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24 abril 2010

O tom de Ingi


Segunda - feira, véspera de carnaval. Você entra em um pub inglês na capital. Está anoitecendo (na verdade, o sol parece estar se pondo a tarde toda, soprando ventos gelados com grãos de neve que se depositam sobre os lagos congelados). Você está bebendo sua cerveja sozinho com sua esposa quando dois rapazes entram rindo e falando alto. Tudo está bem. Um deles arrisca uma roleta e ganha 8 cervejas, arrisca de novo e ganha mais 8. Obviamente, não iriam tomar 16 cervejas em dois, então oferecem 2 para vocês.
Nesse momento, o outro rapaz procura o isqueiro para acender o cigarro e você se oferece para emprestar seu isqueiro e fumar junto. Você descobre que o rapaz tem o apelido de Haddo (o nome é Haldór, o mesmo do escritor islandês premiado com o Nobel). Após apagar as bitucas, fica combinado que os dois rapazes se sentarão com vocês na mesa.
Depois de cervejas e risadas, depois de conversas sobre cultura, política, música (com direito a imitar e falar mal do Jónsi, do Sigur Rós) e sexo, o outro rapaz paga toda a conta sozinho e chama um táxi. Ele os leva até o estúdio dele para tocar violão, cantar mesmo estando rouco e lhe presentear com um CD autografado. Esse é o Ingi.
Ingi é o mais novo músico de sucesso da Islândia, mostrando que existe outras vidas além de Björk, Sigur Rós, Múm, Olaf Arnalds, Amiina, HÖH, Thor's Hammer e outros mais obscuros. Suas músicas tocam nas rádios e ele costuma fazer apresentações na rede nacional de televisão. É claro que no verão ele deve excursionar em festivais europeus e já planeja um retorno aos Estados Unidos (onde gravou e mixou o CD, em uma cela de Alcatraz) e ao Japão. Mas como seus CDs serão lançados na Oceania, é possível que ele vá até lá, embora o sonho atual seja de vender CDs no Brasil para um dia tocar aqui.
“Human oddities” é o nome do CD, título que vem dizer sobre as estranhezas de relacionamentos e comportamentos humanos. As músicas são crônicas indie e pop inspiradas no rock de Bob Dylan e David Bowie. O álbum foi produzido por Scott Mathews, que já trabalhou com George Harrisson, Ringo Starr, Keith Richards, Mick Jagger, Beach Boys, Johnny Cash e tantos outros.
A primeira que ouvimos ao colocar o CD no disc player é “Sylvia”, nome da namorada de Ingi, que é quem também assina a arte do encarte e os quadros que decoram o estúdio. A segunda música é “Power to the bastards”, que inclusive já virou um clipe curioso estrelado pelo premiado Olafur Darri Olafsson e dirigido por Markell. Logo em seguida, você ouve “You little fruitcake”, que deu origem ao primeiro clipe de Ingi, recheado de cenas famosas da Tv e com a presença do mesmo violão que ele usou para gravar o CD e para tocar no estúdio para você.
E assim o disco todo segue por 10 músicas com violão, guitarra, bateria e instrumentos de sopro (como ocasionais cordas, pianos, coros e efeitos), até chegar na última música, “She’s so silly” que fala sobre amizade com aquele Haddo que você conheceu, que lhe garantiu que te ajudaria em tudo o que você precisasse naquela semana e que ainda lhe deu o número de celular dele e do Ingi.
Um bom jeito de fechar um divertidíssimo CD e uma memorável noite. Agora, enquanto esse som não chega por aqui, o melhor jeito de começar a conhecer o trabalho de Ingi é procurar os clipes e apresentações no YouTube e no Facebook, seguí-lo no twitter e visitar sua página constantemente. Quem sabe não realizamos o sonho dele e o trazemos até o Brasil?

01 abril 2010

Islandia (ou: O país do Sigur Rós)


Quando se ouve Sigur Rós, é fácil pensar em como a paisagem solitária da Islândia influenciou as composições da banda. O inverno longo e rigoroso que torna tudo tão quieto dá o clima perfeito para as canções do álbum "( )". O desejo para que o sol nasça (mesmo que sua luz sempre esteja na vertical e dure tão pouco) motivam canções como as do disco "Von" (especialmente "Dögun", "Lei ad lífi", "Myrkur", "18 sekúndur fyrir sólarupprás" e "Hafsól") e a "Glósóli". As rajadas de vento e os vapores de tanta atividade vulcânica explicam perfeitamentet porque o disco "Ágaetis byrjun" foi considerado um disco sobre a própria Islândia.

Não à toa, encontramos um documentário do Sigur Rós chamado "Heima" ("em casa") onde eles tocam pelas pequenas e coloridas cidades do país. Também não é à toa que encontramos músicas da banda com o nome de "Fljótavík" ( o nome de um lugar da Islândia). Aliás, é a mesma explicação para músicas como "Starálfur"(sobre os elfos do país), "Flugufrelsarinn" (sobrer o mar, as baleias e os insetos do país), "Ára bátur" (sobre os barcos do país) e"Ilgressi" (sobre outra localidade do país).

Aliás, penso que músicas como "Hún Jörd" falem sobre essa conexão da banda com a o país (geológico e mitológico), bem como todo o disco "Med sud í eyrum vid spilum endalaust" trata sobre o verão do país. Talvez, aí esteja a razão para que a banda prefira cantatr em islandês (e fazer parcerias com islandeses): porque a Islândia permeia o Sigur Rós.

E qual a resposta disso? Bem, o Sigur Rós permeia a Islândia, também. Estando lá, você encontra CDs, cartões postais e camisetas do Sigur Rós em qualquer livraria, em lojas de souvenires e até em postos de gasolina de beira de estrada bem longe da capital (ônibus estes que estão tocando Sigur Rós no rádio). Você anda por Reykjavík e vê placas que levam até Álafóss (o estúdio da banda). Você vê as casas e lembra do video-clipe de "Hoppíppolla", você viaja e vê as paisagens dos video-clipe de "Svefn'g'englar", "Vidrar vel til loftárása" e "Glósóli". Mais ainda, você descobre histórias como as contadas em "Heysátan".

E se as a aurora boreau não convencer que o som etéreo, lendo e mágico do Sigur Rós só poderia vir de um país como a Islândia, que tal ver com os próprios olhos lugares como Gamla Börg, onde foi gravada a versão acústica de "Von" e que serve de capa para o EP "Heim"? Ou então, visitar a própria estação Hlemmur, que dá nome ao documentário cuja trilha sonora foi compsota pela banda?

27 dezembro 2009

Jonsi: o coração do Sigur Rós


Jón þór Birgisson (þór lê-se como "Thor", sim, é o nome do deus nórdico dos trovões) é o vocalista e guitarrista do Sigur Rós. Mais conhecido como Jonsi, não faz muito tempo que ele teve boas aulas para tocar guitarra, não à toa nos primeiros álbuns da banda (especialmente no primeiro, "Von") o que ouvimos de guitarra é apenas distorção e efeitos, deixando os acordes e arpejos para o baixo. E foi dessa forma que Jonsi desenvolveu sua técnica (nem tão original quanto se imagina) de tocar guitarra com um arco de cello e efeito de eco nos pedais. Não que ele saiba tocar cello, claro, mas foi um presente do colega de banda Kjartan (com quem formou sua primeira e premiada banda hyppie-punk: Beespiders) que ganhou um cello quando, na verdade, queria um violino.

Mas estamos indo depressa, antes de tocar no Beespider e usar cabelo comprido, roupas largas e óculos coloridos, Jonsi nasceu. E ele nasceu no dia 23 de abril de 1975, na capital da Islândia, Reykjavík. Nasceu, aliás, cegou de um olho, como o deus nórdico Oðinn (pai de Thor). Só depois de nascer é que foi descobrir seu gosto por David Bowie e Iron Maiden (e muito mais tarde, moderadamente pelo Smashing Pumpkins). Então, como se vê, se Kjartan trouxe a música erudita para o Sigur Rós, foi Jonsi quem antes definiu que esta seria uma banda de rock.

E também foi Jonsi quem levaria elementos eletrônicos para os álbuns do Sigur Rós, afinal, além de fazer participações especiais em músicas de bandas como Hafler Trio, Dip e Dirty-box sob o pseudônimo de Mono, Jonsi também teve um projeto solo que envolviam metais e instrumentos eletrônicos, sob o famoso pseudônimo de Frakkur. Chegou inclusive a fazer uma bela apresentação em 2004 e gravou três álbuns de música ambiente (intitulados "Pling-pong", "Songs for the little boy" e "Toyboy"), que nunca foram oficialmente lançados, apenas caíram na rede misteriosamente no ano passado.

Porém, mais ainda do que a instrumentação característica ou o falsete em uma língua inventada por ele (o "volenska", um série de vocábulos inspirados no islandês que Jonsi usa para cantar em muitas canções), o nome e a arte do Sigur Rós também devem a seu membro mais famoso e de cabelo mais arrepiado. Sim, pois Sigur Rós é o nome da irmã caçula de Jonsi que nasceu no mesmo dia em que a banda foi formada. E já que estamos falando de crianças, os temas infantis e a presença de imagens infantis são por conta do apreço de Jonsi a essa fase inocente, alegre e desprotegida da vida. Inlusive, embora muitas das imagens dos álbuns do Sigur Rós sejam obra de Alex Sommers (guitarrista da banda Parachutes, namorado e colaborador de Jonsi no projeto musical e artístico intitulado "Riceboy sleeps"), algumas outras imagens são de obra do próprio de Jonsi.

