28 agosto 2010

Um novo livro velho


Nesta última sexta-feira 13 de agosto, na abertura da 21ª Bienal do Livro de São Paulo (onde entrei de graça por ser autor de alguns contos em antologias lá à venda), a conhecida editora Martins Fontes lançou a versão traduzida de “A lenda de Sigurd e Gudrún”, no nosso conhecido J. R. R. Tolkien. O volume possui 440 páginas de qualidade, uma capa com fotos de representações norueguesas em madeira, custo de R$44,00 e tradução por Ronald Kyrmse, que já traduziu outras obras do Professor e fez consultoria para os antigos tradutores, uma vez que é um dos fãs nacionais com maior conhecimento e engajamento.
Antes de entrarmos em maiores detalhes técnicos sobre o livro, é importante sabermos o que ele é. “A lenda de Sigurd e Gudrún” é um poema épico, em versos aliterativos, escrito na década de 1930 e que só viu a luz em 2008. Durante todos esses anos, apenas em uma leitura atenta de algumas cartas e notas biográficas saberíamos da existência de tal peça. Agora, mais uma vez, Christopher Tolkien compila, edita e lança uma obra póstuma de seu pai, provando que o Mestre escreveu mais obras enquanto morto do que vivo.
Dessa vez, contudo, uma parte consideravelmente grande do livro se deve ao próprio Christopher, conforme veremos a seguir. Antes disso, faz-se importante saber duas coisas: a primeira, é que “A lenda de Sigurd e Gudrún” trata de uma versão de Tolkien para a saga da maldição do anel dos Nibelungos. Baseando-se mais nas sagas islandesas e nos “Eddas” (tanto em prosa quanto em verso) do que na “Canção dos Nibelungos” alemã, o poema reconta toda a trajetória do ouro de Andvari, do herói matador de dragões Sigurd e de sua viúva Gudrún.
O outro ponto a se saber para melhor compreensão do livro é que Tolkien nunca escreveu um poema chamado “A lenda de Sigurd e Gusrún”. Ele escreveu, sim, dois poemas chamados “A mais longa balada de Sigurd” e “A nova balada de Gudrún”. O primeiro dividido em uma introdução e nove capítulos e o segundo composto de uma peça única.
Com exceção de uma breve nota do tradutor explicando algumas escolhas da tradução e algumas sugestões de pronúncia, o começo do livro é um prefácio de Christopher explicando a origem do texto em si e as idéias do pai sobre a saga dos Nibelungos. Essa discussão se mantém ainda pela introdução do livro, que contém um longo texto feito das palestras do próprio Tolkien sobre as e os “Eddas”. É aí que sabemos que o autor escolheu versão islandesa da lenda pela qualidade literária superior ao conteúdo histórico da versão alemã.
Também somos lembrados de que Tolkien era um profundo admirador de William Morris (de quem muito se fala em sua biografia e algumas de suas cartas, diga-se passagem). Fica claro, a partir daqui, que a obra de Morris não só influenciou “O Silmarillion” e “O senhor dos anéis”, mas também todo o imaginário folclórico e mitológico que foram responsáveis pela criação da “Lenda de Sigurd e Gudrún”. Inclusive, Tolkien fez uso de uma idéia do próprio Morris utilizada no poema “Sigurd, the volsung”, que trata o herói da narrativa como um escolhido do deus Odin para representá-lo enquanto vivo e para salvá-lo depois de morto.
Depois das longas e interessantes explicações, somos finalmente apresentados ao primeiro poema. Aqui se deve fazer uma nota a tradução: a editora manteve o texto original pareado com o texto traduzido. Isso permite que ao leitor fluente em inglês possa não só comparar as duas versões, como possa, mais ainda, desfrutar puramente das palavras de Tolkien. O curioso é notar que Tolkien, constantemente, fica próximo de versos originais islandeses, muitas vezes reescrevendo-os ou até mesmo repetindo-os.
Já o Kyrmse, supracitado tradutor, deixa bem claro qual foi sua escolha ao traduzir o texto. Sua interpretação do poema foi seguir o mais fielmente possível a métrica e a aliteração dos versos, o que é um tanto quanto incomum em nosso país, mas mostra um trabalho cauteloso e exaustivo. Dentro desse limite, vemos que o que foi perdido, mesmo que minimamente, é o conteúdo por trás da história. Isso compromete algo, no fim das contas? Um pouco, talvez, mas é inegável que o poder dramático de Tolkien se manteve intacto em português.
Para aqueles familiarizados com a saga de Sigurd e com poemas épicos, a compreensão do texto se dá sem dificuldade alguma. Tolkien nos conta a história dos Völsungs e de como o último descendente da família, Sigurd, foi eleito pelos deuses de Asgard. Também somos apresentados ao ouro dos Niflüngs e de como esse foi parar nas mãos do herói após o combate com o dragão Fáfnir. A partir daí, a história segue para o encontro com a Valquíria Brynhild (exaustivamente dissecada em obras mundo afora), para a união com Gudrún dos bolsüngs, até o trágico final.
Tolkien narra habilmente, sem acrescentar muito a lenda e ausentando muitas informações que se mostram irrelevantes, ao final. Mais ainda, o autor preenche de beleza e metáfora cada verso e cada estrofe, dando-nos um trabalho finamente lapidado. Contudo, a época da composição do poema, Tolkien sequer imaginava que se tornaria um ícone mundial. Portanto, “A lenda de Sigurd e Gudrún” não é uma peça feita para narrar uma história, ela é feita para expressar uma opinião e um entendimento sobre uma história previamente conhecida, para um público, preferencialmente acadêmico, já familiarizado com os termos e condições propostas pela saga.
Pensando nisso, Christopher faz uma pausa entre o primeiro e o segundo poema, para dar espaço a comentários que analisam algumas expressões utilizadas por seu pai. Explicando versos e estrofes, com base em anotações tardias de Tolkien, Christopher ajuda o leitor leigo a compreender o que, de fato, está acontecendo ao longo da saga. Mostra-se, nessa tarefa, um verdadeiro escritor e, mais ainda, tão versado em línguas e lendas antigas quanto o pai. Todavia, Christopher cai no erro de tratar a obra tal qual o Professor a tratou: ignora-se que nem todos os leitores têm um pleno entendimento do que seja Asgard ou Valhöll, ou de que saibam quem é Odin ou Loki.
Mais ainda, Christopher parte do pressuposto de que todos os consumidores da “Lenda de Sigurd e Gudrún” sejam fãs prévios da Terra-Média (o que, convenhamos, deve ser verdade). Com isso, ele acaba dedicando, sempre que possível alguma comparação entre o poema épico nórdico e a composição imaginária de Tolkien, o que dá um ar frívolo de caça-níquel e enchimento de lingüiça, falando um idioma bem claro.
O livro prossegue com “A nova balada de Gudrún”, com igual tratamento de tradução e de comentários para a história, menos impactante mais ainda assim forte, da grande heroína Gudrún e sua vingança contra todos aqueles que a fizeram sofrer, inclusive pessoas amadas, o que repercute na política e na história do mundo antigo. É interessante notar que, mesmo tratando-se de um poema diferente, ele mantém o mesmo ritmo e a mesma qualidade da primeira parte do livro, o que dá um sentido de sequência e coerência para a narrativa que não encontramos nas fontes originais, por exemplo.
Acabada “A lenda de Sigurd e Gudrun”, encontramos os Apêndices, tão caros a família Tolkien, aparentemente. O primeiro deles trata de uma explicação de Christopher, citando conferências do pai e outros estudos, sobre a origem de alguns elementos da lenda. Sabemos mais sobre o huno Átila (aqui chamado devidamente de Atli) e sobre quem seriam os Nibelungos.
Em seguida, temos um curto poema de Tolkien cuja métrica segue a rima convencional e trata da criação e destruição do mundo, do ponto de vista da mitologia nórdica. Intimamente ligado com “A lenda de Sigurd e Gudrún”, especialmente com o capítulo de introdução do primeiro poema, esse aqui segue a risca o que encontramos no popular poema eddaico chamado “Völuspá”, inclusive seu título parece derivar daí: “A profecia da sibila”. Aliás, uma nota curiosa é que Tolkien manteve todos os títulos em nórdico antigo, um prato cheio para os admiradores de línguas.
Porém, mais felizes ainda ficarão tais admiradores, ao chegar no terceiro e último apêndice para ler dois poemas de Tolkien sobre Atli escritos em inglês arcaico e gótico, respectivamente. Obviamente, Christopher nos dá a tradução dos mesmos, completando assim toda a produção do pai a cerca da mitologia escandinava e centro-européia.
Ao terminar de ler “A lenda de Sigurd e Gudrún”, ficamos com o saldo positivo de ainda sentir conexão com novos escritos de Tolkien. Mais ainda, podemos nos entreter com uma narrativa que diz muito sobre os outros livros dele que amamos. Contudo, mesmo que haja certo interesse na releitura de um autor sobre um tema conhecido, o livro não despertará interesse naqueles que não sejam fãs do autor, e menos ainda em entusiastas das sagas e dos Eddas que não gostem ou não tenham conhecimento do “Senhor dos anéis” e outras obras. Curiosos por poemas épicos ou poesia em geral, também não tirarão tanto proveito assim da obra, uma vez que não é os versos a composição máxima de Tolkien.
Agora, levando-se em conta que muitas fãs da Terra-Média também são fãs de mitologia nórdica e poemas épicos ingleses, fica aqui a dica de completar sua coleção de livros e aumentar seu conhecimento. O livro valerá cada centavo e cada minuto, inclusive para quem se dedicar a escrever uma resenha tão longa quanto o próprio poema, e profissional a ponto de escolher não ser polemicista para chegar a lugar algum.

