novecentos e noventa e cinco e que é o ponto de partida para esse meu ensaio sobre uma viagem ao país da bandeira em branco, pois nesse livro conta-se a história de um país fictício onde as pessoas são acometidas por uma cegueira branca que os pega de súbito e os põe a enxergar uma imaculada brancura que nunca os cega em completa escuridão e tão pouco permite que enxerguem qualquer outra coisa, com a exceção de uma personagem mulher de um médico oftalmologista que se recusa a ficar cega e por conta disso, sofre por ver como os valores da sociedade são subvertidos quando ninguém mais se importa de defecar diante de outro, estuprar por comida ou qualquer outra agressividade imposta que pode acontecer quando se isola todos esses cegos em um manicômio abandonado,s em estrutura e sem recursos, obviamente, quando a água parece ser mal usada e quando também as autoridades se encontram cegas, sabe-se que toda a cidade encontra-se em uma guerra de esbofeteamentos de cegos por comida, mesmo que seja a carne de um cachorro vira lata, até que tão subitamente como começou a cegueira termina, depois disso ficamos sabendo que quatro anos se passaram e ninguém nunca mais ousou falar nos abusos e horros que sofreram ou inflingiram uns nos outros durantes aquelas semanas, ficamos sabendo sobre isso no livro ensaios sobre a lucidez, escrito em dois mil e quatro, quando saramgo retoma alguns dos personagens do livro que lhe rendeu o prêmio nobel, muito embora o nobel não seja dado a uma obra e sim a um autor que o mereça, de qualquer forma volto a onde estava para contar que naquele mesmo país onde as pessoas não tem nomes e os livros tem nomes como livro das crueldades ou livro das previsões, uma nova brancura se instala no país quando oitenta e três porcento da população de um país vota em branco em um determinada eleição, sendo que a maioria daqueles que não elegeram o partido de direita ou o partido do meio ou o partido da esquerda, que para desgosto de saramgo nunca é eleito mesmo, se encontram na capital desse país e como resolução para esse conflito cerca a cidade sob vigilância militar e muros, em uma manobra semelhante a que foi tomada nos tempos da cegueira mas com medo de que mais uma vez aquelas situações ocorram o governo ousa falar sobre os incidentes da cegueira e sugera que os habitantes pacíficos da capital façam o mesmo, acontece que os habitantes da capital estão vivendo bem sem seus governos e milícias, trabalhando, estudando e levando suas vidas para frente, mesmo economicamente, sem rancores ou qualquer outra coisa que o valha para trazer o caos novamente para suas ruas, com a exceção de um cidadão aquele primeiro que cegou nos tempos da cegueira branca e que, depois de se divorciar da mulher que ofereceu o corpo em troca de comida no manicômio, manda uma carta até as autoridades de fora do cerco para contar que houve uma mulher que não cegou quatro anos atrás e que acreditava-se que podia ser a causadora dos votos em brancos, um comissário chefe de investigação vai se informar e se simpatiza com a mulher do médico e seu cão de nome Constante que outrora lhe enxugara as lágrimas, entretanto, determinados a acabar com a vergonha que a população causou ao governo ela e o cão são executados como era de se esperar e como era de se esperar também a população tornou ficar cega, não que já estivesse antes, mas agora a cegueira era física e não mental como antes, pouco se sabe como essa situação foi resolvida mas em dois mil e cinco saramago publicou as intermitências da morte, um livro onde a partir da meia noite que inciaria um ano ninguém mais morreu em um país fictício, não indicações de que seja o mesmo país mas sabe-se que também um país onde as autoridades são burras e radicais, temerosas e prolixas, um país onde bandeiras brancas são estiradas para comemorar a ausência do luto até que a morte resolva tornar a matar, o que gerou inconformismo da população e da milícia, agora é interessante notar como esse país se assemelh a portugal em muitos aspectos muito embora seja dito que o país não sofra de terremotos e sabe-se que lisboa já foi vítima de um poderoso tremor de terra no final do século dezenove o que me leva a pensar que talvez saramago se refira a um país ibérico, ou seja o portugal que nasceu com a espanha em que vive, onde aliás se desenvolve seus romances cadernos de lazarote um e cadernos de lanzarote dois, publicados antes de todos os nomes e a caverna, sendo que o primeiro, de mil novecentos e noventa e sete lhe causou uma certa insegurança por ser o primeiro a publicar depois da nomeação ao nobel o que significaria que ele seria aguardado com grandes expectativas, que foram cumpridas diga-se de passagem, mas isso não importa agora o que importa é saber que quando viajamos até um país de bandeiras em branco, como o fizemos nesse ensaios, na verdade estamos viajando até os nossos próprios países cujas bandeiras brancas foram pintadas e viajamos até nós mesmos, como sugere o conto infantil de saramago chamado o conto da ilha desconhecida, também de mil novecentos e noventa e sete e também em um país onde não se há nome apenas burocracias e o sonho de um homem que antes de se aventurar em seus sonhos e seus amores quer descobrir uma ilha desconhecida e vai pedir um barco para seu governante, mas esse é um país monárquico diferentemente do parlamentarismo do país das outras obras de saramago o que sugeriria um passado para o país de bandeira em branco, embora em intermitências da morte saiba-se que há uma rainha no país de pouca efetividade como na inglaterra, e uma solução para nosso problema, ou melhor dizendo, ensaio sobre um país onde as bandeiras só poderiam estar branco.

10 janeiro 2009

O fim de um trilogia


Em seu álbum de 2004, "Hail to the thief", o Radiohead iniciava com uma música chamada "2+2=5". Uma expressão um tanto quanto comum e que, alunos de um certo curso de matemática, tentaram comprovar aplicando uma função binomial em um trinômio quadrado perfeito. Falharam por causa de um detalhe ignorado, o que não vem ao caso aqui. Mas, o que talvez possa nos interessar é que Christopher Paolini, nascido em 1983 na Califórnia (que junto com outros 49 estados, incluindo o Alasca e o Havaii, formam os Estados Unidos da América), conseguiu a seguinte fórmula: 1+1+1=4.