Agora, dia 22 de março desse próximo ano, veremos surgir o primeiro álbum solo de Jonsi (usando esse nome mesmo, e não Frakkur, como se esperava): "Go". O álbum é mais acústico e repleto de arranjos de cordas e tem a maioria das músicas cantadas em inglês (uma língua que durante muito tempo foi difícil para Jonsi, mas que depois do último disco do Sigur Rós ele começou a dominar bem mais). A primeira faixa dessa obra (que interromperá por uns meses a produção do próximo álbum da banda) já pode ser ouvida com seus ruídos e uma voz mais grave. Chama-se "Lilikoi boy" e mostra porque Jonsi é o coração (e não a voz) de qualquer projeto em que tocar seu dedo de Midas.

28 julho 2009

Um bom começo












Aqui no Brasil, dia 12 de junho foi o Dia dos Namorados. Na Islândia, foi o aniversário de dez anos do disco (já clássico) "Ágætis byrjun". A maior revolução musical da terra do gelo, do fogo e do vento depois do Björk (ex-vocalista da também importante Sugarcubes) foi realizada pela banda Sigur Rós, até então pouco conhecida no país e praticamente ignorada pelo mundo.
A banda, que começou em 1994, até então só tinha um lançado um disco (que se chamou "Von", mas essa já uma história prometida para um outro dia). Insatisfeitos com o disco, que vendeu apenas 1000 (ou 2000) cópias. A banda entrou em estúdio para uma segunda tentativa.
Dessa vez, contavam com a ajuda de um novo membro, um velho amigo, e um ex-parceiro da ex-banda do vocalista (Johnny and the beespiders): Kjartan Sveinsson. Conforme já foi dito em um post bem anterior, o barbudo chegou na banda para tocar piano, guiatarra, baixo, flauta e arranjos de corda.
Kjartan, crente de que a banda do amigo Jón poderia ser boa apesar do fracasso de "Von", se juntou aos outros três integrantes e, como um quarteto, escreveram a música que dá título ao álbum. A música fala sobre a satisfação de gravar uma boa música, passear pela cidade e comemorar com os amigos. A música também fala sobre esperança ("Von"), sobre decepção ("Von brigði", álbum de remix das músicas de "Von", lançado um ano após o álbum original) e sobre como a banda pretende fazer tudo melhor da próxima vez, afinal, esse é um bom começo ("Ágætis byrjun"). E, de tão satisfeitos que ficaram com as músicas, resolveram produzir um novo álbum.
Chamaram o produtor e amigo Ken Thomas, contratram um quinteto de instrumentos de sopro (ou de metais), um quarteto de cordas (Amiina, com quem viriam a trabalhar e ocasionalmente se relacionar como amigos e maridos, até os dias de hoje) e se trancaram em um estúdio. Entre as músicas surgidas para esse álbum estão "Svefn-g-englar" (e o famoso refrão "tjúúú"), "Starálfur" (e a belíssima introdução de violinos, viola e cello), "Ný batterí" (com a introdução de contrabaixo e metais e o característico crescendo ao longo da música), "Viðrar vel til loftárása" (com toda a melodia composta em piano e um ápice orquestrado e enlouquecido), "Olsen Olsen" (retomando o idioma vonleska, desenvolvido para a música "Von" do ábum de mesmo nome, lançado 2 anos antes, e para tantas outras músicas antes e depois), "Nyja lagið" (que só foi lançada ao vivo e em um EP), "Hjlómalind" (que se chamava "Rokklagið") e "Í gær" (que se chamava "Lagið í gær").
Todavia, antes que as três últimas músicas ficassem prontas e entrassem no álbum, o baterista Ágúst Ævar Gunnarsson saiu da banda. Não por desentendimentos pessoais ou po desacreditar na banda, mas para se dedicar a família e ao seu emprego. Desejou sorte e sucesso apra banda, abençoou o trabalho e partiu (ele só voltaria a tocar com a banda em uma ocasião, em 2006, quando tocaram "Von" gratuitamente para a cidade de Reykjavík). Perdidos e surpreso, a banda cogitou se separar. Mas, eis que surge um novo baterista por indicação do próprio Ágúst: Orri Pall Dyrason.
Satisfeitos (e impressionados) com o talento de Orri, a banda deu seqüência ao término do disco. Com a idéia de tocar um trecho do refrão de "Ágætis byrjun" ao contrário na abertura do disco (faixa 1, popularmente conhecida como "Intro") e de rodar o arranjo centro de "Starálfur" com a velocidade dividida no encerramento do disco (faixa 10, chamada "Avalon"), o disco mudou sua configuração!
"Ágætis byrjun" saiu da primeira faixa e foi a para a penúltima (nona). Com isso, "Flugufrelsarinn" (quarta faixa, escrita em cima de uma mórbida lembrança da infância de Ágúst) ganhou um novo tom e elaborou uma introdução diferente para "Ný batterí" (que também ganhou letras em islandês ao invés de vonleska). A faixa 6 "Hjartað Hamast (bamm bamm bamm)" também sofreu modificações, embora mais sutis. E, enquanto a "Viðrar vel til loftárása" teve seu apoteótico arranjo sinfônico reduzido drasticamente, a passagem da música "Svefn-g-englar" para "Starálfur" (respectivamente segunda e terceira faixas) foi modificada e elaborada de forma mais complexa.
No todo, o disco ficou mais coeso (é considerado o álbum de sonoridade mais característica do Sigur Rós e é curioso perceber como não existe intervalo silencioso entre uma música e outra). O disco apresentou uma complexidade maior de arranjos ao mesmo tempo que uma simplicidade bela nas composições. Muito disso deve-se aos esforços de Kjartan, ao talento de Orri, ao amadurecimento de Jón e, não podemos nos esquecer, da presença de Georg. Somando-se esses elementos todos com a ambição de modificar o conceito de música para todo o sempre (o Sigur Rós declarava que queria ser lembrado pelas pessoas não como uma banda, mas como música), "Ágætis byrjun" foi lançado em 12 de junho de 1999, na Islândia.
Com tiragem inicial de 2000 cópias (cujos encartes foram colados a mão, o que resultou em manchas em cima das ilustrações feitas a caneta esferográfica pelo Jón), o disco vendeu 10000 cópias na Islândia em um ano (um recorde para época, que só foi superado pelos álbuns seguintes do Sigur Rós, especialmente os dois últimos). No ano seguinte, o disco deixou de figurar apenas no catálogo da gravadora Krúnk e do selo Smekkleysa/Bad Taste e foi parar na Inglaterra através da Fat Cat. De lá, rumou para a Europa continental e depois para o Estados Unidos da América, chegando inclusive ao Brasil, em 2001, pela gravadora Trama (por motivo da vinda da banda para o Free Jazz Festival).
Até 2001, o famoso disco do anjinho ou do feto alienígena (como ficou conhecido por aqueles que não conseguem pronunciar a-GUÉ-tis-BÍR-i-um) vendeu 500 mil cópias no mundo todo. Até o dia de hoje, estima-se um total de mais de 1 milhão de cópias: ou seja, o disco islandês mais vendido da história! Não bastasse isso, em uma enquete realizada em 2000 e em duas enquetes realizadas nesse ano, "Ágætis byrjun" figurou com o primeiro álbum numa lista dos cinquenta ou dos cem melhores álbuns de toda a história da música islandesa (superando o famoso nome de Björk e outros nomes clássicos com Kukl, Sugarcubes, Icecross, Thor's hammer, Trúbrot, Purrkur Pillnikk, Theyr, Didda, Unun, Ham, Lhooq e populares como Magga Stina, Emilian Torrini, Gus Gus, Múm, Bellatrix, Dip, Ólafur Arnalds, etc...). Também é considerado um dos 1001 discos essenciais para se ter e ouvir antes da morte.
Foi graças ao sucesso do EP "Svefn-g-englar" no Reino Unido que a banda passou a figurar entre os queridinhos pelos indie, pelo Grammy e por artistas diversos como Radiohead e Mettalica, Madonna e U2, David Bowie e Natalie Portman. Aliás, tal EP gerou polêmica e fascínio ao originar um video-clipe rodado em câmera lenta mostrando uma companhia de ballet de portadores de Síndrome de Down representando o início e o fim do inverno (a música foi a que dá título ao EP, mas enquanto a própria banda dirigia, eles dançavam uma coreografia ao som de "Strarálfur"); e um outro video-clipe também rodado em câmera lenta pela própria banda, sobre o relacionamento amoroso entre dois garotos ("Viðrar vel til loftárása").
O álbum ainda rendeu um outro single ("Ný batteri") que continha duas músicas tradicionais islandesas que foram executadas a pedido do sacerdote pagão, poeta, bardo, músico eletrônico, ativista new age, vanguardista do heavy metal, cantor erudito Hilmar Órn Hilmarrson (um nome importante na cultura musical e religiosa da Islândia, que na época compunha a trilha sonora do filme "Anjos do universo"). Mas, mais do que isso, "Ágætis byrjun" rendeu ao Sigur Rós convites para trilhas sonoras de filmes holywoodianos ("Vanilla sky", por exemplo), parceirias artísticas (com Radiohead para o "Split sides" da companhia de ballet de New York Mercy Cunnigham), para grandes gravadoras (Sony), para o cinema (no documentário "Heima") e para tantos outro projetos.
O disco na embalagem fina de papelão, foi quem introduziu o Sigur Rós na vida e na lista de músicas de muitos ouvintes pelo mundo. Fenômeno que só retornaria a acontecer em 2005, quando o quarto álbum da banda, “Takk...” (que também circula entre os 50 melhores álbuns islandeses de todos os tempos, ao lado do impronunciável álbum de 2008) iria gerar novos fãs. O que se espera, agora, é que quando a caixa especial de 10 anos de lançamento de "Ágætis byrjun" no exterior saia o ano que vem, contendo materiais inéditos, materiais ao vivo, vídeos, textos e fotos, uma nova leva de público tome contato e gosto com a banda.
Então, enquanto você não recebe o disco de Jón e Alex (o "Riceboy sleeps"), ou enquanto a trilha sonora de "Ondine" não fica pronta (filme dirigido por Neil Jordan, trilha composta por Kjartan) ou enquanto nem o disco solo de Jón e nem o futuro e sombrio e ambient music álbum prometido pelo Sigur Rós e já em andamento não fica pronto, tire a poeira do seu álbum de capa preta com um feto anjo, ainda com cordão umbilical, junta as mãos em prece. Agora, se você leu até aqui e não tem a mínima idéia do que estou falando, este é um bom começo. Pois, como lemos no encarte prateado e curvo de "Ágætis byrjun": “a maior criação de deus, é um novo dia”.