07 maio 2010

Projeto de novo livro do Lovecraft


Como muitos aqui sabem, sou um fã inveterado do Lovecraft. A tal ponto que não só dedico parte do meu blog para falar de sua obra, como também fundei uma lista de discussão no Yahoo! Grupos sobre Lovecraft (Culto Lovecraftiano, para quem se interessar) que já cresceu muito e se relaciona com importantes sites e pessoas ligadas aos Cthulhu Mythos.
Dentre esses sites, podemos sitar o Site Lovecraft (www.sitelovecraft.com), obra de Denilson, que além de ter se tornado um amigo meu, também se tornou o outro moderador da tal lista de discussão.
Pois bem, o Denilson também é apaixonado pela obra do mestre do horror indizível e cósmico. E por conta dessa paixão, ele nunca esteve satisfeito com as traduções que o brasil propiciou para a obra de Lovecraft, taão pouco se satisfez com a limitada seleção de contos traduzidos. A partir disso, ele idealizou um projeto junto a algumas editoras e pretende publicar um volume contendo grande parte da obra de Lovecraft. Essa grande parte, necessário dizer, incluirá os contos mais improtantes na história do autor e na história de seus mitos inventados, bem como contos tidos como prediletos para muitos de seus leitores, contos inéditos em português, contos fora de catálogo há muito tempo, cartas e ensaios de não-ficção onde são expostos seu processo criativo e interpretação da obra e, por fim, uma biografia completa com várias fotos, tudo priorizando os (mas não limitado aos) Cthulhu Mythos.
Mesmo com a morte de Lovecraft ocorrida há mais de 70 anos, não é 100% de sua obra que tem os direitos em domínio público, então isso está sendo cuidadosamente pesquisado e resolvido (e essa é uma das minhas participações no projeto, além da ajuda na seleção de quais contos entrarão, através de muita pesquisa), bem como os direitos de alguns contos escritos em parceria. Ainda assim, o livro promete ser bastante abrangente e repleto de novidades.
O volume ainda não tetm nome, mas já tem algumas especificações: tetrá entre 450 e 500 páginas, com fonte de tamanho reduzido, papel branco de qualidade, capa com design moderno, medindo um tamanho semelhante aos volumes da série "Crepúsculo" ou da editora Sextante.
Porém, o livro está sendo negociado junto a três editoras (um bem conhecida e outras um pouco menores, por isso não posso dizer qual delas será a escolhida) e será publicado sobre demanda. Ou seja, a tiragem será exatamente aquela referente a seus compradores. Por essa razão, o Denilson procura interessados no projeto. O livro deve ficar pronto, provavelmente, no início de 2011 (pode ser antes, pode ser depois, isso depende de alguns detalhes) e irá custar em torno de R$59,00 (tá, é meio salgado, eu sei, mas a idéia dele é qualidade junto quantidade). Então peço que quem se interessar (e confiar, afinal, é difícil "compar" um livro antes de conhecê-lo) mande um e-mail apra ele mostrando seu interesse e, também, tirando dúvidas e dando sugestões de quais contos vocês acham que poderiam constar no livro. Ah, e quem se dispor a voluntariamente ajudar na tradução, na organização, na diagramação, etc..., creio que será bem vindo.
O e-mail dele é de3103@yahoo.com.br .
Quem mais quiser ajudar a divulgar creio que também será bem vindo pelo Denilson. Aliás, quem for escrever para ele, pode dizer que fui eu quem divulguei o livro nesse blog, acho que isso reduzirá o susto que ele pode ter com e-mails desconhecidos (sabem como é, esse pessoal que mexe com Cthulhu é meio paranóico).
Obrigado pela atenção, mas é que acho que esse projeto parece valer a pena e o Denilson é uma boa pessoa e muito apaixonado por Lovecraft, por essa razão resolvi ajudá-lo.

24 abril 2010

O tom de Ingi


Segunda - feira, véspera de carnaval. Você entra em um pub inglês na capital. Está anoitecendo (na verdade, o sol parece estar se pondo a tarde toda, soprando ventos gelados com grãos de neve que se depositam sobre os lagos congelados). Você está bebendo sua cerveja sozinho com sua esposa quando dois rapazes entram rindo e falando alto. Tudo está bem. Um deles arrisca uma roleta e ganha 8 cervejas, arrisca de novo e ganha mais 8. Obviamente, não iriam tomar 16 cervejas em dois, então oferecem 2 para vocês.
Nesse momento, o outro rapaz procura o isqueiro para acender o cigarro e você se oferece para emprestar seu isqueiro e fumar junto. Você descobre que o rapaz tem o apelido de Haddo (o nome é Haldór, o mesmo do escritor islandês premiado com o Nobel). Após apagar as bitucas, fica combinado que os dois rapazes se sentarão com vocês na mesa.
Depois de cervejas e risadas, depois de conversas sobre cultura, política, música (com direito a imitar e falar mal do Jónsi, do Sigur Rós) e sexo, o outro rapaz paga toda a conta sozinho e chama um táxi. Ele os leva até o estúdio dele para tocar violão, cantar mesmo estando rouco e lhe presentear com um CD autografado. Esse é o Ingi.
Ingi é o mais novo músico de sucesso da Islândia, mostrando que existe outras vidas além de Björk, Sigur Rós, Múm, Olaf Arnalds, Amiina, HÖH, Thor's Hammer e outros mais obscuros. Suas músicas tocam nas rádios e ele costuma fazer apresentações na rede nacional de televisão. É claro que no verão ele deve excursionar em festivais europeus e já planeja um retorno aos Estados Unidos (onde gravou e mixou o CD, em uma cela de Alcatraz) e ao Japão. Mas como seus CDs serão lançados na Oceania, é possível que ele vá até lá, embora o sonho atual seja de vender CDs no Brasil para um dia tocar aqui.
“Human oddities” é o nome do CD, título que vem dizer sobre as estranhezas de relacionamentos e comportamentos humanos. As músicas são crônicas indie e pop inspiradas no rock de Bob Dylan e David Bowie. O álbum foi produzido por Scott Mathews, que já trabalhou com George Harrisson, Ringo Starr, Keith Richards, Mick Jagger, Beach Boys, Johnny Cash e tantos outros.
A primeira que ouvimos ao colocar o CD no disc player é “Sylvia”, nome da namorada de Ingi, que é quem também assina a arte do encarte e os quadros que decoram o estúdio. A segunda música é “Power to the bastards”, que inclusive já virou um clipe curioso estrelado pelo premiado Olafur Darri Olafsson e dirigido por Markell. Logo em seguida, você ouve “You little fruitcake”, que deu origem ao primeiro clipe de Ingi, recheado de cenas famosas da Tv e com a presença do mesmo violão que ele usou para gravar o CD e para tocar no estúdio para você.
E assim o disco todo segue por 10 músicas com violão, guitarra, bateria e instrumentos de sopro (como ocasionais cordas, pianos, coros e efeitos), até chegar na última música, “She’s so silly” que fala sobre amizade com aquele Haddo que você conheceu, que lhe garantiu que te ajudaria em tudo o que você precisasse naquela semana e que ainda lhe deu o número de celular dele e do Ingi.
Um bom jeito de fechar um divertidíssimo CD e uma memorável noite. Agora, enquanto esse som não chega por aqui, o melhor jeito de começar a conhecer o trabalho de Ingi é procurar os clipes e apresentações no YouTube e no Facebook, seguí-lo no twitter e visitar sua página constantemente. Quem sabe não realizamos o sonho dele e o trazemos até o Brasil?

20 abril 2010

August Derleth e os mitos de Lovecraft




August William Derleth nasceu no estado de Wiscosin, em 24 de fevreiro de 1909. Apesar de muitos ainda o conectarem a seu personagem mais conhecido, Solar Pons uma sátira/homenagem à Sherlock Holmes, o que tornou Derleth famoso foi seu contato com Lovecraft e os mitos de Cthulhu. Aliás, contato esse crucial para os mitos, uma vez que foi ele quem nomeou o universo de criações de Lovecraft como Cthulhu Mythos.


Lógico que é bem possível que muitos fãs da obra de Lovecraft torçam o nariz ao ouvir o nome de Derleth, já que ele introduziu elementos até então ausentets na obra de Lovecraft. Por exemplo, Derleth foi o criador de uma guerra cósmica entre os Deuses Mais Antigos (entidades benevolentes, como Nodens do conto "A casa que pairava nas brumas") e os Grandes Antigos (entidades malévolas, como o próprio Cthulhu e muitos outros famosos, incluindo Shubb-Nigurath, Nyarlathotep, Azatoth e Yog-Sothoth). Nessa tal guerra cósmica, o Deuses Mais Antigos expulsaram o Grandes Antigos da constetlação de Betelgeuze (e da onde você acha que vinha o nome do meu blog?).


Pois bem, essa guerra trouxe elementos maniqueístas como o bem e o mal para o universo das criaturas, lugares e livros de Lovecraft. Qual o problema nisso? Simples, Lovecraft não queria instigar a crença de que Cthulhu e seus amigos eram maus, ele queria levantar a hipótese do Caos, da pequenez da humanidade diante essas criaturas, a falta de lógica e, consequentemente, falta de altetrnativas para lidar com a ameaça alienígena e colossal que dorme acidentalmente nas profundezas de nossos oceanos. mais ainda, Derleth trouxe uma esperança de combater esse mal invocando as forças do bem.


E houve outra forma de combater o mal. Lovecraft introduziu alguns gestos e símbolos mágicos para invocar os Grandes Antigos. O mais famoso desses símbolos era o Sinal Antigo, uma espécie de runa imitando uma folha de palmeira. Pois bem, Derleth transformou o Sinal Antigo em um pentagrama com um olho no meio e deu a ele o poder de afastar o mal. Drástico, não? Mas não acaba por aí.