O que surgiu em 2002 como a "Trilogia da Herança", passou a ser chamado de "Ciclo da Herança" a partir de 29 de agosto de 2007, depois um pronunciamento do próprio escritor. Tudo isso aconteceu por causa de seu primeiro livro, "Eragon" que começou a escrever quando tinha 15 anos e terminou quando tinha 19 (publicando-o para o mundo todo no ano seguinte). "Eragon" trata da história de "Star Wars" na Terra-média. Sim, é verdade. A história de fantasia com cavaleiros, dragões e magia é exatamente a mesma: jovem fazendeiro vive com tio por não saber quem é seu pai, mas, mal sabe ele, que está destinado a pertencer a uma extinta ordem de cavaleiros que foi traída pelo Imperador, que fora treinado pelo mestre que Eragon. Não é a mesma história? Se trocarmos Eragon por Luke, Brom por Ben e Galbatorix por Vader, teremos tudo pronto.

Mesmo assim, devemos dar o seguinte crédito a Paolini: sua saga é boa. Embora se pareça com uma aventura de RPG com um sistema de magia complicado e contraditório (um mago pode tudo e ainda assim não ousa nada?), ele trabalha com clichês e arquétipos. Ora, clichês só se tornam clichês por dar certo, não é? Por essa razão, o autor que estudou sob a tutel dos pais em casa e que teve total apoio e editores e amigos, se tornou um sucesso comercial e de apelo popular equivalentes ao de Harry Potter ou o recente "Crepúsculo". Entretanto, o filme de 2005 foi um fracasso (de publico, crítica e qualidade, apesar da produção esmerada), o que declinou o foco sobre a, então, "Trilogia da Herança" (como Paolini batizou sua saga).

E se "Eragon" começou como uma divertida aventura de viagens, batalhas, paisagens, amigos e histórias, o segundo volume foi além e tentou mostrar a seriedade dos eventos que circundavam a vida daquele jovem abandonado. Envolto em guerras políticas e poderes antigos, "Eldest" (mantendo o mesmo nome no Brasil, que poderia ser "o mais velho"), revelava a verdade sobre a ordem dos cavaleiros de dragões, sobre a magia, sobre os elfos e sobre a identidade do pai de Eragon.

E o segundo livro começa muito bem. A escrita mostra uma evolução em relação ao volume anterior, assim como a personalidade dos personagens. Eragon abandona a rebelião contra o Império e parte em busca de aprimorar o seu apredizado e o de sua dragoa Saphira. Em sua viagem, trava contato íntimo com a cultura dos anões, o que deve ser o ponto do livro. Um cultura subterrânea (como a de qualquer anão de literatura de fantasia medieval que se preze), mas voltada para antigas tradições e envolvimento com religião. Seus guerreiros sãos eres únicos, bem como seus costumes.

Entretanto, quando conhecemos mais a fundo a sociedade e o país dos elfos do continente Alagäesia, travamos contatos com uma insossa cultura de elfos da Terra-média com metafísica e zen-budismo. Sim, os elfos devem ser japoneses (até na aparência, diga-se de passagem). Eu nada tenho contra os japoneses, pelo contrário, os mais atentos podem reparar nesse blog o quanto eu devo para o Japão e seus habitantes. Mas, a filosofia zen e os princípios de criatividade e destrutividade do hinduísmo, parecem muito fora da realidade de um mundo como o de Eragon. penso que esses conceitos ficariam melhor em outros universos e histórias, sei lá.

Creio que a pior parte é tentar transformar Eragon em um elfo e curar sua ferida nas costas. O argumento é que com aquela cicatriz, ele jamais conseguiria enfrentar Galbatorix. Mas, ora, aí está a graça! Por que não tentar derrotar oa dversário de forma inovadora, apesar dos sofrimentos? Não, Paolini optou por ter como centro de sua história um personagem humano/elfo/anão, telepata, cavaleiro de dragão e mago/feiticeiro. Indestrutível, de certo. Perfeito e ainda assim completamente inútil contra o intocável vilão da série.

Obviamente, o livro termina com uma batalha entre Eragon e Murtagh (seu amigo desaparecido), onde ele descobre que são irmãos e filho do maior vilão de Alagäesia, depois de Galbatorix. Lembro da minha mulher acabar de ler o livro e gritar: 'por que o Murtagh não cortou a mão de eragon e o convidou a governar a galáxia como irmãos?'. Eu ri. Mas, também me lembrei que "Eldest" tinha um ponto alto: Roran, o primo de Eragon, uma pessoa normal, apaixonada, que se refugiou com seu povo e se mostrou alguém cheio de sofrimentos por entrar lutas de vida e morte. Uma história que foi anrrada ao longo de todo o segundo volume, paralela e independente da saga de Eragon e Saphira.

Assim, em 2007, quando muitos esperavam um livro de capa verde, com um dragão verde na capa e o título de "Empire" (por conter seis letras e começar com "e"), Paolini anunciou que não mais escreveria uma trilogia. O último volume da série estava ficando muito grande e decidiu dividí-lo em dois, fazendo assim de sua saga um ciclo. O "ciclo da herança" (herança, aliás, é o nome de um capítulo tanto em "Eldest" quanto em "Brisingr"). Muitos torceram o nariz por Paolini parecer estar buscando vender mais livros, outros gostaram da idéia de adiar o fim da saga para poder ler mais eventos dentro da história. O fato é que Paolini seguiu os caminhos de Hollywood, nos últimos anos: divir "O hobbit" em dois filmes ou "Harry Potter e as relíguias da morte" em dois filmes, também.

Assim sendo, no final de 2008, dois anos depois do segundo volume do agora "Ciclo da herança", chegava "Brisingr", com a capa preta e o dragão dourado Glaedr desenhado, oito letras no título mas começando com "b" e, até mesmo, um subtítulo: "ou as sete promessas de Eragon Matador de Espectros e Saphira Bjärtuskullar". "Brisingr" também não teve seu título traduzido para o português, mas significa "fogo" na língua inventada por Paolini para que seus elfos falassem (e a língua se parece, mas não é quênya ou sindarim).

Para quem pretende ler e ainda não leu, devido ao recente lançamento, eu resumo os próximos parágrafos da seguinte forma: mais uma vez, Eragon Skywalker enfrenta o Imperador Darth Galbatorix, depois de resgatar a amiga Katrina Solo das garras de Jabba Razac, depois do que parte para terminar seu trinamento com o Mestre Yodoromis em Du Dagoba, enquanto seus amigos da Rebelião continuam tentando destruir a fortaleza impenetrável de seu adversário e colocar Jedi do Dragão contra Jedi do Dragão em uma batalha final.