08 julho 2009

Antologia de contos sobre o fim do mundo.

Finalmente, abro espaço para um novo marcador de tópicos discutidos nesse blog: "eu escritor". E, por se tratar de mim mesmo (afinal, como alguém poderia escrever algo que não fosse si mesmo?) e por se tratar de escrita (algo que desenvolvo aqui e algo sobre o qual desenvolvo aqui, também), peço que tenham paciência e se preparem para um texto longo e dramático, como só um texto biográfico poderia ser. Vejam só, até dei uma organizada no layout deste texto para amenizar a pieguice.

Pois bem, eu me lembro do meu último dia de aula no Jardim III (aquele ano escolar que antecedia a primeira série, e que ninguém sabia o que significava ou para que servia). Eu estava extasiante. A partir de então, eu poderia ler qualquer coisa que surgisse na minha frente. Eu já sabia todas as letras, até o o famoso "z". E foi então, como mágica, voltando para casa e pensando no video-game do Mario que iria jogar durante todas as férias antes de dar mais uma passo na minha educação, que meu primeiro grande desejo de vida surgiu: "quero ser um escritor".

E assim foi, quando crescesse, eu gostaria de ser um escritor. Essa deveria ser minha profissão, pois parecia a melhor do mundo (e ainda parece). Mas, esse foi apenas um dos desejos. O outro surgiria em decorrência da leitura. Naquele dezembro de 1989, lendo o "Manual do escoteiro mirim", descobri sobre os castelos e paisagens da Escócia. Nasceu ali o meu segundo grande desejo de vida: "Quero passar um tempo em outro país". Imediatamente, o terceiro e último grande desejo de vida acompanhou a lista: "Quero me casar com o verdadeiro amor para poder passar um tempo em outro país".
O tempo passou, obviamente. Orgulhosamente comprei e li meu primeiro livro ("Menino maluquinho", do Ziraldo) e comecei a escrever minhas primeiras histórias. Todas precariamente ilustradas e sempre sobre personagens de video-game, desenhos animados e contos que lia, afinal, eu tinha entre 7 e 9 anos. Foi só com 10 anos, que escrevi minha primeira história de verdade, como digo. Chamava-se algo como "O dia final do soldado eterno no campo universal" (um título quase do tamanho da história e que ambicionava mostrar algum conteúdo filosófico initeligível). Enfim, tratava-se de um conto sobre um militar aposentado morrendo de câncer devido a radiação da última guerra em que participou. O conto narrava os eventos finais de sua vida, quando este levava sua família para visitar o campo onde se travou a tal batalha, para que ele anunciasse o seu derradeiro e iminente fim.
Minha professora de ciências levou o texto para casa, leu, chocou-se e, no dia seguinte, me devolveu dizendo que não deveria me preocupar em escrever. Principalmente histórias com aquele conteúdo. Ela achava que uma criança feliz deveria brincar. (Curioso como na quinta série minha professora de português, que me odiava, dizia que ela nunca viveria para trabalhar um livro meu com os alunos dela; curioso, também, como no primeiro colegial a psicóloga da escola afirmou que meu problema era que eu lia demais e isso nunca me ajudaria).
Durante aquele resto de ano, não mais escrevi. Só retomei a escrita aos 11 anos, depois de uma série de eventos na minha vida e quando comecei a ler livros de vedade (como sempre digo). Influenciado pelo "Mundo de Sofia", escrevi "Cartas para um palhaço" (que considero minha primeira história séria e bem feita, muito embora hoje eu a ache terrível, simplista e vergonhosa). Depois disso, conheci Edgar Allan Poe e toda a minha vida mudou. Entendi que de fato eu poderia escrever algumas coisas que vinham na cabeça e poderia fazê-las bem feitas. ("Frankenstein", de Mary Shelley, também surtiria um efeito parecido, porém mais amplo, no ano seguinte).
Assim, escrevi contos policiais, contos de horror, contos de mistério, contos de morte e mais contos filosóficos até meus 15 anos, sempre pretendendo um dia publicar meu próprio livro de contos. Mas, algo aconteceu... Com 15 anos, li um livro do qual ouvira falar e ficara curioso desde os 14: "O senhor dos anéis", de J. R. R. Tolkien. Jogador de RPG desde os 11 anos (outra forma de contar histórias, diga-se de passagem), não podia deixar de ler sobre elfos e dragões. Naquele dia primeiro de abril em que comecei a ler, um pensamento me sobreveio: "posso, então, escrever sobre mitos e folclores".

Começaria a escrever minha primeira história longa, casualmente. Chamava-se "A lenda do elfo" e era divido em oito partes, cada uma contendo 15 contos em sequência, todos descrevendo um memsmo personagem. A idéia surgiu sem querer. Primeiro veio um conto, e, de repente, eu tinha escrito um outro conto onde aquele personagem aparecia. Percebi que podia contar toda a sua vida e fui escrevendo tudo fora de ordem para depois organizar linearmente (um procedimento parecido com o que Robert E. Howard fez com Conan). Mas "A lenda do elfo" mudou de nome, mudou de proposta e nunca foi para frente, nem deve ir. O melhor momento que a série teve foi uma longa e bela campanha de RPG!

Ciente de que poderia escrever fantasia, mas não desejava escrever fantasia, era hora de abrir meus olhos para novas letras. Conheci a literatura fantástica de Jorge Luis Borges e de Neil Gaiman. Era aquilo que queria escrever. E foi escevi desde então, embora o período da faculdade de psicologia tenha tido hiatos significativos na minha produção amadora.

E, mais uma vez, como sempre, o tempo passou. Ainda não era um escritor profissional e por tolice e medo, recusei possibilidades de publicar. Mas, então, eu já estava casado. Meu primeiro grande desejo muito bem realizado. E, logo em seguida, graças a minha verdadeiramente amada esposa, eu estava de viagem para o Japão, só a passeio, durante um mês. Um lugar em que eu nunca pensara em visitar e que mostrou o melhor lugar que o mundo poderia conceber (embora me falte conhecer todo o resto do mundo). Outro grande desejo da minha vida estava muito bem realizado. E assim como meus desejos nasceram juntos e entrelaçados, eles iriam se realizar juntos e entrelaçados.

No avião, sozinho, num vôo entre Tokyo e Izumo, vislumbrei o imenso e imponente monte Fuji. Pensei e anotei, ali mesmo, no meu diário: "O que aconeceria se a mulher, cujo corpo é o próprio monte Fuji, um dia resolvesse e se levantar e ir embora?". Até hoje não sei a resposta para essa pergunta e nem para tantas outras que surgiram durante a viagem. Mas, como toda boa pergunta, ela nunca saiu da minha memória. Pelo contrário, despertou várias outras perguntas.

Por exemplo: uma bela tarde, depois de trabalhar o dia todo para ganhar pouco e mal conseguir sustentar minha nova família de esposa e gatas, eu caminhava. Caminhava vendo um pôr do sol laranja e a mais movimentada avenida da minha cidade com centenas de carros e pedestres se expremendo violentamente. Não sei qual era o ruído que a cena produzia pois meu mp3-player estava em meus ouvidos. Tocava a música "Sæglópur" do Sigur Rós, do álbum de 2005 "Takk...". Quando o "Takk..." saiu, minha esposa ainda era minha namorada, e ela estava no Japão, de onde me trouxe minha cópia do tal álbum. Ouvindo a música fiquei me pensando em como nos matávamos para trabalhar e não aproveitávamos anda, em como a vida se tornaria selvagemente louca e todas essas outras crises existênciais típicas. Eu via o pôr do sol e me perguntava como ninguém aprava o que estava fazendo só para agradecer e louvar o sol. Mas, logo em seguida, a música acabou e deu início a "Hoppíppolla", também do Sigur Rós e também do "Takk...". O piano suave e alegre iniciava a melodia eos arranjos de corda. Foi com essa música que me casei. E me casei dentro de um ritual pagão, como não podia deixar de ser. E me casei a beira do Rio Grande, no pequeno vilarejo de Peixoto, onde moram apenas trabalhadores da usina hidroelétrica da região. Lá que passei minha lua de mel. Lá mora um lugar do meu coração desde que conheci. As montanhas, as águas, a paz, o vazio...




Com lágrimas nos olhos, surgiu uma nova pergunta: "o que aconteceria se o Rio Grande se levantasse e fosse embora sem avisar nada e nem ninguém?". Voltei para casa correndo, larguei as compras sobre a mesa, liguei meu computador e respondia essa pergunta. Até hoje, julgo ter sido o melhor conto que escrevi (e, inegavelmente, inspiradíssimo no realismo mágico e nof ormato dos diálogos escritos pelo meu maior influenciador desde o ano passado: José Saramago).

O conto chama-se "Na manhã seguinte" e é o conto que encerra a antologia "Dias contados", lançada pela Editora Andross no dia primeiro de agosto desse mesmo ano, na Biblioteca Temática Virato Corrêa, em São Paulo, a partir das 15 horas. O livro conta com 50 contos, sendo dois meus, um argentino (maravilhoso, diga-se de passagem) e um da escritora fantástica e revisora Helena Gomes (que eliminou todas as minhas características de Saramago para manter o padrão da editora). O livro é editado pelo quadrinista Edson Rossato e é organizado pelo administrador e escritor Danny Marks (cujo primeiro livro, "Universo subterrâneo", sai dia 7 de agosto, em Santos, mas minha cópia dos contos, autografáda, já está a caminho) e pelo crítico de cinema e escritor Ricardo Delfim.