Provavelmente, a maior polêmica que Derleth trouxe aos mitos de Cthulhu foi a questão elemental. E quando digo elemental me refiro aos elementos em si, aqueles quatro elementos da altat magia cerimonial: terra, ar, fogo e água. Pois bem, Derleth associou quatro Grandes Antigos aos elementos, como se eles regessem esses elementos e se manifestassem através deles. O fez da seguinte forma: Cthulhu para a água, Cthuga para o fogo, Nyarlathotep para o ar e Shubb-Nigurath para a terra. Uma interpretação no mínimo curiosa, especialmente para os fãs de ocultismo, mas não podemos ignorar o fato de que isso limita todo o poderio dos Grandes Antigos.


Então, você deve estar se perguntando como Derleth fez tudo isso? Ora, escrevendo, é claro. Derleth escreveu centenas de contos e dezenas de livros. Dentre as séries ligadas ao já citado Polar Sons, quanto em outras séries ligadas a unvierso algum, Derleth explorou os mitos de Cthulhu. Citou nomes e sobrenomes de personagens, lugares, tomos secretos e proibidos, divindades e criaturas. Mais ainda, foi o organizador de duas antologias sobre os mitos de Cthulhu com contos escritos por diversos autores, além de ter escrito sua própria antologia de contos sobre o universo de Lovecraft ("The mask of Cthulhu", onde encontramos um conto onde ele explora a divindade Hastur, que antes só havia sido obscuramente citada por Lovecraft, em referência a obra de Lord Dunsany) e uma novela com diversas histórias interligadas nesse mesmo unvierso (o famoso "The trail of Cthulhu", que deu origem até a um RPG que em breve será traduzido no Brasil).


Um dos trabalhos mais famosos de Derleth sobre os mitos de Cthulhu é o romance "The lurker at the threshold", que estampa na capa uma colaboração entre ele e Lovecraft. Na verdade, Derleth apanhou dois contos que Lovecraft deixou inacabados ao morrer (um total de 50.ooo caractéres) e escreveu o resto, unindo esses trechos e criando uma empolgante aventura de suspense e horror, dentro do renovado universo de elementos e maniqueísmo. Claro que muitos fãs rejeitaram a obra, mas eles rejeitariam ainda mais os outros 16 contos dessa 'parceria'. Contos onde Derleth apanhou rascunhos, protóptipos, idéias abandonadas e versões alternativas de contos de Lovecraft e os publicou ao longo de sua carreira sob o nome dos dois, mas sob as palavras do primeiro, que infelizmente não são tão boas quanto as do segundo. Ainda assim, alguns momentos são bons e você pode conferí-los no coletânea "Watchers out of time" (título que se refere a um conto que o próprio Derleth deixou incabado ao morrer).


Com base nisso tudo, você deve estar se perguntando porque afirmei logo no início dessa postagem que August Derleth teve a importância a crucial para os mitos de Cthulhu. Explico. Além de dar o nome de Cthulhu Mythos para abarcar toda a criação fatnástica das histórias de Lovecraft, foi o próprio Derleth quem permitiu que Lovecraft se tornasse conhecido e viesse até nós, nos dias atuais. Sim! Sem Derleth, jamais saberíamos quem foi Lovecraft e seuqer saberíamos que ele um dia existiu e inventou o Necronomicon (uma postagem que ainda estou devendo).


Acontece que Derleth sempre foi admirador de Lovecraft e amigo pessoal, corresponde-se com ele durante muitos anos e cartas. Inclusive, Derleth muitas interviu junto aos editores da revista "Weird Tales" para que publicassem os contos de Lovecraft. E Lovecraft, por sua vez, só viu um único livro seu ser publicado: "A sombre sobre Innsmouth". Fora isso, viu alguns contos serem publicados em revistas de ficção científica, aventuras pulp e horror, enquanto esperava que "Nas motanhas da loucura" (que já havia sido publicado em série) fosse publciado como uma novela.


Então, após a morte de Lovecraft, eis que Derleth funda a Arkham House em 1939 (uma referência a cidade mais famosa criada por Lovecraft, que mais tarde serviu de inspiração para os quadrinhos do Batman). O objetivo da Arkham House (que publicou as obras do próprio Derleth e de muitos outros autores famosos, como Ray Bradbury) era popularizar aquilo que outras editoras não se interessaram em tornar popular: Lovecraft e os mitos de Cthulhu. Não a ota, a primeira publciação da editora foi "The outsider and other stories" contendo alguns dos contos mais famosos de Lovecraft.


E foi a partir dessa iniciativa de Derleth, um editor e um fã, que Lovecraft alcançou o cinema, os quadrinhos, os RPGs, os brinquedos, as piadas e os livros na sua prateleira. Também foi a partir da paixão de Derleth que muitas divindades, tomos, cidades, personagens e criaturas, adcionaram uma sombra maior e uma riqueza mais profunda aos mitos de Lovecraft. Mitos esses que deixaram de ser de Lovecraft apenas, para se tornarem de Derleth e, a partir de então, de Howard, Smith, Bloch e muitos outros. Foi assim que um desconhecido autor que implorava por publicações baratas em pequenas revistas se tornou o autor dos mitos de Cthulhu: através de August Derleth.

19 abril 2010

Coleção de poemas/poesias


Saiu em fevereiro, em Portugal, pela editora WAF (world art friends, um segmento da Editora Corpus, da cidade do Porto) meu primeiro livro. Sim, é um livro só meu, contendo cerca de 40 poesias ou poemas.

O livro se chama "Trova e trovoada", título que tanto dá nome aos últimos versos (que falam sobre fazer amor quando há uma tempestatde do lado de fora) como também remete ao trovadorismo (que influenciou alguns versos) e ao meu fascínio pelo trovão. Fascínio esse que funciona quase como uma identificação pessoal.

Enfim, aproveitando a iniciativa da WAF de promover novos autores dentro de um contexto chamado Ministério da Poesia, fui um dos 50 selecionados entre os mais de 350 autores. Para tanto, contei com versos escritos em dois momentos da minha vida: um foi há 5 anos atrás quando vivenciava um momento de luto e reestruturação (no livro chamado de "Invasão") e outro há 2 anos atrás quando passava por um momento de adaptação à estrutura (no livro chamado de "Instalação)".

Assim, cada uma das poesias ou poemas circula por anotações de aulas de psicologia, recados que enviaria para alguém e entradas no meu diário, dando um caráter biográfico e íntimo para o livro, quase como se me despisse diante do leitor (na verdade, a intenção era justamente o contrário, a idéia era me vestir de símbolos diante de mim mesmo).

A edição do livro foi feita por mim mesmo, cabendo a diagramação do mesmo a própria editora. O livro pode ser encontrado em algumas livrarias de Portugal e pode ser encomendado pela Fnac. Também está disponível para download no site da editora que o publicou.

Um adendo importante é a arte da capa e da contra-capa, feita por Pedro Brondi, com quem trabalhei no gibi "Pork à procura de si mesmo", no site Pork Comics e, em breve, em muitos outros projetos lgiados a quadrinhos e livros ilsutrados.

05 abril 2010

Quem são os Nazgûl?







Escravos dos Nove Anéis que Sauron forjou para os Homens junto com os ferreiros de Eregion, durante o ano de 1500 Segunda Era do Sol em Arda, os nazgûl formam o máximo em poder e horror no exército de Sauron. Os Espectros do Anel, como também são chamados, correspondem a liderança das tropas de Mordor vestidos como Cavaleiros Negros. Cavaleiros estets que oram cavalgam cavalos negros e amaldiçoados, ora "cavalgam" uma criatura alada distorcida e deformada: o falcão do inferno.



Tudo isso é bem conhecido. A dúvida mesmo fica por conta de quem são os nazgûl e tudo o que o "Senhor dos anéis" nos informa é que são Homens corrompidos pelo poder dos Anéis de Poder. Homens gananciosos por riqueza, poder e longevidade, que se deixaram seduzir pelos tais "nove para Homens mortais, fadados ao eterno sono", dos quais falam os conhecidos versos. E esse nove, por sua vez, estavam subjugados pelo famoso "um anel para todos governar, um anel para encontrá-los, um anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los".



Mais do que isso, ficamos sabendo que seus corpos definharam e suas almas se distorceram, aprisionados por Sauron e suas falsas promessas. E sabemos também, através dos "Contos inacabados de Númenor e da Terra Média" que o segundo nazgûl em comando se chama Khamûl, a "sombra do leste" (na língua negra dos orcs), que tem esse nome graças ao fato de ele provavelmente ter sido um membro do povo Balchoth que habitava a região outrora conhecida como Hithlum. É Khamûl quem assume o ataque dos outros nazgûl quando o Rei dos Bruxos cai na Batalha de Pelennor.



E quem é esse tal de Rei dos Bruxos? Ele é o Senhor dos Nazgûl, o Capitão Negro, A Sombra de Morgul. Seu título de Rei se deve primeiro ao reino de Angmar, nas Montanhas Cinzentas, onde trouxe caos e destruição para o Norte, até fugir para Mordor, ao Sul. Logo depois, seu reinado de horror retornou em Dol Guldur, trazendo maldições para a Floresta das Trevas. E seu título de bruxo se deve as artes de feitiçaria e bruxaria que praticava, que espalhava e que ensinava onde quer que estivesse para os homens de coração negro.



Mas nem só por isso o Rei dos Bruxos tinha esse título, afinal, ele, assim como os outros nazgûl, foram homens de poder enquanto vivos. Homens que ocupavam papéis importantes na sociedade em que viviam. E possivelmente, o Rei dos Bruxos teria sido um homem de Númenor. Talvez, até um rei. Mas então, que rei seria esse? Como ninguém soube? É aqui que começa minha investigação., meu ensaio. Penso que se eu consegui levantar uma teoria satisfatória sobre Tom Bombadil o resto é fácil. E atendendo ao pedido de um amigo, me proponho a destrinhcar um outra teoria incomum sobre a obra de Tolkien.