Para quem ficou interessado nas referências ao universo "Star Wars" e não se importa em saber um pouco mais, devo dizer que a escrita de Paolini nesse terceiro (e quem sabe penúltimo volume) se mostra ainda mais competente, de forma que seus personagens se parecem mais profundos do que de fato são ou que a situação do mundo é mais complexa do que fato é. Com base nisso, o livro começa com um excelente primeiro capítulo de busca. Porém, logo o livro embarca em tediosas centenas de páginas onde a falta de acontecimentos só é quebrada por insistentes conflitos físicos que só resolvem com espadas.

E apesar da presença marcante de Roran (que depois da metade do livro fica quase completamente apagada) só por volta da página 400 é que temos eventos dignos de nota. Eragon, mais uma vez, se aproxima do interessante reino dos anões e presencia mais coisas de sua cultura, de seus atentados, de suas coroações e de sua religião (incluindo a supreendente aparição de um deus, Gûntera). Apesar disso, a partir da página 500, com a desculpa de uma iminente e importante batalha, tudo se torna muito rápido: o fim do treinamento de Eragon junto aos elfos e a própria batalha final do livro (e não de Eragone Galbatorix). A batalha tem seu charme, devido a ser bem diferente das batalhas anteriores. Eragon atua de forma a permitir que o exército varden ganhe sobre Feisten, mas não luta contra nenhum grande vilão (só um Espectro, como Durza, mas isso logo é resolvido). Outro momento curioso nessa batalha, é o lampejo do que Oromis e Glaedr passam quando enfrentam o próprio Galbatorix (na, quase, primeira aparição do vilão, bem diferente do que acontece com Sauron, em "Senhor dos anéis").

Portanto, tanto o livro, quanto meu post de hoje, chega a um fim com a perspectiva de mais um volume pretensioso em seriedade e recheado de nomes (tanto quanto ou mais que o "Silmarillion"), enigmas e relações entre personagens. Penso que a destruição do Anel e consequentemente da Estrela da morte, se dará no conflito final com sabres de luz entre Ergon e Galbatorix.... Até lá, sugiro que tanto o leitor quanto o escritor diminuam suas expectativas para que o livro corresponda, apenas, ao que de fato representa: mais uma obra literária de fantasia, bem escrita e divertida. Não mais do que isso. Nada de revolução do gênero, sabedoria infinita ou coisa que o valha. "Eragon" fez sucesso por sua simplicidade, por que a trilogia não pode ter um epílogo tal qual?
"Brisingr" não muda tanta coisa na saga de Eragon quanto se espera, ele acaba quase como "Eldest", certa forma. Então, já que o autor resolveu alongar essa boa série de livros, ele poderia aproveitar e fazer um livro que seguisse a tradição dos dois primeiros (capa da cor do dragão, seis letras sendo a primeira "e"), de forma que "Brisingr" seja apenas um interlúdio entre "Eldest" e o suposto "Empire". Que a "Herança" volte a ser uma trilogia, pois se ainda fosse, "Brisingr" seria um 'final' frustrante para Eragon. Não só pelo que ainda falta ser feito pelo herói, mas pelo que a série poderia proporcionar.
Terminada minha inveja de um bom autor de sucesso com a mesma idade que a minha, retomo agora as outras leituras que estão na lista para esse ano.

06 janeiro 2009

Expectativa



O ano acabou e começou. Fiquei quase um mês sem nada publicar, pelas mais diversas razões, mas agora estou de volta e com muito material. Então, dentre o que andei planejando (mais expectativas e visões de futuros), decidi começar pelas expectativas a respeito do Sigur Rós para 2009. Por enquanto, a única coisa que se tem de concreto sobre a banda é que os integrantes estão na Islândia, de férias, desde 25 de novembro do ano que acabou. Eles deram dois shows em Londres (no dia 21 e 22 do mesmo mês) e depois deram um show gratuito na capital islandesa no dia 24. Desde então, descansam com suas famílias e em suas propriedades. Devem estar curtindo o natal islandês (que dura treze dias!) e os ritos invernais.


Então, quais são as expectativas? A primeira delas é que, depois de usar imagens de seus shows nos clipes de "Inní mér syngur vitleysingur" e "Við spilum endalaust", eles retomem os clipes em câmera lenta com historinhas. Para isso, os boatos afirmam que além de capturar imagens, desenhar storyboards e escrever roteiros junto com algum diretor, os caras estão em estúdio compondo e recuperando material de sobre de estúdio para usar em algum novo single para o álbum "Með suð í eyrum við spilum endalaust". E as possíveis faixas candidatas para um single circulam entre calma acústica de "Góðan daginn", a famosa "Festival", a pouco épica pouco provável de aparecer em shows "Ára bátur" e triste "Illgresi". Vamos aguardar. Sobre quais músicas estariam no lado b do single, ninguém tem conhecimento. Talvez sejam algumas músicas que surgiram na época do "Takk..." ou "Hvarf-heim".


Claro, nada disso é confirmado, ainda. Talvez, ainda coisa que está próxima de sair é um DVD contendo imagens dos dois shows em Londres realizados ao final de novembro e devidamente citados no início desse tópico. O diretor desse DVD será Vicent Morisset, que já trabalho com vídeos interativos para o Arcade Fire (outra banda que se você não conhece, deveria). E ele prometeu um trabalho bem diferente daquele visto no documentário "Heima", que acompanhava uma turnê do Sigur Rós pela Islândia, dirigido pelo veterano Dean Deblois, e premiado e cultuado em todos os países que puderam assistir alguma exibição. Por aqui, só em cópias importadas (isso é, se o seu aparelho de DVD rodar discos importados).


Sobre o "Hvarf-Heim" e o "Heima", acima citados, volto em um instante, enquanto falo sobre expectativas... O Sigur Rós parece ter uma habilidade fora do comum em criar expectativas e cumprí-las de de uma forma não correspondente às expectativas. Tudo começou com os atrasos na produção "Ágætis byrjun" ou com os anunciados atrasos para a data de lançamento de seu posterior "( )". Pelo menos, eram atrasos avisados com um bom tempo de antecedência e em tempos onde a expectativa sobre a banda era um pouco menor (está certo, "( )" foi muito aguardo na época, a ansiedade pelo novo trabalho da banda só crescia). Mas, depois de ver "Takk..." ter seu lançamente misteriosamente adiado por meses, percebi que havia ali um padrão na banda. Talvez pelo perfeccionismo do pianista Kjarri, talvez pelo perfeccionismo do produtor Ken Thomas, talvez pelo perfeccionista do vocalista Jónsi, talvez pela complexidade dos arranjos do quarteto Amiina, talvez por preguiça, talvez por descaso, talvez por costume islandês, talvez por insatisfação com a qualidade de alguns materiais de trabalho, o fato é que o Sigur Rós sempre atrasa o lançamento de seus trabalhos!