Meu conto, "Na manhã seguinte", foi editado e revisado por Danny Marks (um bom amigo bruxo, hoje em dia). A edição foi feita de forma bem respeitosa, com discussões, sugestões e questionamentos dos lados, mantendo minhas palavras, minhas idéias, mas um pouco da visão mais ampla do Danny, afinal, ele era um dos organizadores. o outro conto, "Sete minutos", está na página 43 do livro. E, por opção minha (e sugestão do Danny), foi editado e revisado pelo Ricardo. Como já tinha um conto aprovado no livro, a ansiedade e pressão sobre mim era menor para que se aprovasse outro conto (embora, obviamente, queria muito sentir, de novo, o coração disparar, as mãos e a voz tremerem, os olhos marejarem e a boca se abrir apenas para inspirar e expirar o momento de ler "seu conto foi aprovado, parabéns"). O trabalho com o Ricardo, portanto, não contaria com nenhum proteção e foif eito de forma bem interessante, uma experiência rica para mim, trabalhar com outro editor/revisor. Nós trabalhamos de forma mais incisiva e prática, por assim dizer, com sugestões mais pontuais e drásticas do Ricardo, o que levou a um resultado final bem interessante.

Então, leitores, leitoras, amigos, amigas, familiares e, especialmente, minha amada, sai agora minha primeira publicação oficial e reconhecida. Não é só minha, mas já é um primeiro passo, não é uma editora de nome grande e pesado, mas é uma editora séria que busca lançar novos autores. Meu último grande desejo de vida se realiza. Agora eu posso morrer? Claro que não. Quero continuar casado, quero viajar mais e quero publicar mais e mais.

Mas, quer saber como surgiu o outro conto, "Sete minutos"? Bem, foi com um pergunta. Eu estava feliz e incrédulo de que um conto fora aprovado apra ser impresso em papel e distribuído pelo país. Era uma quinta-feira. Eu estava jantando com miha esposa e nossa situação financeira e profissional já estavam bem melhores (até começávamos a pensar em um dia visitar a Islândia, outro daqueles lugares perfeitos). ela falava sobre como o trabalho dela, na Secretaria da Saúde, era apocalíptico: epidemias, catástrofes naturais, violência. Ela disse que não estranharia nem um pouco se o celular dela tocasse naquele instante, anunciando uma invasão alienígena ou um ataque zumbi. Foi quando me veio a pergunta: "será que a prefeitura tem algum departamento público de segurança no apocalipse?". No sábado, acendi um cigarro, e respondi essa pergunta.

10 abril 2009

Foi_soh_uma_festa/?

São Paulo, uma noite de domingo. Eu deveria trabalhar no dia seguinte, mas não iria. Depois de 11 anos apaixonado, depois de 9 anos torcendo, depois de 8 anos ouvindo os boatos, a espera acabou... 35 mil pessoas, o trânsito tumultuado, pessoas com camisetas listradas e óculos, garotos barbudos e garotas descoladas. O ingresso na mão há 4 meses. Gato doente em casa e ainda assim me aventurei por aqueles asfaltos até chegar (e ainda parei em um posto de beira de estrada para dormir da perigosa exaustão).

Primeiro, os Los Hermanos voltaram. Tocaram bem e bastante. Nada demais, mas muita gente gostou. Depois, ao invés do Sigur Rós, do Mars Volta ou do Portishead, os clássicos alemães do Kraftwerk subiram aos palcos (e desceram, chamaram seus sósias robôs e depois voltaram luminosos e fluorescentes como no filme "Tron"). Uma honra vê-los, já valeria o ingresso. Mesmo que muita gente não tenha gostado, foi bem animado e muito bem produzido, especialmente o karaokê no telão.

Mas, não era para isso que estávamos lá. Embora saber da presença do Kraftwerk tenha animado muito. Eu e outros 34.999 (incluindo famosos) estávamos lá pelo mesmo motivo que 30 mil pessoas se reuniram dois dias antes no Rio de Janeiro: presenciar a guitarra e os ruídos do tímido Johnny Green Wood, sempre acompanhado do omisso irmão Colin Greenwood, e o simpático e empolgado Ed O'brian seguindo a bateria precisa e ritmada do Phill Sellway, e o esuisito Thom Yorke que só sabe. dizer "Obrigado" e "Boa noite", pela primeira vez no Brasil.

E era para ser só mais um festival, apenas uma festa, mas foi o melhor show dos últimos tempos de um das melhores bandas dos últimos tempos. Começou com "15 step" e seguiu por tantas outras de todos os diversos momentos da carreira, embora o último e novo "In rainbows" foi executado inteiramente.

Embora o Rio tenha tido "The gloaming", "Airbag", "No surprises", "I might be wrong", a fabulosa "Street spirit" (pelo menos eu também tive "There there"), "How to disappear completely" e "Just", São Paulo pôde presenciar outras raridades em setlists, como "You and whose army?", "Pyramid song", o lado b "Talk show host", a também fabulosa "Climbing up the walls", "Exit music", a popular "Fake plastic tree", "Lucky" e "Optmistic", além do fato de ter tido minutos a mais de show (ao longo das quase duas horas e meia), um gostinho de "True love waits" no início de "Evereything in tis right place" e uma música a mais no set list, a primeira e mais famigerada: "Creep", também tocada no Rio.

Ao todo foram 26 músicas muito bem tocadas e muitas vezes melhor do que na versão original de estúdio, como foi o caso de "Idioteque". As luzes epiléticas acompanhavam a dança em flashes do vocalista e suas caretas, embora haja quem tenha dito que o telão falhou (só eu não percebi, acho). Na verdade, eu estava mais é dançando, chorando, cantando junto, prestando a atenção, fumando, beijando minha mulher e pensando em como era legal ver aqueles caras dando tudo de si para mim e todas as outras pessoas que pagaram o preço do ingresso. E quando digo dar tudo de si, digo que eles tocaram de tudo, como a incomparável "Paranoid android" para exemplo.

Depois teve o tumulto para sair, o perigo de cair em um burcao, o trânsito engarrafado e sensação de voltar para casa bem e mal. Bem por ter visto um show inesquecível. Mal por ter visto visto um show inesquecível. Antes palavras pudessem descrever tais sensações, daí, eu conseguiria escrevê-las e bastaria isso para tornar reviver a boa sensação e o show insquecível.

03 abril 2009

Dia Internacional do Livro Infantil






Ontem foi dia 2 de abril: dia do meu a niversário. Certo, parabéns, obrigado, feliz aniversário, está bem. Dia 2 de abril, também, é o dia em que se lembra a morte do Papa João Paulo II. Ele morreu em 2 de abril de2005, mesmo ano em que se comemorava o bicentenário de Hans Christian Andersen, em Copenhagem na Dinamarca. Nessa tal celebração dos duzentos anos do nascimento do maior escritor de histórias infantis de todos os tempos, foi realizada uma apresentação do ballet dinamarquês com a música "The little match girl", composta pelo Sigur Rós especialmente para a ocasião e nunca lançada em CD, EP, single ou vinil.



A tal "Little match girl" ("pequena vendedora de fósforos") a que se refere o título é um conto de Andersen no qual uma menina sai de casa na noite da véspera de Natal para vender fósforos. Ela precisava vendê-los por que sua família é pobre e seu pai (possivelmente alcoolatra) iria bater nela se ela voltasse para casa sem dinheiro. Enquanto perambula pelas ruas, sozinha, ela imagina que crianças estejam desembrulhando presentes e comendo perus assados por trás das paredes das casas. Mas o frio vai ficando mais forte e ela decide acender os palitos de fósforos e pensar na sua avó (a única pessoa que a tratava bem) para poder se aquecer na neve. O conto acaba com a menina morta e congelada.



Triste, não é? Nem parece história para criança, mas é. Na verdade, todos os contos de fadas originais continham violência, horror, sexo e tristeza. Mesmo os contos coletados por Ésopo, Perrault, Jacob e Wihelm Grimm e tantos outros. Tais contos, os contos de fadas, descendem do folclore, das histórias populares contadas oralmente de geração a geração, sempre com o intuito de passar alguma moral para as crianças e entreter os adultos. Sim, você leu direito: adultos. Os adultos também fazem parte do público alvo dos contos de fadas. Tanto que a primeira publicação dos contos de fadas dos irmãos Grimm na Inglaterra foid estinada aos adultos, mas fez tanto sucesso entre as crianças que os autores resolveram por bem amenizar um pouco os conteúdos dos contos.



E foi aí que a coisa degringolou. Os adultos, crentes de as crianças são inocentes e burras, passaram a duvidar da capacidade delas em elaborar idéias a respeito de medo, desejo e morte. As histórias passaram a ficar mais bobas e pobres até que toda a sanguinolência e cobiça da "Cinderella" se tornasse um elegante e engraçado desenho animado da Disney. Com isso, a alma do conto era perdida, bem como muito de seu conteúdo mitológico e social. Sim, pois contos de fadas descendem de mitos, também. E todo mito revela uma história verdadeira, uma reflexão simbólica da psiquê humana e um contexto cultural.



Por sorte ainda temos autores que resgataram esse teor sombrio de volta para as crianças. É só as produções infantis de Tim Burton, ou os livros de Neil Gaiman e J. K. Rowling. Não por acaso, os maiores sucessos de crítica entre os consumidores: as crianças. Também, não é por acaso que o aniversário de Andersen se tornou o dia internacional do livro infantil. Esse escritor e pesquisador, coletou contos populares de diversos povos, recontou histórias antigas e ainda inventou uma nova gama de personagens, sempre trazendo histórias tristes, violentas, sombrias e luxuriantes, com grandes toques de magia. Ele ousou e acreditou no poder das crianças de crescerem enquanto pessoas. Acreditou que as crianças fossem tanto boas quanto más, identicas aos adultos.