Pois bem, é sabido (conforme exposto acima) que os anéis de poder surgiram por volta do ano 1500 da Segunda Era. Porém, a sombra de Sauron só caiu sobre Númenor por volta de 1800. Como eram necessários dezenas de anos (ou até mesmo séculos, caso de anões, hobbits e tatlvez um númenoreano) para ser totalmente corrompido pelo poder de um anel mágico e se submeter a vontade Sauron, os nazgûl só foram surgir abertamente no ano de 2251. Com isso, o que temos até agora? Temos que Sauron necessitou pairar sua sombra sobre Númenor, antes de conquistar espaço e confiança o suficiente para encontrar um númenoreano que aceitasse um anel de poder. Mais ainda, foi necessário esperar um bom tempo até que o escolhido se definhasse ao ponto de se tornar um Espectro do Anel e se revelar para a Terra Média. A menos, é claro, que Sauron rapidamente encontrasse um númenoreano ambicioso e facilmente sucetível a corrupção (o que, convenhamos, não era algo difícil de se achar). E também temos a possibilidade de Sauron não ter esperado que o númenoreano se definhasse totalmente até revelá-los em todo o seu poder. Com isso, temos de fato um margem de cerca de 400 anos entre um homem ser escolhido e se tornar um Cavaleiro Negro.



Mas qual númenoreano poderia ser o Rei dos Bruxos? Se pensarmos que foi um rei de Númenor nossas opções de reis para aquela margem de tempo são Tar-Minastir, Tar-Ciryatan e Tar-Atanamir. Para facilitar um pouco as coisas para nós, podemos descartar Tar-Minastir sem problema algum por dois motivos: primeiro, a data em que entregou seu cetro e a data de sua morte são muito longe do surgimento dos nazgûl e muito próximas da chega da sombra de Sauron à Númenor; o segundo e mais consistente motivo é o fato de ter enviado uma esquadra para auxiliar Gil-Glad na primeira guerra contra Sauron.



Sobra nos agora apenas duas opções (a menos que consideremos que a inveja de Minastir pelos elfos e o fato de ter morrido ainda de posse do cetro como marcas de Sauron sobre si). A primeira delas é Tar-Ciryatan, que governou do ano 1869 até o ano 2029, um tempo bem propício para aprovar nossa teoria de que um rei númenoreano seria o Rei dos Bruxos. Outros pontos que corroboram os fatos é que Ciryatan tomou o cetro de seu pai a força e era tão sedento por riqueza e tão poderoso que oprimia os homens da Terra Média em troca de pedras e metais preciosos, de forma a construir uma gigantesca esquadra naval. Acredita-se que ele seja a primeira manifestação da sombra de Sauron contra a paz de Númenor.Então, eis que nos deparamos com Tar-Atanamir, o Grande.



Atanamir nasceu em 1800 e reinou de 2029 até 2221 (lembrando, sempre, que númenoreanos vivem muito mais que um homem comum, graças a linhagem élfica e a escolha de seu ancestral Elros, irmão de Elrond). Durante esse reinado de 192 anos, Atanamir cobrou uma elevada tributação dos homens das costas da Terra Média, mostrando-se ainda mais ganancioso que seu pai. E mostrou-se também mais orgulhoso, quando declarou abertamente seu ódio para com os elfos e seu desejo para que os Valar se afastassem da vida dos númenoreanos. Além de Grande, Atanamir ganhou a alcunha de Petinaz, uma vez que morreu antes de entregar o cetro, já que recusava-se a deixar de reinar ou mesmo a morrer, fazendo dele uma boa opção para o Rei dos Bruxos.



Uma terceira opção, não levantada anteriormente, seria Tar-Ancalimon, que governou até 2386. Claro que essa opção só será possível se acreditarmos que Ancalimon se tornou o Rei dos Bruxos ainda antes de definhar completamente. Ou se pensarmos que o Rei dos Bruxos não se manifestou junto com os outros nazgûl. De qualquer forma, Ancalimon se mostra uma boa opção quando pensamos na cisão que ele criou entre os homens que tinham amizade pelos elfos e homens que o seguiam na luta contra tudo o que fosse de origem élfica. Tal separação originaria, mais tarde, os portos de Umbar (para os númenoreanos) e de Pelargir (para os númenoreanos Fiéis aos Valar).



Como resolver essa dúvida? Bem, ao meu ver a resposta se encontra espalhada entre o "Silmarillion", "o Senhor dos anéis" e o décimo segundo (e último) volume da série "History of Middle Earth", o "The peoples of Middel Earth". Bem, a primeira coisa seria descartar todas as opções acima citadas. Porquê? ora, porque nenhum rei númenoriano forjou a própria morte ou teve seu corpo desaparecido. Logo, nenhum rei númenoriano foi o Rei dos Bruxos. E isso torna todo o texto escrito até agora inútil? De forma alguma, ele serve como suporte para apoiar um teoria.



A teoria de que o Rei dos Bruxos não era um propriamente um rei, mas um dos homens do rei. Ou seja, um homem influente, como Sauron desejava, mas que não chamasse a atenção. E quem poderia ter sido esse homem? A respostat virá com o entendimento dos elementos surgidos a partir da cisão entre Númenor e os Valar, e da criação do porto de Umbar.



Com o "Silmarillion" e o "Senhor dos anéis", ficamos sabendo que antes da queda de Númenor, alguns númenorianos, mas tarde conhecidos como númenorianos negros, migraram para Umbar e lá regeram os homens, migrando novamente depois para o Sul, para Harad. Entre os númenorianos negros mais famosos está o poderoso mensageiro Boca de Sauron, só para termos uma idéia do que estamos falando.



Pois bem, quando vasculhamos o "The peoples of Middle Earth", encontramos textos incabados por Tolkien ou textos rejeitados por Tolkein mas acolhidos por seu filho e editor Christopher. Entre esses textos, encontramos um chamado "The new shadow", que trata de eventos ocorridos 220 anos depois do "Senhor dos anéis". O breve conto seria uma novela de suspense que serviria como continuação apra a história da Terra Média, mas Tolkien acreditava que novas histórias de medo não poderiam mais ser contadas nos tempos de paz.



E o que isso tem a ver com nossa teoria? Tem a ver que nessa história descobrimos que uma espécie de seita "satânica" conhecida como Árvore Negra, cultuava as forças opostas aos Valar e aos ideais de Gondor (ou seja, aos ideais de Eldarion, filho de Aragorn, de linhagem de númenor e amigo dos elfos). Estamos chegando perto agora, não é? Creio que para concluir só falta uma referência: o nome mais invocado pela Árvore Negra, em segredo, é o nome de Herumor (o "Senhor escuro" em quenya, a língua mais nobre dos elfos e que continuou sendo usada em Númenor por medo, mesmo depois de declarado o ódio pelo povo élfico).



Para quem não sabe ou não ligou as pontas, Herumor é um númenoriano negro que aportou em Umbar e foi se unir aos haradrin, ainda durante o reinado de Tar-Ancalimon, embora seja bem provável que ele já vivesse desde o início do reinado de Tar-Atanamir. Por conta disso, não é à toa que os haradin apoiaram Sauron e o reino de Mordor, vizinho do reino de Harad.






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01 abril 2010

Islandia (ou: O país do Sigur Rós)


Quando se ouve Sigur Rós, é fácil pensar em como a paisagem solitária da Islândia influenciou as composições da banda. O inverno longo e rigoroso que torna tudo tão quieto dá o clima perfeito para as canções do álbum "( )". O desejo para que o sol nasça (mesmo que sua luz sempre esteja na vertical e dure tão pouco) motivam canções como as do disco "Von" (especialmente "Dögun", "Lei ad lífi", "Myrkur", "18 sekúndur fyrir sólarupprás" e "Hafsól") e a "Glósóli". As rajadas de vento e os vapores de tanta atividade vulcânica explicam perfeitamentet porque o disco "Ágaetis byrjun" foi considerado um disco sobre a própria Islândia.

Não à toa, encontramos um documentário do Sigur Rós chamado "Heima" ("em casa") onde eles tocam pelas pequenas e coloridas cidades do país. Também não é à toa que encontramos músicas da banda com o nome de "Fljótavík" ( o nome de um lugar da Islândia). Aliás, é a mesma explicação para músicas como "Starálfur"(sobre os elfos do país), "Flugufrelsarinn" (sobrer o mar, as baleias e os insetos do país), "Ára bátur" (sobre os barcos do país) e"Ilgressi" (sobre outra localidade do país).

Aliás, penso que músicas como "Hún Jörd" falem sobre essa conexão da banda com a o país (geológico e mitológico), bem como todo o disco "Med sud í eyrum vid spilum endalaust" trata sobre o verão do país. Talvez, aí esteja a razão para que a banda prefira cantatr em islandês (e fazer parcerias com islandeses): porque a Islândia permeia o Sigur Rós.

E qual a resposta disso? Bem, o Sigur Rós permeia a Islândia, também. Estando lá, você encontra CDs, cartões postais e camisetas do Sigur Rós em qualquer livraria, em lojas de souvenires e até em postos de gasolina de beira de estrada bem longe da capital (ônibus estes que estão tocando Sigur Rós no rádio). Você anda por Reykjavík e vê placas que levam até Álafóss (o estúdio da banda). Você vê as casas e lembra do video-clipe de "Hoppíppolla", você viaja e vê as paisagens dos video-clipe de "Svefn'g'englar", "Vidrar vel til loftárása" e "Glósóli". Mais ainda, você descobre histórias como as contadas em "Heysátan".

E se as a aurora boreau não convencer que o som etéreo, lendo e mágico do Sigur Rós só poderia vir de um país como a Islândia, que tal ver com os próprios olhos lugares como Gamla Börg, onde foi gravada a versão acústica de "Von" e que serve de capa para o EP "Heim"? Ou então, visitar a própria estação Hlemmur, que dá nome ao documentário cuja trilha sonora foi compsota pela banda?