Quando eles anunciam uma data, essa data dificilmente será cumprida. Sequer o atraso será para uma data próxima. Lembram-se do lançamento do single de "Hoppíppolla"? Atrasou. E o single de "Sæglópur", então? Quase um ano, talvez, de atraso. Mas, as coisas começaram a ficar curiosas na primeira metade do ano de 2007, quando um anúncio no site oficial da banda dizia que a banda iria relançar a trilha sonora de "Hlemmur" junto com o DVD do filme e um livro de imagens e informações, iria lançar um single para a novíssima versão para ancestral música "Von" (de seu primeiro álbum, também chamao de "Von"), iria lançar um ep com versões ao vivo e acústicas de alguns sucessos seus acompanhada de um DVD e ainda iria lançar, finalmente, um CD e um DVD com o aguardadíssimo "Odin's raven magic". E como foi que tudo ocorreu?


"Hlemmur" saiu do jeito que eles falaram, só com algumas semanas de atrasos. O single de "Von" virou um EP chamado "Hvarf" que saiu junto com o EP "Heim" com músicas acústicas e ao vivo, com meses de atraso, seguido pelo fantástico filme "Heima", que teve alguns dias de atraso. Além disso, a metade "Hvarf" continha a inesperada nova versão de "Hafsól" (que aparecia no primeiro álbum como "Hafssól"). Ótimo. Depois disso, cumpriram com os prasos e lançaram um novo e impronunciável álbum em meados de 2008 (muito embora a edição de luxo tenha sofrido um atraso de quase dois meses, e as músicas não soaram exatamente como eles anunciavam: um retorno aos primórdios da banda, mais sombrio, com ênfase na bateria e nas orquestrações, entretanto, de fato, mais acústico). E, do que estou reclamando? O que está faltando? "Odin's raven magic", provavelmente a melhor coisa que já ouvi na vida!


Essa obra foi composta em 2001 e foi apresentada em 2002 em Londres, Paris, Copenhagem e Reykjavík. A versão de Paris foi filmada e seu áudio pode ser encontrado na rede para download gratuito e ilegal (mas, por enquanto, é única forma de ouvir essa obra). Entre 2006 e 2007, a banda se reuniu com os outros integrantes do projeto (o quarteto Amiina, uma pequena orquestra, um coral, o autor da peça e o bardopescador Steindór Andersen, com quem haviam trabalhado em raro EP chamado "Rímur") em um estúdio para passar o som de novo e apresentar um álbum com qualidade perfeita, acompanhada de imagens de bastidores e apresentações. Até agora, depois de abandonar qualquer rumor, só se sabe que o álbum está em mixagem e pode ser lançado até dezembro de 2009, com a possibilidade de acompanhar algum DVD.


E do que se trata Ödin's raven magic"? Trata-se de uma opera clássica e erudita composta pelo alto sacerdote da antiga religião pagã dos povos nórdicos Hilmar Örn Hilmarsson, que também é poeta, historiador e tem experiência em bandas de heavy metal, punk, gótico, música eletrônica, techno, rock progressivo, pop e trilhas sonoras (para a "Lenda de Grendel", inclusive, onde foi consultor e atuou em umas cenas de funeral e batismo realizadas em seu país). Além da sonoridade rock do Sigur Rós e da presença de música acústica de câmara dos outros integrantes do projeto, "Odin's raven magic" conta com um xilofone gigante (tocado por três pessoas ao memso tempo) feito de pedras calcárias encontradas nas regiões vulcânicas. O fabricante e seu produto podem ser visto em uma curta cena do "heim", mostrando como aquele deve ser o instrumento de som mais bonito no planeta.


O texto que permeia os sete capítulos e 64 minutos da obra provém do poema "Hrafnagaldur Óðins", presente na coletânea de contos islandeses "Edda", de Snorri Sturlusson, escrita no século XIII depois da coleta da tradição oral junto aos camponeses. No século XIX a autenticidade desse poema em especial foi contestada com o argumento de que ele, na verdade, datava do século XV, um período fundamentalmente cristão e que abominava qualquer resquício de paganismo. Mas, na década de 60, um professor de literatura, historia e mitologia da Islândia (cujo nome eu não me recordo) conseguiu reinserir o poema nas novas edições do "Edda". E, afinal de contas, sobre o que se trata? Trata sobre um banquete organizado pelo deus asgardiano Odin para todos os outros deuses e guerreiros, mas o clima de festa acaba quando os dois corvos de Odin chegam: Hugim e Munim ("memória"e "pensamento", respectivamente). Eles chegam para anunciar que não motivo apra festejar, pois tudo o que se conhece está prestes a ser destruído. Agourentos, anunciam o famoso episódio do Ragnarök, o crepúsculo do deuses, quando Asgard, Odin e muitos outros cairão sob as mãos de gigantes de gelo e fogo, serpentes gigantes e traições do deus Loki.


Então, meus caros, finalizo anunciando que as expectativas são essas todas, por enquanto, e que pelo visto estamos perdendo muita coisa boa nos últimos tempos. E, se os corvos estiverem certos, não teremos muito tempo...

08 dezembro 2008

"Unfinished", "unpublished" e "unedited"






Quando "Os filhos de Húrin" saiu, em abril de 2007, houve muito furor por parte dos fãs de Tolkien. Enquanto alguns torciam o nariz alegando que aquele era mais um caça-níquel por parte de Christopher Tolkien, quase todos ficaram muito felizes por ter a oportunidade de ler um trabalho 'novo' de seu autor favorito. O argumento contra era que Christopher já havia sugado tudo o que podia do espólio do pai e não sabia mais o que inventar para arrecadar mais dinheiro dos fãss da Terra-Média e suas histórias. Ele já havia publicado os "Contos inacabados" (com trabalhos que Tolkien deixou por concluir, como o próprio nome indica) e as "History of Middle Earth" (ou "HoME"), uma série de 12 volumes com rascunhos e projetos abortados para os contos e livros da Terra-Média. Isso sem falar no próprio "Silmarillion", que foi concluído às pressas por Christopher e o amigo Guy Kay.