Mesmo que se conte que os irmãos Grimm, ao receberem a visita de Andersen se anunciando como um colega de profissão, declararam nunca terem ouvido falar dele e o levá-lo a vergonhosas lágrimas com isso, muitas dos contos de fadas mais conhecidos no mundo são de Andersen: "A sereiazinha", "O patinho feio", "O valente soldadinho de chumbo", "As roupas novas do imperador", "O rouxinol" e "A rainha do gelo", para citar alguns exemplos. Personagens como Branca-de-neve e Rosa-vermelha até circulam em algum ou outra história sua, mas o mesmo acontece no folclore ingl6es, italiano, russo, norueguês e (pasmem!) chileno.



Então, termino deixando a dica para que mais adultos leiam mais contos de fadas e permitam que as crianças leiam os verdadeiros contos de fadas. Essa é a literatura suprema, não por acaso o próprio Tolkien assumia a dificuldade e a ambição em escrever contos de fadas. Ele até chega a assumir que "O senhor dos anéis" e os capítluos "Beren e Lúthien", "Túrin Turambar" e "Chegada em Gondolin" seguiriam as premissas de pessoas comuns se envolvendo em eventos mágicos e grandiosos, que seria a premissa básica de todo conto de fada. Agora, só falta chegar ao Brasil o marivilhoso conto de fada de Tolkien chamado "Smith of Wotton Major". Até lá, leiam Andersen e tenham a mente aberta, pois a Chapeuzinho Vermelho não foi salva pelo caçador, houve quem disse que o Lobo a despiu, alevou para a cama e a comeu (literalmente) e houve quem disse que ela rasgou a barriga do Lobo, pegou o cadáver de sua avó, fez uma sopa, tomou a sopa e ficou forte o suficiente para matar o Lobo com usas próprias mãos...

27 janeiro 2009

Entre 10 e 18: teorias da conspiração e lendas urbanas


Just a fest está chegando, para mim, será dia 22 de março, um domingo com Radiohead e Kraftwerk (ah, também vai ter Vanguart, ams quem se importa? E eles ainda chamam o show de só uma festa...). Bem, para quem ainda percebeu, sou bastante fã de Radiohead, apesar de achar o Thom York uma versão mais esquisita da arrogância e chatice do Bono Vox. Mas, nem sempre foi assim. Em 1992, quando a banda tinha abandonado o nome On Fridays e passado a se chamar Radiohead (dizem alguns que é por causa de uma música do Talking heads, dizem outros que era para que seus álbuns ficassem próximos ao R.E.M.), eles lançaram seu primeiro disco: o "Pablo Honey", uma versão triste e distorcida do movimento grungee.

Seria mais um álbum qualquer de mais uma banda qualquer se a música "Creep" não fizesse o sucesso que fez. Provavelmente, uma das músicas mais deprimentes da história e uma das músicas mais tocadas naquele ano. E Radiohead iria cair no esquecimento caso "The bends" não fosse lançado em 1995 e fizesse o sucesso que fez. Radiohead passava a ser uma banda de rock com apelo pop, graças ao sucesso da igualmente deprimente "Fake plastic tree" (lembrem-se que ela é tocada naquela famosa propaganda brasileira do Carlinhos e seu amiguinho em uma campanha contra o preconceito contra os portadores da síndrome de Down).

Mas, foi em 1997 que a banda e seu vocalista alcançaram o ápice (na verdade, praticamente a cada disco eles alcançam novos ápices): "Ok computer" chegou com a promessa de revolucionar o rock e mostrar a decadência e solidão desse nosso mundo mecanizado. A promessa foi cumprida, contra as expectativas de Thom Yorke, que se recuperava de alguma psicose e passava a ser chamado de gênio. Foi aí que tudo começou. Primeiro, os comentários de que "Creep" era um plágio de "Can't stop loving you" do Hollies, depois que era plágio "Every breathe you take" do Police, depois que era plágio da...

Bem, a lista não parou, mas essa era a menor das lendas urbanas e teorias da conspiração. Afinal, muitos não sabem, mas se você abrir bem o encarte do "Ok computer" na parte das letras e chacoalhar de um lado para o outro, as letras se tornam imagens, como por exemplo: "Paranoid android" vira um tanque de guerra e por aí vai. Na verdade, quando ouvi isso, fui tentar em casa,s em esperanças. Até hoje, continuo sem saber do que as pessoas estavam falando quando diziam que isso dava certo. Mas, como já escrevi no parágrafo acim, as teorias da conspiração e lendas urbanas não param por aí.
No ano 2000, para terminar um milênio, o Radiohead lançou o controverso "Kid a". Um disco de rock onde não se houve guitarras, apenas baterias eletrônicas e barulhinhos de computador (como eu sempre digo, o primeiro sinal de que Thom York sempre seria o cara do contra). Mas, isso não quer dizer nada, pois dizem por aí, que se você tiver dois cdplayers e dois "Kid a", você fazer o seguinte experimento e descobrir um disco novo, o disco que o radiohead realmente queria ter lançado: coloque o seu "Kid a" no seu cd player e dê play, quando a primeira faixa faixa, "Everything in its right place" estiver com 18 segundos rodados e o teclado e a voz de Thom Yorke gemendo nos alto-falantes, dê play no outro cdplayer que contém o "Kid a" do seu amigo. Pronto, está feito! Você estará ouvindo o "Kid 18", um álbum onde as músicas correm simultaneamente, mas com um sincornia atrasada em 18 segundos... Não é incrível?

Na verdade, não. Não há nada fantástico nessa audição, com exceção talvez da harpa em "Motion picture soundtrack" e da bateria em "Idioteque", ainda assim, você só consegue entender alguma lógica se você estiver realmente procurando por ela, por que do contrário, é só a invenção de alguém babca que utilizou a medida de 18 segundos aleatoriamente (na verdade, existem algumas explicações musicais para esse valor, mas existem versões dessa explicação que chegam até a apontar um música do Sigur Rós como referência, tentem descobrir qual, hehehe).

Certo, se as primeiras teorias estavam erradas, então o que dizer do "In rainbows"? O último disco do Radiohead ficou famoso no mundo todo pelo simples fato de que ele foi lançado em outubro de 2007, em um site criado especialmente para isso. Como a banda havia terminado o contrato com a gravadora Parlophone (o que geraria vários conflitos para mostrar que Thom Yorke sempre seria o cara do contra), "In rainbows" foi o primeiro álbum de uma grande banda, a ser lançado gratuitamente para download. Gratuitamente não, você pagava por ele. Pagava o quanto quisesse. Sim, isso mesmo, ente zero centávos até trocentos zilhões de dólares. Não se sabe ao certo qual foi o resultado da experiência, mas o Radiohead ganhou muito dinheiro assim, antes de lançar o álbum fisicamente nas lojas sob o selo de uma distribuidora estadosunidense.

Hummm.... não há algo de suspeito aí? Vejá só: qual o álbum de maior sucesso do Radiohead? "Ok computer", você diz e está certo. Esse nome não tem alguma semelhança com a forma como "In rainbows" foi lançado? Calma, não responda ainda, pense nas cores e fracções matriciais de um computador, também. Então, temos computadores e arco-íris, certo? Parece pouca a semelhança? Mas, então, que tal se fizermos uma conta simples? "In rainbows" saiu em 2007, "Ok computer" saiu em 1997, 2007 menos 1997, será igual a 10, 10 é formado por 1 e 0, ou seja, a lingugaem binária, o código pelos quais os computadores se comunicam em seu âmbito mais básico. Binário, ou seja, dois valores, como a quantidade de palavras que compõe os nomes dos albuns "Ok computer" e "In rainbows". Entendeu, agora?

Pois é, eu também não. Assim como não consegui entender quando matemáticos tentaram provar que o título da música "2+2=5" do Radiohead fazia sentido (conforme postei em outro ensaio), também não consigo entender como alguém 9provavlemnte muito desocupado), acha e desdobra essas teorias. Não entendeu ainda? É bem simples: "In rainbows" é uma continuação e/ou uma referência ao "Ok computer". Será que é o por quê os dois discos começam com vogais? Não, é por que se você ignorar a faixa "Happier filter" do "Ok computer" e colocar as músicas dos discos em sequência (por exemplo: "Airbag", "15 feets", "Paranoid android", "Bodysnatchers", etc...), você ouvirá, mais uma vez, o álbum que o Radiohead quis lançar, na verdade.

Ora, na verdade, o que você vai ouvir é uma sequência alternada de várias músicas boas, de dois álbuns bons de uma banda boa. Só. Não existe ligação entre as músicas e suas letras, nem nas referências a ficção cinetífica que o Radiohead costuma fazer. Sabe, às vezes acho incrível que ninguém ainda tenha dito nada sobre o fato de "Amnesiac", a sobre de estúdio do "Kid a", ter sido lançada três meses e três dias antes dos famosos ataques terroristas de 11 de setembro e trazer na primeira página do seu encarte, uma foto do World Trade Center e o título do filme "The decline and fall of roman empire".

06 janeiro 2009

Expectativa



O ano acabou e começou. Fiquei quase um mês sem nada publicar, pelas mais diversas razões, mas agora estou de volta e com muito material. Então, dentre o que andei planejando (mais expectativas e visões de futuros), decidi começar pelas expectativas a respeito do Sigur Rós para 2009. Por enquanto, a única coisa que se tem de concreto sobre a banda é que os integrantes estão na Islândia, de férias, desde 25 de novembro do ano que acabou. Eles deram dois shows em Londres (no dia 21 e 22 do mesmo mês) e depois deram um show gratuito na capital islandesa no dia 24. Desde então, descansam com suas famílias e em suas propriedades. Devem estar curtindo o natal islandês (que dura treze dias!) e os ritos invernais.