24 fevereiro 2010

Islândia (ou: Terra - Média)


É sabido que as inspirações de Tolkien para permeearem suas obras sobre a Terra-Média vem dos lugares mais diversos, como sua história pessoal, um pouco de cultura grega, célticas e algumas palavras bastante folclore germânico. Mas, provavelmente, as maiores referências são encontradas na mitologia nórdica. Não é a toa que ao lançamento do "Hobbit" em tradução para a língua islandesa, Tolkien Afirmou que não haveria melhor língua para se ler aquele livro. Afinal, o nome Beorn é exatamente a palavra islandesa Bjorn, Que significa Urso. Aliás, é incrível como Beorn se assemelha aos guerreiros Berserkers da cultura nórdica. E não pára por aí.

O principal compêndios de mitologia islandesa (provavelmente nórdica e) São livros assim chamados "Edda". Você pode encontrar o "Edda em versos" (ou "Edda Antigo"), que são poemas rimados encontrados, coletados e editados pelo historiador Snorri Sturluson ainda no século XIII, contando as histórias dos deuses e dos heróis da Islândia. Da Criação uma destruição do mundo, das aventuras bem humoradas dos deuses às tragédias dos heróis, das navegações maravilhosas aos Reinado Estratégicos, muita coisa de toda a história islandesa está lá. E você também pode encontrar o "Edda em prosa" (ou "Edda novo"), escrito pelo mesmo Snorri Sturluson, deuses Descrevendo, personagens, contos folclóricos, lugares míticos, artefatos mágicos e por aí vai.

Aonde quero chegar falando desse tal "Edda"? Fácil responder. Basicamente, o nome de todos os anões do "Hobbit" (e de quase todos os anões da obra de Tolkien) são nomes de Anões encontrados no "Edda". O nome é de Gandalf e ncontrado não "Edda", assim como de outros personagens de importância reduzida. Falando em anões, deuses como raças, anões, elfos, humanos, trolls e dragões são encontradas no "Edda", além de espadas mágicas, maleficos anéis, guerras épicas, tempestades, Selvagens espíritos, fantasmas, profecias e muito mais.

Pois bem, passeando pela Islândia, você pode encontrar pedras gigantescas que são, na verdade, trolls que se transformaram em pedra com a luz do sol, ou casas perdidas e vales e até cidades inteiras nas montanhas que servem de moradia para elfos, fendas ou escuras e frias, ou dragões adormecidos com lagos, montanhas ou túmulos de pedras em Ruinas, ou, ou restos de histórias de bravos guerreiros, feiticeiros e poderosos, ou os vulcões, que nunca podem ser esquecidos quando falamos da Islândia.
Isso sem falar que na mitologia nórdica, a islândia e toda a terra é chamada de Midgard, ou, Terra-Média na língua dos elfos e anões da Islândia (lá, muitos também falam a língua comum, ou inglês). Não bastasse isso, só Restava afirmar que a foto acima é de um lugar chamado Montanhas Azuis. Então, se a Islândia não for realmente a Terra-Média, não consigo imaginar qual lugar seja.

27 dezembro 2009

Jonsi: o coração do Sigur Rós


Jón þór Birgisson (þór lê-se como "Thor", sim, é o nome do deus nórdico dos trovões) é o vocalista e guitarrista do Sigur Rós. Mais conhecido como Jonsi, não faz muito tempo que ele teve boas aulas para tocar guitarra, não à toa nos primeiros álbuns da banda (especialmente no primeiro, "Von") o que ouvimos de guitarra é apenas distorção e efeitos, deixando os acordes e arpejos para o baixo. E foi dessa forma que Jonsi desenvolveu sua técnica (nem tão original quanto se imagina) de tocar guitarra com um arco de cello e efeito de eco nos pedais. Não que ele saiba tocar cello, claro, mas foi um presente do colega de banda Kjartan (com quem formou sua primeira e premiada banda hyppie-punk: Beespiders) que ganhou um cello quando, na verdade, queria um violino.

Mas estamos indo depressa, antes de tocar no Beespider e usar cabelo comprido, roupas largas e óculos coloridos, Jonsi nasceu. E ele nasceu no dia 23 de abril de 1975, na capital da Islândia, Reykjavík. Nasceu, aliás, cegou de um olho, como o deus nórdico Oðinn (pai de Thor). Só depois de nascer é que foi descobrir seu gosto por David Bowie e Iron Maiden (e muito mais tarde, moderadamente pelo Smashing Pumpkins). Então, como se vê, se Kjartan trouxe a música erudita para o Sigur Rós, foi Jonsi quem antes definiu que esta seria uma banda de rock.

E também foi Jonsi quem levaria elementos eletrônicos para os álbuns do Sigur Rós, afinal, além de fazer participações especiais em músicas de bandas como Hafler Trio, Dip e Dirty-box sob o pseudônimo de Mono, Jonsi também teve um projeto solo que envolviam metais e instrumentos eletrônicos, sob o famoso pseudônimo de Frakkur. Chegou inclusive a fazer uma bela apresentação em 2004 e gravou três álbuns de música ambiente (intitulados "Pling-pong", "Songs for the little boy" e "Toyboy"), que nunca foram oficialmente lançados, apenas caíram na rede misteriosamente no ano passado.

Porém, mais ainda do que a instrumentação característica ou o falsete em uma língua inventada por ele (o "volenska", um série de vocábulos inspirados no islandês que Jonsi usa para cantar em muitas canções), o nome e a arte do Sigur Rós também devem a seu membro mais famoso e de cabelo mais arrepiado. Sim, pois Sigur Rós é o nome da irmã caçula de Jonsi que nasceu no mesmo dia em que a banda foi formada. E já que estamos falando de crianças, os temas infantis e a presença de imagens infantis são por conta do apreço de Jonsi a essa fase inocente, alegre e desprotegida da vida. Inlusive, embora muitas das imagens dos álbuns do Sigur Rós sejam obra de Alex Sommers (guitarrista da banda Parachutes, namorado e colaborador de Jonsi no projeto musical e artístico intitulado "Riceboy sleeps"), algumas outras imagens são de obra do próprio de Jonsi.

Agora, dia 22 de março desse próximo ano, veremos surgir o primeiro álbum solo de Jonsi (usando esse nome mesmo, e não Frakkur, como se esperava): "Go". O álbum é mais acústico e repleto de arranjos de cordas e tem a maioria das músicas cantadas em inglês (uma língua que durante muito tempo foi difícil para Jonsi, mas que depois do último disco do Sigur Rós ele começou a dominar bem mais). A primeira faixa dessa obra (que interromperá por uns meses a produção do próximo álbum da banda) já pode ser ouvida com seus ruídos e uma voz mais grave. Chama-se "Lilikoi boy" e mostra porque Jonsi é o coração (e não a voz) de qualquer projeto em que tocar seu dedo de Midas.

05 dezembro 2009

"O hobbit 2": mais do mesmo (?)






Comemorando, atraso, o primeiro aniversário desse novo formato do blog, resolvi retomar um dos meus primeiros posts aqui. Agora, ao invés de apontar os problemas que "O hobbit" causou na obra e na Terra-média de Tolkien, quero mostrar que as ligações entre esse livro e o "Senhor dos anéis" são maiores do que julga sua vã filosofia. E não estou me referindo as ligações encontradas nos apêndices ou nos "Contos inacabados". Me refiro a como Tolkien levou ao pé da letra o pedido de seu editor para que, em 1937, escrevesse um 'novo "Hobbit"'.



Se quando Tolkein releu e revisou o "Hobbit" para a publicação da "Sociedade do anel" ele sentiu vontade de reescrever todo o seu primeiro livro novamente, penso que um dos motivos que o levou a desistir pode ser o fato de que ela já havia feito isso. Sim, minha idéia é justamente essa: mostrar como os dois livros se parecem, muito mais do que a presença de hobbits como protagonistas lidando com anéis mágicos e orcs a serviço da força das trevas. E digo isso embasado na minha recente (e sétima) leitura do "Hobbit" (já "O senhor dos anéis" só li seis vezes, sendo a última no ano passado, mas muita coisa ainda está fresca na mente, graças a ajuda dos filmes).



Tomemos como ponto de partida e, consequentemente, ponto principal, a estrutura da história dos livros. "O hobbit" começa no Condado, quando um pacato hobbit se vê envolvido em uma missão que não é sua graças ao mago Gandalf. Ele parte em um grupo com anões e, logo de cara, enfrenta um grupo de monstros (no caso, trolls). Logo depois, acaba na casa de Elrond, em Valfenda, e de lá parte para as Montanhas Sombrias, onde enfrenta orcs a mando do Necromante (que depois descubriríamos ser Sauron).



Ainda está me acompanhando? Pois bem, de posse do Anel, o grupo sai da morada dos monstros e encontra um lugar amigo que os recebe (a casa de Beorn), que fica a beira de uma floresta. E depois de atravessarem a floresta chegam a um reino de humanos. De lá, parte para o fim da jornada (a perdida Montanha Solitária, onde vive o vilão da história, o dragão Smaug, que é morto por um personagem secundário em uma passagem que mal é mostrada). Então, o livro e a história poderiam acabar aí, mas uma surpresa aguarda os leitores nos capítulos finais do livro: o hobbit se vê envolvido em uma guerra por tesouros e territórios, onde as mais diferentes raças se reúnem.



"O hobbit" acaba com Bilbo (o protagonista, diga-se de passagem) confortavelmente em casa. Mas ficamos sabendo que 60 anos se passaram e o Anel encontrado trouxe problemas ao mundo, graças ao retorno de Sauron (aquele Necromante citado acima), seu legítimo dono que se sentiu roubado (igual ao Gollum, antigo portador do Anel antes de Bilbo). E é aí que começa "O senhor dos anéis", cuja história pode ser contada seguinte forma:



Um pacato hobbit do Condado se vê em uma missão que não é sua graças ao mago Gandalf. Ele parte em grupo, que mais tarde teria um anão, e logo de cara, enfrenta um grupo de monstros (no caso, Nâzgul, mas ele passa bem perto de onde estavam os trolls). Logo depois, ele acaba na casa de Elrond, em Valfenda, e de lá parte para Moria (nas Montanhas Sombrias), onde enfrenta orcs a mando de Sauron, e um dos personagens (Gandalf) enfrenta sozinho uma criatura das profundezas (dessa vez, um Balrog, e não o Gollum).