Enquanto no "Silmarillion", ficou claro que alguns materiais ficaram de fora por não estarem devidamente organizados e outros materiais foram rearranjados para ficarem coesos com o livro todo, os "Contos Inacabados de Númenor e da Terra-Média" mostraram a criação de Tolkien no estágio em que ficou parado, ou nas formas em que evoluiu. Isso foi fantástico pois, além de termos acesso a várias informações importantes a cerca da Terra-Média, também podíamos compreender como Tolkien trabalhava. E foi nesse livro que encontramos, logo no início, a "Narn i Hîn Húrin" (a "narrativa dos filhos de Húrin"). Vestígios de uma história que poderia ter sido muito mais longa e elaborada do que o capítulo "Túrin Turambar" que está na versão do "Silmarillion" publicado.



Ao longo de vários capítulos nos mais diferentes estágios de composição, conhecemos a história de como o humano Húrin é preso por Morgoth, inimigo dos elfos e do valar, e de como cresce e se aventura Túrin, seu filho, em uma vida cheia de desgraças que envolve furtos, assassinatos, maldições, incesto e uma violenta luta contra Glaurung, o primeiro dragão. Essa história estava quase pronta, Christopher mesmo afirma isso para justificar a ausência de alguns capítulos que, na verdaed, já estavam integrando o "Silmarillion". Dessa forma, quando "Os filhos de Húrin" foi anunciado e chegou as livrarias, o que encontramos não foi uma história inédita, mas toda a narrativa dos "Contos inacabados", mais alguns capítulos do "Silmarillion" e passagens das "HoME", organizada de forma coerente e contínua, como o livro que, de fato, poderia ter sido (e quase foi).



A emoção de ler a única história longa da Primeira Era se misturou com a emoção de ler um bom livro. O fascínio que esta mistura gerou, também gerou a pergunta: ainda veremos trabalhos 'inéditos' de Tolkien? A resposta seria, só Christopher sabe. Mas, podemos ter uma idéia do que não foi acabado, publicado ou editado... Por exemplo, desde quando Tolkien começou a criar sua mitologia para a Inglaterar (na época em que o "Silmarillion" se chamaria "Book of lost tales", na década de 1920), ele já afirmava que por toda a história da criação do mundo e da guerra das jóias entre elfos e orcs, haviam três importantes histórias a serem contadas. Três grandes contos daquele Primeira Era. Os contos eram: "Beren e Lúthien", "Filhos de Húrin" e "Queda de Gondolin".



Sobre "Os filhos de Húrin", sabemos que durante grande parte de sua vida ele desenvolveu a narrativa e que Christopher a compilou e organizou durante os últimos 30 anos. Isso tudo foi registrado emc artas, introduções de volumes publicados e entrevistas. Agora, e sobre os outros dois contos? "Beren e Lúthien" começou como um gigantesco poema que nunca foi terminado e que chegou a metade de seu tamanho, apenas. Porém, existem versões desse conto para o "Book of lost tales" (da década de 20), para o "Qenta Noldorinwa" (da década de 30), para o "Quenta Silmarillion" (da década de 60) e finalmente o "Silmarillion" (publicado em 1977), sem contar um outro poema publicado no "Senhor dos anéis". Portanto, considero que um estudo de todas essa versões, mais acréscimos de outros capítulos e passagens de Tolkien sobre aquele período histórico e geográfico, poderiam dar origem à um belo e longo conto a cerca do amor entre o humano Beren e a princesa elfa Lúthien, que juntos conseguem recuperar uma silmaril da coroa de Morgoth.



Claro que só esse conto não ocuparia tamanho suficiente para um livro, portanto, poderíamos acrescentar a "Queda de Gondolin" a esse projeto editorial. Talvez esse seja o conto que mais possua versões e que mais foi trabalhado por Tolkien. Além de ter sido escrito em diversos poemas (alguns ainda inéditos), ele também encontra versões em todas aquelas quatro tentativas de "Silmarillion" citadas acima, bem como versões contadas por diferentes pontos de vista e vários textos paralelos a esse evento, mas com profunda relação (tanto antes quanto depois da descoberta e destruição da cidade fortificada e escondida). Acrescenta-se a isso o conto inacabado "Da chegada de Tuor a Gondolin" (que entre os vários estágios de evolução, trata em detalhes sobre a queda da cidade) e pronto, teríamos um conto quase tão extenso quanto "Os filhos de Húrin". Claro, que Chritopher teria um grande trabalho para organizar e editar o texto de forma coerente e verossímil, mas não seria um trabalho impossível, com tantas referências e textos de apoio, já conhecidos pelos fãs.



Então, se temos dois grandes contos da Primeira Era juntos em um mesmo volume, por que não acrescentar o terceiro? Não, não estou me referindo a publicar "Os filhos de Húrin" mais uma vez, mas em acrescentar o conto "Wanderings of Húrin" (presente no volume XI das "HoME, "Morgoth's ring"), no qual Húrin é liberto doc aiveiro e vaga sem destino pelo mundo, até saber das tragédias de seu filho e sua filha, onde parte para se vingar o mal feito a eles. Embora esse seja o conto menos trabalhado e revisto por Tolkien, é um dos mais detalhados a cerca da Primeira Era. Se mais uma vez acrescentarmos passagens de outras fontes, teríamos aí mais um magnífico conto para integrar o volume.



Assim, já que não custa sonhar, meu livro dos sonhos receberia o pequeno título de "Livro dos três grandes contos perdidos da primeira era, ( ou: que não foram acabados, publicados e editados até os dias de hoje)" e poderia ser lençado a tempo de conseguir laçar o público que está se preparando para assistir o "Hobbit" no cinema. Ah, e como apêndice, poderíamos ter anexados os textos e frases de Tolkien que foram encontrados depois do término das "HoME" (como por exemplo o artigo sobre o poder subconsciente ou telepático dos elfos, ou a frase em que se afirma que elfos podem ter barba, o que justificaria a aparência de Círdan). Então, alguém se habilita a escrever essa idéia para a Tolkien enterprises ou para o próprio Christopher Tolkien? Contem com minha assinatura!

02 dezembro 2008

Susana e representação da liberdade sexual


Mais uma vez aqui, volto a argumentar qualquer coisa sobre Nárnia. Deve ser para encerrar alguma trilogia sobre o assunto, ou para fechar um ciclo a respeito desse meu súbito re-interesse no mundo de Nárnia. Sou fã da série desde 1999, quando li "A cadeira de prata"(é, li fora de ordem). De lá para cá, misteriosamente, cada vez mais a série de livros despertou meu interesse. Eu a conheci somo um consolo para apaixonados por Tolkien (nesse sentido me frustrei, pois uma série quase nada tem algo em haver com a outra), mas cativado pela escrita simples e personagens caricatos em um mundo paralelo e cristão. Parece hilário, mas esses elementos geralmente eu repugno. Mesmo assim, insisti e lutei contra meus temores, sendo afinal cativado por animais falantes.