Então, quais são as expectativas? A primeira delas é que, depois de usar imagens de seus shows nos clipes de "Inní mér syngur vitleysingur" e "Við spilum endalaust", eles retomem os clipes em câmera lenta com historinhas. Para isso, os boatos afirmam que além de capturar imagens, desenhar storyboards e escrever roteiros junto com algum diretor, os caras estão em estúdio compondo e recuperando material de sobre de estúdio para usar em algum novo single para o álbum "Með suð í eyrum við spilum endalaust". E as possíveis faixas candidatas para um single circulam entre calma acústica de "Góðan daginn", a famosa "Festival", a pouco épica pouco provável de aparecer em shows "Ára bátur" e triste "Illgresi". Vamos aguardar. Sobre quais músicas estariam no lado b do single, ninguém tem conhecimento. Talvez sejam algumas músicas que surgiram na época do "Takk..." ou "Hvarf-heim".


Claro, nada disso é confirmado, ainda. Talvez, ainda coisa que está próxima de sair é um DVD contendo imagens dos dois shows em Londres realizados ao final de novembro e devidamente citados no início desse tópico. O diretor desse DVD será Vicent Morisset, que já trabalho com vídeos interativos para o Arcade Fire (outra banda que se você não conhece, deveria). E ele prometeu um trabalho bem diferente daquele visto no documentário "Heima", que acompanhava uma turnê do Sigur Rós pela Islândia, dirigido pelo veterano Dean Deblois, e premiado e cultuado em todos os países que puderam assistir alguma exibição. Por aqui, só em cópias importadas (isso é, se o seu aparelho de DVD rodar discos importados).


Sobre o "Hvarf-Heim" e o "Heima", acima citados, volto em um instante, enquanto falo sobre expectativas... O Sigur Rós parece ter uma habilidade fora do comum em criar expectativas e cumprí-las de de uma forma não correspondente às expectativas. Tudo começou com os atrasos na produção "Ágætis byrjun" ou com os anunciados atrasos para a data de lançamento de seu posterior "( )". Pelo menos, eram atrasos avisados com um bom tempo de antecedência e em tempos onde a expectativa sobre a banda era um pouco menor (está certo, "( )" foi muito aguardo na época, a ansiedade pelo novo trabalho da banda só crescia). Mas, depois de ver "Takk..." ter seu lançamente misteriosamente adiado por meses, percebi que havia ali um padrão na banda. Talvez pelo perfeccionismo do pianista Kjarri, talvez pelo perfeccionismo do produtor Ken Thomas, talvez pelo perfeccionista do vocalista Jónsi, talvez pela complexidade dos arranjos do quarteto Amiina, talvez por preguiça, talvez por descaso, talvez por costume islandês, talvez por insatisfação com a qualidade de alguns materiais de trabalho, o fato é que o Sigur Rós sempre atrasa o lançamento de seus trabalhos!


Quando eles anunciam uma data, essa data dificilmente será cumprida. Sequer o atraso será para uma data próxima. Lembram-se do lançamento do single de "Hoppíppolla"? Atrasou. E o single de "Sæglópur", então? Quase um ano, talvez, de atraso. Mas, as coisas começaram a ficar curiosas na primeira metade do ano de 2007, quando um anúncio no site oficial da banda dizia que a banda iria relançar a trilha sonora de "Hlemmur" junto com o DVD do filme e um livro de imagens e informações, iria lançar um single para a novíssima versão para ancestral música "Von" (de seu primeiro álbum, também chamao de "Von"), iria lançar um ep com versões ao vivo e acústicas de alguns sucessos seus acompanhada de um DVD e ainda iria lançar, finalmente, um CD e um DVD com o aguardadíssimo "Odin's raven magic". E como foi que tudo ocorreu?


"Hlemmur" saiu do jeito que eles falaram, só com algumas semanas de atrasos. O single de "Von" virou um EP chamado "Hvarf" que saiu junto com o EP "Heim" com músicas acústicas e ao vivo, com meses de atraso, seguido pelo fantástico filme "Heima", que teve alguns dias de atraso. Além disso, a metade "Hvarf" continha a inesperada nova versão de "Hafsól" (que aparecia no primeiro álbum como "Hafssól"). Ótimo. Depois disso, cumpriram com os prasos e lançaram um novo e impronunciável álbum em meados de 2008 (muito embora a edição de luxo tenha sofrido um atraso de quase dois meses, e as músicas não soaram exatamente como eles anunciavam: um retorno aos primórdios da banda, mais sombrio, com ênfase na bateria e nas orquestrações, entretanto, de fato, mais acústico). E, do que estou reclamando? O que está faltando? "Odin's raven magic", provavelmente a melhor coisa que já ouvi na vida!


Essa obra foi composta em 2001 e foi apresentada em 2002 em Londres, Paris, Copenhagem e Reykjavík. A versão de Paris foi filmada e seu áudio pode ser encontrado na rede para download gratuito e ilegal (mas, por enquanto, é única forma de ouvir essa obra). Entre 2006 e 2007, a banda se reuniu com os outros integrantes do projeto (o quarteto Amiina, uma pequena orquestra, um coral, o autor da peça e o bardopescador Steindór Andersen, com quem haviam trabalhado em raro EP chamado "Rímur") em um estúdio para passar o som de novo e apresentar um álbum com qualidade perfeita, acompanhada de imagens de bastidores e apresentações. Até agora, depois de abandonar qualquer rumor, só se sabe que o álbum está em mixagem e pode ser lançado até dezembro de 2009, com a possibilidade de acompanhar algum DVD.


E do que se trata Ödin's raven magic"? Trata-se de uma opera clássica e erudita composta pelo alto sacerdote da antiga religião pagã dos povos nórdicos Hilmar Örn Hilmarsson, que também é poeta, historiador e tem experiência em bandas de heavy metal, punk, gótico, música eletrônica, techno, rock progressivo, pop e trilhas sonoras (para a "Lenda de Grendel", inclusive, onde foi consultor e atuou em umas cenas de funeral e batismo realizadas em seu país). Além da sonoridade rock do Sigur Rós e da presença de música acústica de câmara dos outros integrantes do projeto, "Odin's raven magic" conta com um xilofone gigante (tocado por três pessoas ao memso tempo) feito de pedras calcárias encontradas nas regiões vulcânicas. O fabricante e seu produto podem ser visto em uma curta cena do "heim", mostrando como aquele deve ser o instrumento de som mais bonito no planeta.


O texto que permeia os sete capítulos e 64 minutos da obra provém do poema "Hrafnagaldur Óðins", presente na coletânea de contos islandeses "Edda", de Snorri Sturlusson, escrita no século XIII depois da coleta da tradição oral junto aos camponeses. No século XIX a autenticidade desse poema em especial foi contestada com o argumento de que ele, na verdade, datava do século XV, um período fundamentalmente cristão e que abominava qualquer resquício de paganismo. Mas, na década de 60, um professor de literatura, historia e mitologia da Islândia (cujo nome eu não me recordo) conseguiu reinserir o poema nas novas edições do "Edda". E, afinal de contas, sobre o que se trata? Trata sobre um banquete organizado pelo deus asgardiano Odin para todos os outros deuses e guerreiros, mas o clima de festa acaba quando os dois corvos de Odin chegam: Hugim e Munim ("memória"e "pensamento", respectivamente). Eles chegam para anunciar que não motivo apra festejar, pois tudo o que se conhece está prestes a ser destruído. Agourentos, anunciam o famoso episódio do Ragnarök, o crepúsculo do deuses, quando Asgard, Odin e muitos outros cairão sob as mãos de gigantes de gelo e fogo, serpentes gigantes e traições do deus Loki.


Então, meus caros, finalizo anunciando que as expectativas são essas todas, por enquanto, e que pelo visto estamos perdendo muita coisa boa nos últimos tempos. E, se os corvos estiverem certos, não teremos muito tempo...

28 novembro 2008

O "white album" do Sigur Rós






Em 1999, "Ágætis byrjun" fez um sucesso que a banda não esperava. Vendeu meio milhão de cópias no mundo todo. Isso em se tratando de um álbum todo cantado em islandês, com ilustrações feitas a caneta bic e um encarte colado a mão (nas primeiras impressões, claro). A sonoridade esquisita que foi definida como "canção pop do futuro mais esvoaçante e lenta", atingiu mais do que um público alvo. A banda que fizera um primeiro e obscuro álbum (fora de catálago por anos) mais voltado para a universalidade sonora, apresentava agora um segundo álbum mais voltado para os vulcões, geleiras, ventos e noites islandesas. Ainda assim, a situação se inverteu e o mundo se apaixonou pela recém descoberta da terra da Björk.




Com trilhas em filmes e cvideo clipes na tv, a expectativa por um novo álbum da banda era grande (provavelmente, ainda menor do que a da própria banda). Assim, durante poucas semanas de 2002, a banda entrou em estúdio sob a co-produção de Ken Thomas (ele tinha trabalhado com a banda no álbum anterior) e com a participação do quarteto de cordas Amiina (na época se chamava Amina, com um "i" só, antes de um processo de uma cantora de mesmo nome). O álbum ficou pronto rápido, sem muitas filtragens e polimentos, de acordo com o vocalista Jónsi. Muitas das músicas já vinham sendo experimentadas em shows (e até na trilha sonora do "Vanilla sky"). Ah, aquele também seria o primeiro álbum sob as baquetas do novo baterista: Orri Páll Dýrason. O antigo saíra para se dedicar a família e a fazenda logo depois da gravação do segundo álbum. A partir de então, essa seria a formação oficial do Sigur Rós (até os dias de hoje).




O resultado do álbum foi "( )". Quem conhece a banda sabe do que estou falando, quem não conhece não precisa se preocupar: o nome do álbum é justamente "( )". Sim, "parêntese aberto, espaço, parântese fechado". Claro, ao longo desses tempos, "( )" recebeu muitos nomes dos fãs que queriam se referir ao álbum em alguma conversa: "parênteses", "álbum branco", "pulsar" e, mais comumente até pelos membros da banda o "Svigaplatan" (ou, "álbum dos parêntes", menos curioso mas mais propício). E a estranhísse não acaba aí. A capa do disco (com 4 versões diferentes ao redor do mundo) era uma imagem indecisa e desfocada recortada no formato de dois parêntes. Simples, uma embalagem em plástico reciclado branco com dois sulcos levando o nome "( )"; dentro da embalagem a caixinha normal do cd com um encarte feito em papel vegetal estampado alguma imagem escura na frente. Assim, ao ter o cd em mãos, você só vê borrões pretos no formtao de dois parêntes. Não há nenhuma indicação do nome da banda, dos músicos, dos produtores, do estúdio e das músicas.