Por fim, o grupo sai da morada dos monstros e encontra um lugar amigo que os recebe na floresta de Lothlórien (bem perto da Floresta das Trevas, onde acontece o "Hobbit"). E depois de atravessarem a floresta (e se separarem) uma parte do grupo chega a um reino de humanos (Rohan) enquanto outra parte para o final da jornada, até a solitária Montanha da Perdição, em Mordor, onde vive o vilão da história, Sauron, que é morto em uma passagem sequer mostrada). Então, o livro e a história poderiam acabar por aí, mas uma surpresa aguarda os leitores nos capítulos finais do livro: o hobbit se vê envolvido em uma guerra por tesouros e territórios, onde raças diferentes se unem (uma passagem, aliás, que se eu ainda não escrevi nada sobre ela no blog, em breve escreverei, e que inclui um vilão sendo morto por um personagem secundário).



"O senhor dos anéis" acaba com Sam, um dos hobbits protagonistas, confortavelmente em casa. E depois ficamos sabendo que muita coisa aconteceu em seu futuro, mas isso não vem ao caso, o que vem ao acaso é que o jogo de luz e sombra, como aponta o ilustrador Alan Lee, é praticamente o mesmo, e da mesma forma, na duas obras. Agora, se isso não basta para convencê-los, meus caros, que tal analisar o fato de Gandalf ficar aparecendo e sumindo ao longo do dois livros? Sim, tanto no "Hobbit" como no "Senhor dos anéis", Gandalf some no início da aventura para procurar informações e enfrentar o vilão(o necromante no "Hobbit" e Saruman no "Senhor dos anéis")) e depois re-aparece em Valfenda, para sumir novamente na saída das Montanhas Solitárias ao enfrentar um vilão (o Necromante no "Hobbit" e o balrog no "Senhor dos anéis"), para, finalmente, ressurgir com força total e com importância decisiva nas batalhas junto ao reino dos homens.



E isso, de alguma forma, tira a magia do "Senhor dos anéis" ou de Tolkien? Não, de forma alguma. Isso é apenas uma porta de interpretação aberta, como a porta de Moria (no "Senhor dos anéis") ou a porta da Montanha Solitária (no "Hobbit"), que ambas estão fechadas, cabe ao intruso sentar na frente e aguardar a resposta ocasional de como abri-la.

11 novembro 2009

Breve, novo site no ar



É com orgulho que anuncio que em breve um novo blog meu estará operando. Um blog voltado só para divulgação de minhas obras literárias. Até lá, é com uma honra maior ainda que anuncio um no site no ar: Pork Comics.

Se você clicar no link http://www.porkcomics.com.br/ você verá um logotipo (muito pesquisado pelos autores e melhor ainda realziado pelo ilustrador) e lembretes de papel anunciando aos autores e aos leitores o que ainda falta ser feito.

E o que é Pork Comics? É um site destinado a divulgar o personagem Pork (atualmente em processo de registro de direitos autorais), seus amigos (incluindo Gal, que se parece muito comigo) e suas histórias (incluindo a primeira, em fase final de produção e em busca de editoras).

Certo, e quem é Pork? Um porco vegetariano, de humor ácido e tiradas sarcásticas, que tem um palpite pessismista e caótico sobre tudo, criado pelo designer gráfico Pedro Brondi, como hobbie. Mas o que era hobbie de charges e cartoons, se tornou uma graphic novel com roteiros meus que envolvem mitologia grega, conflitos no Oriente Médio, epidemias virais e psicologia barata.

Mais do que isso, o que era para ser um projeto divertido se tornou um trabalho sério a ser apresentado como um tese de conclusão de curso, um novo site no ar e, ainda, tirinhas do jornal da minha cidade e entrevistas na televisão.

Para saber mais, leia meu blog com regularidade, visite o Pork Comics e o blog quadrilandia.blogspot.com e ria bastante.

28 outubro 2009

Conto recusado


Nem só de glórias é feito esse blog.

Enquanto não posto como foi o lançamento do "Dimensões.BR" e nem o que achei da antologia especial da Bienal da All Print editora, devo dizer que recentemente mandei um conto fantástico para avaliação e ele foi recusado. O conto em questão é um dos que gosto muito e, obviamente, tentarei incluí-lo em uma outra antologia, mais para frente.

O fato é que agora devo lidar com a frustração e torcer para que tenha melhor sucesso da próxima vez... Claro, já fui recusado antes, como no caso do conto que está em "Dimensões.BR", mas é que esse conto me é muito especial, e criei grandes expectativas sobre ele. Ainda bem que eu sei que ele foi recusado de forma justa. Ou será que era melhor acreditar que foi injustiça?
A boa notícia é que meus dois contos, incluindo "Na manhã seguinte" fora pré-selecionados no oitavo concurso cultura da editora Guemanisse, e concorrem a publicação e prêmio em dinheiro. Ou, uma publicação de consoloção juntos com aqueles que não forem honrosamente ou especialmente mencionados.

21 setembro 2009

Especial na Bienal

Caros amigos e caros leitores, esse ano parece estar com tudo. Pelo menos, até agora, cada texto meu enviado foi publicado. E o mesmo vale para um conto fantástico que enviei para a Editora All Print, tão em cima da hora que o prazo já havia terminado e o volume já parecia fechado. Mas em conversas com o atendimento da editora, consegui que tal conto fizesse parte do livro "Antologia de poesias, contos e crônicas - Especial da XVI Bienal do Livro do Rio", que saiu ontem, no estande da All Print, ao final da tarde, durante o encerramento da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Não pude estar presente, mas minha cota já está em mãos, com obras de autores novatos e veteranos do país todo.

E sobre o que trata tal conto? Bem, o tema da antologia era "livros", portanto, escolhi uma obra minha que trata sobre a escrita de um conto fantástico, tendo como motivador a própria literatura fantástica. Em referências a Jorge Luis Borges, literatura chinesa, literatura árabe e, especialmente, a literatura fantástica japonesa, descrevo processo de escrita do próprio conto, com uma idéia surgindo, literalmente, na minha porta, enquanto estudava sobre o tema. A idéia básica do conto é, portanto, a falta de idéias para um conto e como essa falta de idéias se torna o próprio conto.

Talvez, o fator mais interessante da obra seja o f ato de ele ter marcado um importante evento na minha vida: esse conto é uma volta minha para a escrita. Eu o escrevi há 4 anos atrás, depois de um longo período sem ter escrito nenhum conto e nenhum capítulo, apenas alguns versos livres e brancos, esparsos em páginas de cadernos. É um conto que marca o fim de um período de letras surreais e o início de um desejo e um esforço sincero de me tornar escritor.

Àqueles que o leram, deram-me um retorno positivo e ansioso. E, como não poderia deixar de ser, o nome do conto é "Um conto fantástico"!

18 setembro 2009

Um conto em uma antologia de contos fantásticos brasileiros



Há uma história que minha vó conta, e ela jamais mentiria. Também há uma história que meu avô contava, e ele tinha várias histórias para contar e vários motivos, também, para contá-las. Também há mais duas histórias, todas dentro da mesma família, a família da minha mãe. Nada mais lógico do que uni-las, não é? Afinal, todas essas histórias poderiam estar falando da mesma coisa.

Passei a acreditar que todas essas histórias, na verdade, fossem uma só, como se fossem parte de uma história maior: lobisomens! Figura comum em folclore do mundo todo, mesmo onde não existem lobos (no Brasil, o lobisomem se encontra nos causos caipiras, essencialmente, mas aqui só temos lobos-guará, que não são lobos). O lobo-mau dos contos de fadas e fábulas, os berserkers germânicos e por aí vai, todos são facetas do lobo devorador do sol (segundo uma conhecida e medieval figura alquímica). Tal qual a sereia (que um dia virará outro conto meu), o lobisomem precisava de minhas letras.

Talvez, então, o conto "História de família", não seja a visão que gostaria de passar de lobisomens, mas é a visão que eu tive. A figura do homem lutando contra a natureza, do homem deixando de lado sua racionalidade social e se unindo a natureza... Nada disso há no meu conto. E, por alguma razão, quando a revisora e escritora Helena Gomes estava preparando material para a antologia "Marcas na parede" (da Editora Andross), encontrou meu conto perdido entre tantos outros e sugeriu que ele fizese parte de outra antologia, o "Dimensões.BR" (que conta com participação da prolífica e famosa escritora e roteirista Rosana Rios, bem como um prefácio de um dos melhores autores de ficção científca brasileira, o Roberto de Souza Causo).

O mais curioso de toda a história, mais até do que o conto, é que eu nunca mandei nenhum conto para a antologia "Marcas na parede". Como meu conto foi parar lá, então? Simples, mas fantástico! "História de família" (na verdade, um presente de aniversário apra minha esposa) foi o primeiro conto que mandei apra uma antologia, mandei-o há um ano e meio atrás para uma outra antologia chamada "Caminhos do medo" (organizada pelo editor Edson Rossato, e contando com a participação dos editores Danny Marks e Ricardo Delfin, do "Dias contados").

Na época, meu conto não foi aprovado, mas foi encaminhado para outra antologia. Depois disso, amndei mais dois contos e foram aprovados. Entretanto, agora, no dia 3 de outubro, às 15:00, na Biblioteca Viriato Corrêa, em São Paulo, depois da palestra da Helena e do Roberto, depois da leitura dramática de alguns contos pela atriz Cristian Gimenez, o livro "Dimensões.BR" será lançado, com 55 contos fantásticos passados no Brasil, escritos por brasileiros novatos. E uma capa maravilhosa.