Mas, o preconceito com Nárnia não foi só meu. Ao longo de todos esses anos (mais de meio século), a obra de C. S. Lewis foi acusada de racismo, machismo, intolerância religiosa e demais discriminações. Uma das principais delas é a questão da sexualidade. Tal teor, praticamente, é inexistente na obra (apesar da presença de faunos, ninfas e do próprio deus Baco) e parece ser rechaçado, de alguma forma sutil. A principal vítima disso tudo é Suzana Pevensie, a mais velha das irmãs e irmãos Pevensie (aquelas quatro crianças que visitam Nárnia no primeiro livro publicado da série, "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", mais tarde, elas são citadas no "Cavalo e seu menino", mas retornam em "Príncipe Caspian).

No último volume a ser publicado e, concomitantemente, o último volume da cronologia (apesar de ter sido o penúltimo livro da série a ser escrito), vemos toda a destruição de Nárnia por meteoros, serpentes gigantes, pragas e guerras. Após todo esse caos, vemos que vários habitantes de Nárnia, incuindo as crianças da Terra, são levadas por Aslam até seu reino, a verdadeira Nárnia. Claro que, obviamente, se trata do paraíso destinado àqueles que estão com cristo até os dias do juízo final. E, mesmo que nem todas as crianças estivessem lá, elas ainda assim chegam até a verdadeira Nárnia (sim, elas morrem em um acidente de trem e renascem para a vida eterna).

Então, ficamos sabendo que todos aqueles humanos terráqueos filhos de Adão e filhas de Eva que já estiveram em Nárnia, tiveram uma segunda e última chance de voltar para lá, mesmo que o prazo para isso já tivesse sido expirado (como é o caso do Pedro Pevensie, que já estivera em Nárnia antes de crescer, e de Lúcia Pevensie, que já estivera em Nárnia três vezes). Curiosamente, ninguém menciona que o tio André Ketterley também já fora para Nárnia e que, por alguma razão, ele não retornara para lá. A razão pode ser simples, dentre duas possibilidades: C. S. Lewis se esqueceu do detalhe que incluíra esse personagem em Nárnia no volume "O sobrinho do mago" que conta a história de Nárnia mas foi escrito após a última batalha, ou C. S. Lewis não quis valorizar o maligno personagem do feiticeiro que desperta Jadis e abre portais entre mundos através de um 'achado' anel atlante.

Partindo da segunda suposição, devemos interpretar que os maus não heradarão a terra de Nárnia, certo? Algo bem cristão, por assim dizer. Pois bem, acontece que Susana Pevensie também não é levada a Nárnia verdadeira. Ok, tudo bem, ela não morre e continua vivendo em Londres, mas é dito que ela cresceu, virou mulher adulta, se dedicou ao trabalho e a vida social, esquecendo-se de Nárnia como se sua viagem e seu reinado fossem apenas uma brincadeira confusa de sua criança. Agora, vamos refletir sobre isso... Susana foi duas vezes à Nárnia, foi rainha durante anos, conheceu o Papai Noel, conheceu Aslam, participou de guerras mesmo se recusando a matar alguém com o arco e as flechas que ganhara, possuía uma trombeta que foi responsável pela salvação de Nárnia na Guerra da Libertação ao lado de Caspian X contra seu tio Miraz. Como ela poderia ter se esquecido? E mesmo que ela tivesse se esquecido, como Aslam poderia ter se esquecido dela?

A solução que encontrei é triste, mas é possível. Susana foi a única a mostrar alguma paixão, um princípio de sentimento que envolve afeto, admiração e erotização. Fica claro e ao mesmo subentendido que ela nutriu algum interesse por Caspian, durante sua última visita à Nárnia. Ao que, logo após, nunca mais voltou para Nárnia. Susana estava crescendo em Nárnia, na verdade, aprendeu muito lá, passou por ritos de passagens muito simbólicos e importantes, para só depois retornar para a Terra com força o suficiente para se tornar mulher. Para quem leu meus posts anteriores, deve se lembrar que citei que achava que Susana faria diferença na "Última batalha", isso por quê acredito que Jadis reflete os mistérios de Susana e de todas as mulheres. A feiticeira branca, a feiticeira verde, a rainha das neves, a habitantae solitária da pétre Charn, é que revela os processos da terra e da noite. Processos esses que só conseguem ser representados por uma mulher.

Assim como Jadis, ao longo de todas as crônicas em Nárnia, mostrou questões de amadurecimento e de papéis sociais e fisiológicos que uma mulher desempenha ao longo de sua vida, também Susana vivencia e revela essa experiência de tornar-se mulher e abandonar um lado mais próximo das donzelas. Penso, portanto, que o que afastou Susana de voltar para a verdaeira Nárnia, sem pecado e sem passado, foi o fato de que Susana por si só abandonaria Aslam e aproximaria do culto a Jadis (culto esse que ela presenciou junto ao príncipe Caspian, deve-se dizer). E, se em um primeiro post falei sobre a religião (que funde mito e humanidade), pude falar sobre o mito no segundo post para culminar com a humanidade nesse terceiro post. A humanidade de Susana Pevensie, a personagem mais humana de Nárnia e uma excelente mulher de verdade, que não precisaria de Nárnia alguma para ser quem deve ter sido.