Não há nome das músicas? Sim. O encarte é constituído de 8 páginas em branco, cada uma para cada música. Como as músicas são cantadas em vonlenska (ou hopelandic), elas não possuem tradução ou significado. Está ficando mais difícil? Bem, explico: desdes os primeiros trabalhos da banda, algumas músicas são cantadas em idioma inventado cujo forma são vocalisações desconexas que buscam elevar a voz humana em uma musicalidade de instrumento. Afinal, cordas vocais são instrumentos orgânicos, certo? Então, voltando ao encarte... você encontra as páginas em branco para que você possa escrever suas próprias interpretações das letras (dúvido que alguém tenha riscado seu álbum). Você pode até mesmo nomear as músicas, uma vez que elas não têm nomes.



Os caras da banda até criaram nomes para as músicas, no intuito de conseguirem se referir a eles ou de listarem em seu set list, mas oficialmente, para o lançamento ou encarte do disco, as músicas eram apenas conhecidas como "Untitled 1", "Untitled 2", "Untitled 3", "Untitled 4", "Untitled 5", "Untitled 6", "Untitled 7" e "Untitled 8". Eles até lançaram um single para a primeira faixa, que por não ter nome algum indicado em seu encarte, também, ficou conhecido apenas como "Untitled 1", claro. O single contava com mais três faixas, que alguns chamam de "Untitled 9A", "Untitled 9B" e "Untitled 9C", ou "Track 2", "Track 3" e "Track 4". O single ainda contava com um dvd contendo os então três video clipes da banda (sendo dois do primeiro álbum e um de "Untitled 1"). Mas, antes que se desesperar, é bom saber que os apelidos das músicas foram oficializados com o lançamento em 2007 do ep "Hvarf/Heim" e do filme "Heima", que documentaram apresentações da banda (algumas acústicas).



Que nomes são esses? Bem, respectivamente são "Vaka" (nome da filha do Orri), "Fyrsta" ("primeira canção"), "Samskeyti" ("fixar", uma vez que essa única música sem vocal liga a segunda com a quarta), "Njósnavélin" ("máquina espiã" ou "canção do nada", que poderia ter sido o single desse álbum), "Álafoss" (o nome do pântano onde se situa a fazenda de Orri onde a banda usou uma piscina abandonada como estúdio), "E-bow" ("arco elétrico", já que Goggi usa um arco de cello em seu baixo, nessa música), "Dauðalagið" ("canção da morte") e "Popplagið" ("canção pop", a grande favorita para encerrar os shows da banda). Além disso, se os três lados b do single forem unidos, teremos uma nona música chamada "Smáskífa" ("single"). Essa música, na verdade, começou como um remix de "Vaka", mas começou a ficar tão diferente que ganhou uma cara própria. Um detalhe é que ao invés de "Vaka", a primeira faixa do "( )" era para ser "Salka" (que só foi lançada em 2007, no "Hvarf/Heim", levando o nome da enteada de Orri).



Agora, se você acha que s títulos das músicas podem inspirar algo sobre seu conteúdo, está enganado. A própria banda deu nomes mais genéricos com o intuito de desvincular qualquer imagem pré-concebida. Talvez por essa mesma razão, na época do lançamento a crítica ficou meio confusa (apesar de elogiar fortemente o trabalho). A única referência que podemos fazer sobre as músicas é com as imagens da capa do single (que são baseadas nas imagens do premiado video clipe, dirigido pela excelente e famosa Flora Sigismundi): crianças dançando com máscaras de gás em um mundo de céu vermelho e cinzas e fuligens caindo como neve. Parece triste? Acaba pior, com a morte de uma delas (que alguns dizem ser a verdadeira Vaka, que também empresta sua voz par alguns efeitos sonoros da música).



Com tudo isso em mente, fica tentador e ao mesmo tempo árduo tentar decifrar esse notável terceiro trabalho do Sigur Rós. Se você quiser uma ajudinha, fica uma dica: "( )" significa "uma metade, un intervalo e outra metade". Duvida? O disco mostra quatro músicas alegres e leves, seguidas de um intervalo mudo de 36 segundos, para chegar a mais quatro músicas pesadas e tristes. Se isso não fizer do "( )"o "White album" do Sigur Rós, não sei o que fará. Penso até que o título de "Pulsar" pode ser um referência ao "Pulse". Por que não? Nesse universo imenso de páginas em branco e palavras sem sentido, vale tudo, até bonecos (de neve) feitos de cinzas...



27 novembro 2008

Kjarri: a voz do Sigur Rós


Kjartan Sveinsson nasceu em 2 de janeiro de 1978 em Reykajvík, na Islândia. Em 1990 ele já tocava com Jón Þór Birgisson numa banda hyppie-punk chamada 'Beespiders'. Mas foi só em 1998 que ele entrou para o Sigur Rós. De lá para cá, casou-se com Maria Huld Markan Sigfúsdóttir (vilonista do Amiina, o quarteto de cordas que acompanha a banda) em 2001, compôs a trilha sonora de curta metragem "The last farm" em 2004 e, no mesmo ano, partiu numa breve turnê solo pela Islândia, tocando e cantando músicas do Sigur Rós em uma versão acústica em um projeto chamado 'Lonesome traveller'.

Kjartan (também conhecido como Kjarri) tem formação acadêmica em música erudita. Sua formação inclui conservatórios, faculdades e estudos em pós-graduação. Ele toca piano, orgão, contrabaixo, cello, violino, flauta, oboé, clarinete, banjo e alaúde. Para se ter uma idéia melhor, ele é quem compõe todos os arranjos de cordas para as músicas do Sigur Rós (tanto "Starálfur", " Viðrar vel til loftárása", "Olsen Olsen" e "Hoppípolla", por exemplo, que são executadas pelo Amiina, como também "Ára bátur" que é executa pela orquestrada sinfônica de Lonres). Os arranjos de metais de sopro de músicas como "Ný batterí", "Sé lest" e "Inné mér syngur vitleysingur" também são de sua autoria.

Notou alguma coisa curiosa na listagem de músicas? Bem, todas são posteriors ao lançamento de "Ágætis byrjun" em 1999. Tudo bem que não listei nenhuma música do "( )", de 2002 (embora ele tenha arranjos de cordas também compostos por Kjarri, eles são menos evidentes nesse trabalho, e não servem tão bem para o que quero ilustrar). Por que isso? Bem, tudo começa em 1994, quando Jonsi, August e Goggi se juntaram e formaram uma banda que levaria o nome da irmã recém nascida do vocalista partido ao meio ('Sigurrós', um nome razoavelmente típico na Islândia que significa "rosa vencedora", "victory rose" em inglês, que foi o primeiro nome da banda). Com a pretensão de soar como algo entre Iron Maiden e Smashing Pumpkins, a banda se trancou por dois em um estúdio e saiu de lá com um álbum ainda feito às pressas.

"Von" saiu em 1997 e fez um pequeno sucesso comercial e de críticas na sua terra natal. Mas não agradou nem um pouco aos membros da banda. Músicas sombrias (ora tristes, ora pesadas) era tocadas apenas com guitarra, baixo e bateria, de forma quase rudimentar e não tanto criativa. A complexidade e o tamanho do álbum se davam mais pelas experimentaçãos mal direcionadas entre ruídos e distorções. Músicas como "Leit að lífi" não chegaram a ficar prontas e "Hafssól" não se parecia nem um pouco com o que os caras imaginavam (em um f uturo post eu falo mais sobre isso, sobre "( )" e sobre o que a banda fez antes de "Von"). Essa foi a razão para que no ano seguinte a banda lançasse uma versão de remixes do "Von" (incluindo a versão finalizada de "Leit að lífi"). O nome desse álbum era um trocadilho com "Von" que significava "Decepção".

Decepcionados e desesperançados ("Von" significa "esperança") a banda pensou em parar com a idéia de música e cada um seguir sua carreira de jogador de futebol, marceneiro e qualquer outra coisa. Mas então, eis que surge Kjarri, um velho amigo dos caras. Ele se mostra interessado no som do Sigur Rós e acredita que pode fazer mais ainda, levando a música em uma nova direção. Os quatro (agora) se juntam em estúdio e compõe a música "Ágætis byrjun". Jonsi percebeu que havia uma nítida diferença entre as músicas anteriores e essa nova. Ele se animou com o resultado e com evolução de qualidade que a nova parceiria alcançou. Decidiram, então, compor e gravar um novo disco. Em um ano, eles não só compuseram todas as músicas para um novo trabalho como houve uma sobra de estúdio que seria utilizada ainda em singles futuros álbuns (são dessa época "Nýja lagið", "Untitled 2", "Untitled 4", "Untitled 8", "Milanó", "Gong", "Salka", "Hljómalind" e "Í gær").

Como se pode perceber, independente das orquestrações, as músicas do Sigur Rós que surgirão depois da entrada de Kjarri ganharam uma nova força e uma nova face. A voz da banda soou diferente, mas limpa, mais clara, com ritmos definidos e marcantes, bom uso da bateria e das guitarras e a presença belíssima de um piano. A corda vocal pode ter sido trazida por Jonsi, mas que a verdade seja dita: a voz do Sigur Rós que nós chamamos de genial só pode ter vindo de Kjartan.