Eu estarei lá, autografando, rindo, tremendo e bebendo. Quem quiser comparecer e adquirir um volume, terá toda a gratidão de minha família. Depois, estarei aqui, relatando o ocorrido.

06 agosto 2009

Evento de lançamento: "Dias contados".


Dia primeiro de agosto desse ano foi um sábado onde se deu início ao mês do cachorro louco e as celebrações pagãs de Lughnassad, de acordo com o calendário do Hemisfério Norte. Mais do que isso, foi o dia que reuniu as pessoas que amo e com quem convivo em um evento importante para mim (o primeiro de muitos). E lá vem outro post biográfico e melodramático...

Aconteceu na Biblioteca Temática de Literatura Fantástica Viriato Correia. O espeaço que leva o nome do escritor infanto-juvenil e jornalista brasileiro de meados do século XX, abriga mais de 43.000 títulos de autores em literatura de fantasia, horror, ficção científica e infantil, além de uma série de eventos envolvendo contações de histórias, exibições de filmes, exposições de arte, palestras e RPGs.

Foi nesse referido lugar e nessa referida data que, a partir das 15:00 deu-se início a cerimônia. Obviamente, devido a minha ansiedade em não desperdiçar tempo, chegamos bem antes na Vila Mariana, em São Paulo, capital. Pude assim ver a pilha de livros que continham meus contos e conhecer pessoalmente (fisicamente, visualmente, sonoramente) um dos organizadores do livro: Danny Marks (a quem já me referi, informando que seu livro, inclusive, é lançado no dia 8 de agosto em Santos).

Feitas as apresentações e retirados meus mamteriais (pasta, crachá, contrato, cópias dos livros, etc...) começou o evento. Primeiro, autores, editores e convidados se reuniram no auditório para assistir uma palestra sobre o fim do mundo (com o especialista em ocultismo, sociedades secretas e história medieval Sérgio Couto), com direito a perguntas sobre a produção do livro. Seguida da palestra, por volta das 16:00, a atriz Cristiana Gimenez fez a leitura dramática de 6 contos do livro (o livro realmente tem alguns contos e alguns autores excelentes, mas ninguém acaba o mundo citando Cthulhu). Acabado esse momento, veio o pior momento...

25 dos 48 autores estavam presentes, e todos foram convocados a subir no palco para serem fotografados e aplaudidos. Foi aí que pensei que talvez eu não queira ser tão famoso: Sessão de fotos me deixou mais envergonhado do que nascer! Depois disso, com aquela multidão de gente se espremendo entre mesas e vinhos, arrumei um tempo e lugar para fumar (quem ler meu conto"Sete minutos" entenderá melhor o porquê de eu ter citado cigarros nesse post e no anterior). Acabado o cigarro, respirei fundo e entrei de volta no salão da biblioteca.

Era hora de achar meus convidados, meu copo e um lugar. Tirei minha caneta do bolso e comecei a dar autógrafos. Autografei livro de parentes, livro de amigos e, claro, livro de autores (e eles autografaram o meu, também). Porém, os autores também tinham seus convidados e alguns desses convidados, por educação, por real interesse ou por esperança no futuro, foram coletar os autógrafos de todos os autores. E foi assim que surgiu uma menina na minha frente, desconhecid até então. Ela me entregou o livro e disse algo relativo a autografar. Perguntei quem ela era e me respondeu com um nome de ninfa grega (verdade!). Então, sorri, abaixei meus olhos e perguntei o que é que eu devia fazer. Ela me disse para autografar para ela. Tremi, mas fiz.

A experiência é ótima, mas é muito estranha. E sabe o que é mais estranho? E que por melhor que tenha sido e por mais que eu tenha gostada, fiquei e saí de lá, o tempo todo, com a sensação de que não podia ser diferente. A ordem natural das coisas em minha vida, o equilíbrio a que busco e a que vim, é esse: ser autor, publicar meus escritos e ainda encontrar tempo e espaço o suficientes para mostrar toda a minha arrogância ao dizer isso.

28 julho 2009

Um bom começo












Aqui no Brasil, dia 12 de junho foi o Dia dos Namorados. Na Islândia, foi o aniversário de dez anos do disco (já clássico) "Ágætis byrjun". A maior revolução musical da terra do gelo, do fogo e do vento depois do Björk (ex-vocalista da também importante Sugarcubes) foi realizada pela banda Sigur Rós, até então pouco conhecida no país e praticamente ignorada pelo mundo.
A banda, que começou em 1994, até então só tinha um lançado um disco (que se chamou "Von", mas essa já uma história prometida para um outro dia). Insatisfeitos com o disco, que vendeu apenas 1000 (ou 2000) cópias. A banda entrou em estúdio para uma segunda tentativa.
Dessa vez, contavam com a ajuda de um novo membro, um velho amigo, e um ex-parceiro da ex-banda do vocalista (Johnny and the beespiders): Kjartan Sveinsson. Conforme já foi dito em um post bem anterior, o barbudo chegou na banda para tocar piano, guiatarra, baixo, flauta e arranjos de corda.
Kjartan, crente de que a banda do amigo Jón poderia ser boa apesar do fracasso de "Von", se juntou aos outros três integrantes e, como um quarteto, escreveram a música que dá título ao álbum. A música fala sobre a satisfação de gravar uma boa música, passear pela cidade e comemorar com os amigos. A música também fala sobre esperança ("Von"), sobre decepção ("Von brigði", álbum de remix das músicas de "Von", lançado um ano após o álbum original) e sobre como a banda pretende fazer tudo melhor da próxima vez, afinal, esse é um bom começo ("Ágætis byrjun"). E, de tão satisfeitos que ficaram com as músicas, resolveram produzir um novo álbum.
Chamaram o produtor e amigo Ken Thomas, contratram um quinteto de instrumentos de sopro (ou de metais), um quarteto de cordas (Amiina, com quem viriam a trabalhar e ocasionalmente se relacionar como amigos e maridos, até os dias de hoje) e se trancaram em um estúdio. Entre as músicas surgidas para esse álbum estão "Svefn-g-englar" (e o famoso refrão "tjúúú"), "Starálfur" (e a belíssima introdução de violinos, viola e cello), "Ný batterí" (com a introdução de contrabaixo e metais e o característico crescendo ao longo da música), "Viðrar vel til loftárása" (com toda a melodia composta em piano e um ápice orquestrado e enlouquecido), "Olsen Olsen" (retomando o idioma vonleska, desenvolvido para a música "Von" do ábum de mesmo nome, lançado 2 anos antes, e para tantas outras músicas antes e depois), "Nyja lagið" (que só foi lançada ao vivo e em um EP), "Hjlómalind" (que se chamava "Rokklagið") e "Í gær" (que se chamava "Lagið í gær").
Todavia, antes que as três últimas músicas ficassem prontas e entrassem no álbum, o baterista Ágúst Ævar Gunnarsson saiu da banda. Não por desentendimentos pessoais ou po desacreditar na banda, mas para se dedicar a família e ao seu emprego. Desejou sorte e sucesso apra banda, abençoou o trabalho e partiu (ele só voltaria a tocar com a banda em uma ocasião, em 2006, quando tocaram "Von" gratuitamente para a cidade de Reykjavík). Perdidos e surpreso, a banda cogitou se separar. Mas, eis que surge um novo baterista por indicação do próprio Ágúst: Orri Pall Dyrason.
Satisfeitos (e impressionados) com o talento de Orri, a banda deu seqüência ao término do disco. Com a idéia de tocar um trecho do refrão de "Ágætis byrjun" ao contrário na abertura do disco (faixa 1, popularmente conhecida como "Intro") e de rodar o arranjo centro de "Starálfur" com a velocidade dividida no encerramento do disco (faixa 10, chamada "Avalon"), o disco mudou sua configuração!
"Ágætis byrjun" saiu da primeira faixa e foi a para a penúltima (nona). Com isso, "Flugufrelsarinn" (quarta faixa, escrita em cima de uma mórbida lembrança da infância de Ágúst) ganhou um novo tom e elaborou uma introdução diferente para "Ný batterí" (que também ganhou letras em islandês ao invés de vonleska). A faixa 6 "Hjartað Hamast (bamm bamm bamm)" também sofreu modificações, embora mais sutis. E, enquanto a "Viðrar vel til loftárása" teve seu apoteótico arranjo sinfônico reduzido drasticamente, a passagem da música "Svefn-g-englar" para "Starálfur" (respectivamente segunda e terceira faixas) foi modificada e elaborada de forma mais complexa.
No todo, o disco ficou mais coeso (é considerado o álbum de sonoridade mais característica do Sigur Rós e é curioso perceber como não existe intervalo silencioso entre uma música e outra). O disco apresentou uma complexidade maior de arranjos ao mesmo tempo que uma simplicidade bela nas composições. Muito disso deve-se aos esforços de Kjartan, ao talento de Orri, ao amadurecimento de Jón e, não podemos nos esquecer, da presença de Georg. Somando-se esses elementos todos com a ambição de modificar o conceito de música para todo o sempre (o Sigur Rós declarava que queria ser lembrado pelas pessoas não como uma banda, mas como música), "Ágætis byrjun" foi lançado em 12 de junho de 1999, na Islândia.
Com tiragem inicial de 2000 cópias (cujos encartes foram colados a mão, o que resultou em manchas em cima das ilustrações feitas a caneta esferográfica pelo Jón), o disco vendeu 10000 cópias na Islândia em um ano (um recorde para época, que só foi superado pelos álbuns seguintes do Sigur Rós, especialmente os dois últimos). No ano seguinte, o disco deixou de figurar apenas no catálogo da gravadora Krúnk e do selo Smekkleysa/Bad Taste e foi parar na Inglaterra através da Fat Cat. De lá, rumou para a Europa continental e depois para o Estados Unidos da América, chegando inclusive ao Brasil, em 2001, pela gravadora Trama (por motivo da vinda da banda para o Free Jazz Festival).
Até 2001, o famoso disco do anjinho ou do feto alienígena (como ficou conhecido por aqueles que não conseguem pronunciar a-GUÉ-tis-BÍR-i-um) vendeu 500 mil cópias no mundo todo. Até o dia de hoje, estima-se um total de mais de 1 milhão de cópias: ou seja, o disco islandês mais vendido da história! Não bastasse isso, em uma enquete realizada em 2000 e em duas enquetes realizadas nesse ano, "Ágætis byrjun" figurou com o primeiro álbum numa lista dos cinquenta ou dos cem melhores álbuns de toda a história da música islandesa (superando o famoso nome de Björk e outros nomes clássicos com Kukl, Sugarcubes, Icecross, Thor's hammer, Trúbrot, Purrkur Pillnikk, Theyr, Didda, Unun, Ham, Lhooq e populares como Magga Stina, Emilian Torrini, Gus Gus, Múm, Bellatrix, Dip, Ólafur Arnalds, etc...). Também é considerado um dos 1001 discos essenciais para se ter e ouvir antes da morte.
Foi graças ao sucesso do EP "Svefn-g-englar" no Reino Unido que a banda passou a figurar entre os queridinhos pelos indie, pelo Grammy e por artistas diversos como Radiohead e Mettalica, Madonna e U2, David Bowie e Natalie Portman. Aliás, tal EP gerou polêmica e fascínio ao originar um video-clipe rodado em câmera lenta mostrando uma companhia de ballet de portadores de Síndrome de Down representando o início e o fim do inverno (a música foi a que dá título ao EP, mas enquanto a própria banda dirigia, eles dançavam uma coreografia ao som de "Strarálfur"); e um outro video-clipe também rodado em câmera lenta pela própria banda, sobre o relacionamento amoroso entre dois garotos ("Viðrar vel til loftárása").
O álbum ainda rendeu um outro single ("Ný batteri") que continha duas músicas tradicionais islandesas que foram executadas a pedido do sacerdote pagão, poeta, bardo, músico eletrônico, ativista new age, vanguardista do heavy metal, cantor erudito Hilmar Órn Hilmarrson (um nome importante na cultura musical e religiosa da Islândia, que na época compunha a trilha sonora do filme "Anjos do universo"). Mas, mais do que isso, "Ágætis byrjun" rendeu ao Sigur Rós convites para trilhas sonoras de filmes holywoodianos ("Vanilla sky", por exemplo), parceirias artísticas (com Radiohead para o "Split sides" da companhia de ballet de New York Mercy Cunnigham), para grandes gravadoras (Sony), para o cinema (no documentário "Heima") e para tantos outro projetos.
O disco na embalagem fina de papelão, foi quem introduziu o Sigur Rós na vida e na lista de músicas de muitos ouvintes pelo mundo. Fenômeno que só retornaria a acontecer em 2005, quando o quarto álbum da banda, “Takk...” (que também circula entre os 50 melhores álbuns islandeses de todos os tempos, ao lado do impronunciável álbum de 2008) iria gerar novos fãs. O que se espera, agora, é que quando a caixa especial de 10 anos de lançamento de "Ágætis byrjun" no exterior saia o ano que vem, contendo materiais inéditos, materiais ao vivo, vídeos, textos e fotos, uma nova leva de público tome contato e gosto com a banda.
Então, enquanto você não recebe o disco de Jón e Alex (o "Riceboy sleeps"), ou enquanto a trilha sonora de "Ondine" não fica pronta (filme dirigido por Neil Jordan, trilha composta por Kjartan) ou enquanto nem o disco solo de Jón e nem o futuro e sombrio e ambient music álbum prometido pelo Sigur Rós e já em andamento não fica pronto, tire a poeira do seu álbum de capa preta com um feto anjo, ainda com cordão umbilical, junta as mãos em prece. Agora, se você leu até aqui e não tem a mínima idéia do que estou falando, este é um bom começo. Pois, como lemos no encarte prateado e curvo de "Ágætis byrjun": “a maior criação de deus, é um novo dia”.