Inklings: da Terra-média para o espaço


Tolkien conheceu Jack em 11 de maio de 1926 em uma reunião da faculdade. Jack fora recém aceito na cadeira estudos lingüísticos da mesma. A amizade dos dois foi instantânea e, enquanto durou, foi forte. Tolkien influenciou Jack a conhecer a fé (conforme relata no poema “Mythopoeia”), a escrever livros de fantasia para crianças e a participar dos Inklings, uma sociedade de contistas, romancistas e poetas que, além de discutir suas obras ou obras importantes da literatura anglo-saxônica, eram bons amigos e confidentes, gostando de passar as noites de quarta-feira juntos, fumando cachimbo no Balliol College.
Tolkien já tivera outros grupos de estudo e apreciação de produções literárias (como o ‘koalbitters’, ‘mordedores de carvão’ em islandês, numa referência aos mineiros que passam as noites de frio junto ao fogo, contando histórias; ou a T.C.B.S.), mas nenhum grupo foi tão ilustre quanto os Inklings. Além de Tolkien e Jack, também participava desse grupo o fiel amigo de longa data de Tolkien: W. H. Auden, famoso poeta, importante crítico, influente editor e excelente autor.
Jack costumava chamar Tolkien de ‘Tollers’ (apelido que o acompanhava desde criança) e a proximidade entre os dois foi tão grande, que Jack foi um dos primeiros a apreciar a “Lay of Beren and Lúthien” e tantos outros aspectos do mundo que rondava as lendas sobre os elfos, as silmarils e os próprios Beren e Lúthien. Assim, em 1930, com os humores elevados por conta de vinho, Tolkien (ou Tollers) e Jack combinaram que cada um escreveria uma história de ficção científica que remontasse à descoberta do Mito. Tolkien (ou Tollers) escreveria sobre uma viagem no tempo, e Jack escreveria sobre uma viagem pelo espaço.
A história de Tolkien chamava-se “The lost Road” e nunca passou do terceiro capítulo (conforme se vê no quinto volume das HoME, chamado precisamente de “Lost Road and others tales”). O livro mostraria como o professor de línguas Alboin e seu filho, desenvolveriam sua relação até então tão distante, enquanto voltavam no tempo através de sonhos para desvendar um mistério que encontrara em sua biblioteca: uma estrada perdida que segue reta para fora do mundo até encontrar Atlântida, prestes a cair. Atlântida, na verdade, se chamava Númenor (alguém reconhece esse nome de algum lugar?).
Mais uma vez Tolkien impunha sua própria mitologia em obras que não se tratava da Terra-Média. Claro que devemos levar em conta que “O hobbit” e consequentemente “O senhor dos anéis” ainda não tinham nem sinais de existência, mas, ainda assim, elementos como elfos, Morgoth, Sauron, Valinor se faziam presentes durante os tempos de guerra que culminariam na destruição de Númenor por ondas gigantes enviadas pelos valar.
Sim, era um romance dos tempos do “Akallabêth”, o conto publicado no “Silmarillion” e citado no “Senhor dos anéis” a respeito da queda de Númenor ao final da segunda era. E este mesmo tema recorreu numa outra história inacabada (e publicada na nona HoME, “Sauron defetead”) chamada de “Notion club papers”, iniciada em 1945 sobre um grupo semelhante aos Inklings, próximo do final do século XX, que de alguma forma conseguem pistas sobre a corrupção dos homens e a queda Númenor durante tempos de guerra. Parte dessa segunda narrativa foi publicada em forma de versos sob o título de “Imram”, na “Time & Tide” em 1955, baseado nas lendas irlandesas de São Brandão, que chegou até um paraíso nos distantes mares do ocidente.
Jack, por sua vez, escreveu, terminou e publicou um livro sobre Elwin Ransom, que é levado até Marte no livro “Out of the silent planet”. Mais ainda, Jack escreveu uma continuação chamada “Perelandra” (sobre uma viagem do mesmo herói até Júpiter) cuja qual Tolkien (ou Tollers) gostou ainda mais do que da primeira. Entretanto, Tolkien abominou a terceira e última parte do que ficou conhecida como “trilogia espacial” (há anos no prelo de uma editora evangélica), chamada de “That hideous strength”, que culmina em uma viagem até Vênus.
O que é mais interessante nessa série de livros de ficção científica (os primeiros livros de Jack) foi que Tolkien (ou Tollers) encontrou alguns ecos de sua obra na obra do amigo (isso muito antes da amizade dos dois se romper devido a, possivelmente, inveja por parte de Tolkien para com o sucesso do amigo). O mito descoberto nas histórias de Jack era o mito de Adão, Eva e a ascenção e pecado da humanidade. Para tanto, referia-se a um paraíso nomeado como Numinor, onde um casal chamado Tor e Tinidril (Tuor e Idril, humano e elfa na “Queda de Gondlin”?) recebiam a visita de Elwin (variação lingüística e snonora de Aelfwine, “amigo dos elfos” e personagem central do então “Book of lost tales” a primeira versão escrita do “Silmarillion”).
Antes de concluir, é importante frisar que “Jack” era o apelido dado a Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis, que quando escreveu o sexto volume das “Crônicas de Nárnia” em 1955, conhecido como “O sobrinho do mago” referiu-se a anéis vindo de Atlântida. Mais uma mera coincidência ecoando em sua obra ou mais mito revelado na história dos Inklings?

Tom Bombadil e o Homem-da-Lua


Muitas são as lendas, mitos e contos folclóricos a respeito da Lua. Só na Inlaterra, encontramos um fazendeiro que vive por lá, um cavaleiro matando um dragão e muitas outras. Tolkien, que tanto queria recriar a mitologia britânica, não deixou escapar a oportunidade e, por essa mesma razão, trouxe o homem da lua para seus contos. Não exatamente um homem... Tilion era um maia, um servo angelical dos valar. Era Tilion quem ocupava a vaga de timoneiro da embarcação ou da carruagem da Lua, sempre seguindo Árien, a navegadora do Sol. Tilion, apaixonado por Arien, seguia um curso instável quando renascia no leste depois de passar por baixo da terra, mas isso não vem ao caso.


Arien não só ocupava o brilho das antigas lâmpadas ou das árvores que foram destruídas por Melkor, no início dos tempos, antes dos homens nascere. Arien também foi a motivação para que um personagem folclórico surgisse na obra de Tolkein. Em toda a obra, literalmente. O Homem-da-Lua é um personagem recorrente que pertence a universo algum. Tanto habita a Terra-média como outras histórias sobre o nosso mundo, conforme veremos.


A primeira referência pode ser encontrada no "Senhor dos anéis", quando os hobbits cantam sobre ele no Pônei Saltitante, aquela estalagem em Bri. Aquelas mesmas canções, podems er encontradas no livro "As aventuras de Tom Bombadil". Lá, em dois poemas ambos atribuídos a Bilbo, ficamos sabendo como o Homem-da-Lua veste prata e de prata é sua barba e seu cabelo. De prata é a chava que abre as portas de marfim que leva até a escada que desce ora sobre um monte, ora sobre o mar. E o Homem-da-Lua, adornado com pedras preciosas sente falta de cores e de comida, mas costuma mesmo é descer cedo para beber da melhor cerveja, mas nunca no Yule (o natal, para quem ainda não sabe), pois ninguém lhe abre protas no frio. Sabe-se, também, que às vezes bebe demais e tem acordar muito cedo, de ressaca, apra voltar para Lua antes do dia nascer (o que uma vez acabou por deixar que uma vaca chegasse até a Lua).