13 novembro 2008

As canções pop do Sigur Rós




Em 23 de Junho desse ano, as lojas virtuais e as lojas físicas de venda de CDs e vinis de grande parte do Hemisfério Norte receberam "Með suð í eyrum við spilum endalaust", o impronunciável álbum novo do Sigur Rós. Certo, minha cópia é japonesa, saiu dia 2 de Julho mais com uma faixa a mais: "Heima" (uma versão com letra daquela apresentada no filme de mesmo nome, de 2007).



Uma rápida explicação para quem está aqui mas ainda nada (ou quase nada) sabe sobre Sigur Rós: banda islandesa que surgiu em 1994 e gravou seu primeiro álbum completo em 1997. A característica mais marcante da banda é som por vezes alienígena. o vacalista canta em falsete em uma língua inventada enquanto arranha um arco de cello na guitarra distorcida. As música tem mais de 7 minutos e são lentas, com ocasionais explosões.



Agora, diante das informações do parágrafo acima, pergunto: você já ouviu eles tocando em alguma rádio? Talvez, seja 'sim', se você morar no Canadá, na Austrália, na Inglaterra ou na própria Islândia (principalmente). Mas, provavelmente será 'não', assim como é a minha e a de vários outros fãs que conheço. Acontece que esse impronunciável álbum novo teve uma recepção suspeita por parte dos fãs. Por quê? Porque era pop demais!



Aqueles apreciadores da dita música alternativa, por vezes se gabam de conhecer algo que ninguém mais conhece. O argumento é de que possuem o gosto mais refinado e sabem selecionar e escarafunchar melhor as Last.Fm e Amazons da vida. Então, se a banda cresce e se torna um pouco mais famosa, caí no desagrado desses fãs de outrora. Já vi isso acontecer com "Coldplay" (ninguém conhecia os caras na época do "Parachutes" e muita gente gostava, hoje é uma das bandas mais famosas do planeta e ninguém mais gosta). Pobre banda! Não podem ganhar dinheiro, mulheres (ou homens) e atenção.



Então, para os incautos, antes de falar sobre o que propõe o tópico, devo algumas explicações: um artista é um trabalhador. Ele não vive só de inspiração, ele estuda, se esforça e arrisca. Como qualquer trabalhador, ele quer ganhar um dinheiro e um reconhecimento pelo seu trabalho. Ele precisa comer e dormir, ele gosta de viajar e comprar livros, sua casa também precisa de papel higiênico e seu consorte gosta de ganhar pesentes de aniversário. Eles são pessoas, só (tudo) isso. Se um Thom Yorke da vida quiser ganhar mais publicidade com álbuns gratuitos e camapanhas ambientais ou se ele quiser gravar músicas com Bjork e Jack White, isso não significa que ele está se vendendo, nem que sua qualidade como músico diminuiu. Isso só significa que ele está tentando coisas novas e que ele quer dinheiro e reconhecimento por isso. Como eu ou você, aposto.



Por quê tudo isso? Simples. Esse novo e impronunciável álbum do Sigur Rós foi produzido por Flood (que também produziu álguns do U2, Smashing pumpkins, P J Harvey e outros) em parte em New York e em parte em Reykjavík (com apenas uma música gravada no Abbey Road, em Londres). Só isso já gerou um desconforto. Sigur Rós contratar um produtor que não seja Ken Thomas ou eles mesmos? Sigur Rós gravar fora da Islândia? Claro, houve aqueles mais espertos que pensaram que isso significava que a banda tinha mais recursos e um reputação melhor, o que permitia que eles acessacem um amparato tecnólogico mais eficiente para a gravação de maior qualidade.



Depois veio a notícia que quase todo o disco seria cantado em islandês (e não na língua inventada pelo vocalista Jonsi) e que haveria um música em inglês. Alvoroço geral. Como o Sigur Rós poderia gravr em inglês? Eles não são muito fluentes na língua e agora querem consquistar um público mais amplo numa jogada comercial? Confesso que eu, um amante de línguas, fiquei meio frustrado também. Mas, doce engano: qualquer que ouvir a música "All right" (décima primeira faixa do álbum) vai ficar se perguntando como aquilo pode ser inglês ou qualquer outra língua conhecida, hehehe.



Pois bem, não bastasse isso, no final de Maio e no início de Junho vieram as primeiras audições. A música "Gobbledigook" foi liberada gratuitamente para quem quisesse saber como soaria o novo travalhado da banda. Até então, o que nós fãs conseguíamos saber era que se trataria de um disco mais acústico, com ênfase nos violões, baterias e arranjos de corda, de certa forma semelhante ao último registro em estúdio da banda: o excelente EP "Hvarf/Heim" (que acompanhou o lançamento do documentário "Heima", sobre concertos da banda ao longo da Islândia, no verão de 2006).



"Hvarf/Heim" era um EP duplo. De um lado ("Hvarf" - "porto"ou "desaparecido") havia novas versões de músicas antigas ou nunca antes gravadas em estúdio. Do outro ("Heim" - "lar" ou "terra") havia versões acústicas e ao vivo do que se poderia chamar de 'sucessos' da banda. O que esperar de um álbum novo? Um retomada ao estilo que consagrou a banda no passado (coisa que não ocorreu com o quinto álbum, "Takk...", de 2005), porém um pouco mais agitado e ao mesmo tempo leve.



Com "Gobbledigook" o que foi ouvido? Uma música curta (3:05), com batidas rápidas e incasáveis, violões , palmas, coros de "la la las" e um ritmo quase tribal, quase hyppie. Pela primeira vez, diria alguém, você poderia usar Sigur Rós em uma festa! O que era quilo? Eu adorei, claro, tudo o que a banda faz me agrada. Mas, o som me agradou de verdade. A mim e a milhares de outros fãs pelo mundo. Ao mesmo tempo, muitos fãs brasileiros e estadosunidenses torceram o nariz. A afirmação era: o Sigur Rós se vendeu; música alegre é feito para vender, não é para gente inteligente.

E o clipe de "Gobbledigook", então? Era polêmico, com gente nua dançando e brincando em algum lugar bonito. Um clipe rápido, ao contrário das slow motions dos clipes anteriors (esses sim polêmicos e chamtivos, com crianças excepcionais, homossexualismo, catástrofes e idosos vândalos). O clipe se inspirava na controversa arte da capa do impronunciável álbum novo.

E foi assim que houve um êxodo. Sei que parece dramático de mais, mas vi surgirem grupos de ex-fãs do Sigur Rós, que renunciavam gostar da banda depois de um álbum tão 'acessível', como eles chamaram. Isso por que ninguém ainda havia ouvido o álbum todo. (Embora, devo dizer, que quando o álbum de fato chegou, a reação foi a mesma, afinal, metade do álbum possuía um ritmo frenético de músicas de bêbados em um acampamento).



Então, pergunto: qual o problema? O Sigur Rós não poderia querer ganhar dinheiro? Os caras não podem amadurecer e perceber que aquela sonoridade de 1999 não representa mais a mesma coisa ou os mesmos interesses que eles têm hoje? Renovar é um crime? Experimentar é um pecado? Entretanto, a resposta veio em uma reflexão mais simples... Alguém acha mesmo que um dia as rádios vão tocar músicas como "Gobbledigook"? Ora, penso que o dia em que isso acontecer, vai ser um sinal de as rádios estão abrindo suas mentes para novas opções e qualidades!



Também penso que qualquer um dos que reclamaram de "Gobbledigook", quando a ouvissem tocando numa rádio, aumentariam o volume, parariam o que estavam fazendo e iria cantar junto, bem alto. Sigur Rós assinou um contrato com um gravadora maior (a EMI) em 2000, depois do sucesso de "Ágætis byrjun". Dizem que eles até tiveram ofertas mais lucrativas, mas ainda assim eles escolheram a que permitia maior liberdade artística. Apesar disso, algumas de suas músicas circularam em filmes como "Vanilla sky" e séries como "CSI" ou "24 hours". Isso é ser pop!



Em 2002, quando o Sigur Rós lançou um disco chamado "( )" (sim, 'parênteses' ou 'o álbum sem nome'), fizeram uma verdaeira manobra comercial. O disco não teria nome, as músicas não teriam nome, tudo seria cantado no 'vonlenska' (a língua inventada mas que nada significa) e o encarte teria uma página em branco para cada música,d e forma que o comprador do álbum pudesse escrever suas próprias letras. Contudo, para orientação da banda que não queria ficar chamando suas músicas de "Untitled 1", ou "Track 3", ou ainda "#4", nomes foram dados (e depois oficializados com o lançamento de "Hvarf/Heim". E a última faixa do disco se chama "Popplagið", famosa em concertos da banda desde 1999. O título significa "canção popular". Isso é pop!



E ainda, nos primórdios da banda, depois de gravarem o primeiro álbum, "Von", insatisfeitos com o resultado, lançaram um álbum só com remixes do "Von". Isso é pop! Pop é compôr músicas populares (independentes de qual povo), canções que toquem as pessoas de alguma forma. "Ný batterí", por exemplo, segundo single da banda dentre vários, é muito executada por fãs e possui uma estrutura bem convencional para o rock, ou algo que o valha (assim como "Glósóli", "Hún Jörð", "Njosnávelin", "Gong", "Myrkur" e a própria "Ágætis byrjun"). "Hoppíppólla" é uma das músicas favoritas dos fãs (até tocou no meu casamento) e é extremamente alegre, clichê e rápida, tem sido veícula junto com propagandas ambientais e trailers (assim como "Starálfur"). Isso é pop!



Agora, uma banda que lança álbuns, singles, eps e documentários não está interessada em ganhar dinheiro ou chamar a atenção? Eles só querem mostrar a arte? E a vaidade, o luxo e o essêncial, onde ficam? Por favor! Qualquer um que escutar o impronunciável álbum novo do Sigur Rós vai perceber quão esquisito é aquele som e como não vai aparecer em rádio alguma tão cedo. Até lá, enquanto a banda continua no anonimato para a alegria dos fãs 'alternativos', ñão há previsão de lançamento do álbum por aqui ou de shows nesse continente. Isso é pop?