Uma história tão hilária assim, não poderia ficar restrita a um livro adulto, como "O senhor dos anéis", portanto, não é de se espantar que o encontremos em "Roverandom", aquele livro que Tolkien escreveu apra seu filho Michael, quando este perdeu seu cachorro de brinquedo. O livro conta como um cachorro é transformado em brinquedo e acaba por viver grandes aventuras no fundo do amr e até na Lua, onde mora um dragão e um feiticeiro (que tem algo de Gandalf, assim como os outros feiticeiros da história). Mas, o mais curioso é que entre espinheiros e aranhas (em citações a Shakespeare e alguns contos de fadas), o cão Rover encontra um outro Rover (um cão-da-Lua) e o próprio Homem-da-Lua, que o ajuda a descer para o mar (uma vez que há um caminho que liga o mar até a Lua). E, se não bastasse isso, entre outras coisas, sabe-se como foguetes de festa escureceram a Lua e permitiram um eclipse (fato que, de fato, ocorreu enquanto Tolkien escrevia a história).


Qual a importância dese eclipse? Bem, nas "Letters from Father Christmas", o Homem-da-Lua desce para Terra por conta de uns foguetes que escureceram a Lua e permitiram o eclipse. Esse livro, na verdade, se trata de uma compilação de cartas que Tolkien escreveu para seus filhos por mais de vinte anos, como se fossem de autoria do Papai Noel. Um livro sensível e divertido, com várias histórias e ilustrações, que tem como personagens principais o Papai Noel, Polka um urso polar, orcs malignos e um elfo ajudante do Papai Noel chamado Ilbereth. Um nome muito semelhante a Elberteh, não é mesmo? Elbereth foi um dos nomes dado a Varda, uma vala cujo título significa "Rainha das estrelas".


E entre tantas referências que Tolkien fazia a Terra-Média em suas obras infantis, somos levados a esbarrar em poemas e brinquedos. Dessa forma, fica claro que o final dessa jornada seria Tom Bombadil, talvez o personagem mais enigmático do "Senhor dos anéis". Durante três apítulos do livro (que o próprio autor descreveu como fora do clima e da própria história), travamos contato com esse personagem brincalhão e alienado, que parece só querer cantar e conlher nenúfares para sua esposa (a também enigmáica Fruta D'ouro). Tranjando botas amrelas, jaqueta azul e um chapéu de abas largas com uma pena de ganso (vestimenta quase idêntica ao mago da areia Psmathos Psmathides, do "Rovernadom"), tudo o que ficamos sabendo sobre Tom Bombadil é que ele não é nem humano e tão pouco um hobbit. Pertence a raça alguma é o senhor da Floresta Velha. Por alguma razão, a guerra do Anel não o interessa e sequer Sauron ou o Anel surtem algum efeito mínimo sobre ele. Tom Bombadil está na Terra-Média desde o início e provavelmente será o último morrer, sendo, portanto, o mais velho (como o chamam os elfos).



Curioso por mais informações no intuito de descobrir quem, afinal, é Tom Bombadil, qualquer leitor pode procurar "As aventuras de Tom Bombadil". Entretanto, as divertidas poesias que se encontram lá, nada ou quase nada acrescentam para resolver o mistério. Na verdade, só ficamos mais curioso a respeito desse personagem que desafia os (possíveis) huorns que vivem em suas terras, bem como as aparições de príncipes Cardolans mortos e traidores, enterrados na COlina dos Túmulos, tão perto da Floresta Velha. Sabemos também como ele se encantou imediatamente pela Fruta D'Ouro e fez de tudo para consquistá-la e lhe dar um linda cerimonial e vida de casamento. E os dois parecem ser felizes juntos, principalmente quando sozinhos. Muito embora, Tom Bombadil, que canta sobre si mesmo, faça visitas a alguns amigos animais e ao fazendeiro Maggot (aquele mesmo que cria cogumelos e que perseguia Frodo quando criança). A dúvida a mais que surge é: o Rio é um homem ou uma mulher? Não fica claro em nenhum momento, mas muita coisa aponta as duas possibilidades. Sobre annimais falantes, isso pode ser visto no "Hobbit" e no próprio "Senhor dos anéis".



Então, como resolver Tom Bombadil? Tolkien já disse que ele não é um valar ou o próprio criador Eru Iluvatar. Ninguém mais ousa considerar a hipóteses metafísica de Tom Bombadil fosse o próprio Tolkien. Então, só nos resta fazer um resgat de como o personagem foi criado. E, mais uma vez, um brinquedo do filho Michael entra na história. Era um boneco holandês com uma pena no chapéu. Certa vez, o filho mais velho de Tolkien, John, por não gostar desse boneco, jogou-a na privada. mas, Tom Bombadil conseguiu ser salvo e se tornou o herói de uma história que iria encantar toda a família. A história se passava nos dias do Rei Bonhedig (que ninguém tem a menor idéia de quem seja) e... bem, a história acabava aí. Depos disso, Tom Bombadil virou o personagem de um poema ("As aventuras de Tom Bombadil") em 1932, anos antes de Tolkien pensar em escrever sobre hobbits ou anéis mágicos.



Entretanto, sem nenhum elemento da sua Terra-Média ou do seu "Silmarillion", Tolkien ofereceu os poemas e aventuras de Tom Bombadil (que iriam muito mais longe do que foi) como uma possível continuação para o "Hobbit", mas os editores não ficaram entusiasmados. Tolkien compreendia, assumindo que Tom Bombadil, na verdade, representava o espírito da região campestre de Oxford e Berkshire, que já haviam chego a sua ascensão e agora minguavam. De qualquer forma, aqui vemos, mais uma vez, como de fato Tom Bombadil era o senhor de um lugar e de um tempo, sendo o próprio lugar e o o próprio tempo, na verdade. Assim, Tom Bombadil é a Floresta Velha (enquanto Fruta D'Ouro é o rio Voltavime que cruza a floresta, da mesma forma que Caradhras, aquela montanha ranzinza que ataca a Sociedade do Anel).



Portanto, assim como Tolkien inseriu diversos elementos de sua mitologia particular nas suas obras paralelas (conforme apontei no tópico sobre o "Hobbit"), parece que ele também aproveitou e inseriu elementos d eoutras obras suas naquelas relativas a sua mitologia (conforme também se iniciou a discutir no post sobre o "Hobbit"). Então, entre brinquedos e histórias para família, entre folclore e poesias, a Terra-Média (e toda a obra de Tolkien) é constituída disto: de Tom Bombadil e de Homem-da-Lua.