08 julho 2009

Antologia de contos sobre o fim do mundo.

Finalmente, abro espaço para um novo marcador de tópicos discutidos nesse blog: "eu escritor". E, por se tratar de mim mesmo (afinal, como alguém poderia escrever algo que não fosse si mesmo?) e por se tratar de escrita (algo que desenvolvo aqui e algo sobre o qual desenvolvo aqui, também), peço que tenham paciência e se preparem para um texto longo e dramático, como só um texto biográfico poderia ser. Vejam só, até dei uma organizada no layout deste texto para amenizar a pieguice.

Pois bem, eu me lembro do meu último dia de aula no Jardim III (aquele ano escolar que antecedia a primeira série, e que ninguém sabia o que significava ou para que servia). Eu estava extasiante. A partir de então, eu poderia ler qualquer coisa que surgisse na minha frente. Eu já sabia todas as letras, até o o famoso "z". E foi então, como mágica, voltando para casa e pensando no video-game do Mario que iria jogar durante todas as férias antes de dar mais uma passo na minha educação, que meu primeiro grande desejo de vida surgiu: "quero ser um escritor".

E assim foi, quando crescesse, eu gostaria de ser um escritor. Essa deveria ser minha profissão, pois parecia a melhor do mundo (e ainda parece). Mas, esse foi apenas um dos desejos. O outro surgiria em decorrência da leitura. Naquele dezembro de 1989, lendo o "Manual do escoteiro mirim", descobri sobre os castelos e paisagens da Escócia. Nasceu ali o meu segundo grande desejo de vida: "Quero passar um tempo em outro país". Imediatamente, o terceiro e último grande desejo de vida acompanhou a lista: "Quero me casar com o verdadeiro amor para poder passar um tempo em outro país".
O tempo passou, obviamente. Orgulhosamente comprei e li meu primeiro livro ("Menino maluquinho", do Ziraldo) e comecei a escrever minhas primeiras histórias. Todas precariamente ilustradas e sempre sobre personagens de video-game, desenhos animados e contos que lia, afinal, eu tinha entre 7 e 9 anos. Foi só com 10 anos, que escrevi minha primeira história de verdade, como digo. Chamava-se algo como "O dia final do soldado eterno no campo universal" (um título quase do tamanho da história e que ambicionava mostrar algum conteúdo filosófico initeligível). Enfim, tratava-se de um conto sobre um militar aposentado morrendo de câncer devido a radiação da última guerra em que participou. O conto narrava os eventos finais de sua vida, quando este levava sua família para visitar o campo onde se travou a tal batalha, para que ele anunciasse o seu derradeiro e iminente fim.
Minha professora de ciências levou o texto para casa, leu, chocou-se e, no dia seguinte, me devolveu dizendo que não deveria me preocupar em escrever. Principalmente histórias com aquele conteúdo. Ela achava que uma criança feliz deveria brincar. (Curioso como na quinta série minha professora de português, que me odiava, dizia que ela nunca viveria para trabalhar um livro meu com os alunos dela; curioso, também, como no primeiro colegial a psicóloga da escola afirmou que meu problema era que eu lia demais e isso nunca me ajudaria).
Durante aquele resto de ano, não mais escrevi. Só retomei a escrita aos 11 anos, depois de uma série de eventos na minha vida e quando comecei a ler livros de vedade (como sempre digo). Influenciado pelo "Mundo de Sofia", escrevi "Cartas para um palhaço" (que considero minha primeira história séria e bem feita, muito embora hoje eu a ache terrível, simplista e vergonhosa). Depois disso, conheci Edgar Allan Poe e toda a minha vida mudou. Entendi que de fato eu poderia escrever algumas coisas que vinham na cabeça e poderia fazê-las bem feitas. ("Frankenstein", de Mary Shelley, também surtiria um efeito parecido, porém mais amplo, no ano seguinte).
Assim, escrevi contos policiais, contos de horror, contos de mistério, contos de morte e mais contos filosóficos até meus 15 anos, sempre pretendendo um dia publicar meu próprio livro de contos. Mas, algo aconteceu... Com 15 anos, li um livro do qual ouvira falar e ficara curioso desde os 14: "O senhor dos anéis", de J. R. R. Tolkien. Jogador de RPG desde os 11 anos (outra forma de contar histórias, diga-se de passagem), não podia deixar de ler sobre elfos e dragões. Naquele dia primeiro de abril em que comecei a ler, um pensamento me sobreveio: "posso, então, escrever sobre mitos e folclores".

Começaria a escrever minha primeira história longa, casualmente. Chamava-se "A lenda do elfo" e era divido em oito partes, cada uma contendo 15 contos em sequência, todos descrevendo um memsmo personagem. A idéia surgiu sem querer. Primeiro veio um conto, e, de repente, eu tinha escrito um outro conto onde aquele personagem aparecia. Percebi que podia contar toda a sua vida e fui escrevendo tudo fora de ordem para depois organizar linearmente (um procedimento parecido com o que Robert E. Howard fez com Conan). Mas "A lenda do elfo" mudou de nome, mudou de proposta e nunca foi para frente, nem deve ir. O melhor momento que a série teve foi uma longa e bela campanha de RPG!

Ciente de que poderia escrever fantasia, mas não desejava escrever fantasia, era hora de abrir meus olhos para novas letras. Conheci a literatura fantástica de Jorge Luis Borges e de Neil Gaiman. Era aquilo que queria escrever. E foi escevi desde então, embora o período da faculdade de psicologia tenha tido hiatos significativos na minha produção amadora.

E, mais uma vez, como sempre, o tempo passou. Ainda não era um escritor profissional e por tolice e medo, recusei possibilidades de publicar. Mas, então, eu já estava casado. Meu primeiro grande desejo muito bem realizado. E, logo em seguida, graças a minha verdadeiramente amada esposa, eu estava de viagem para o Japão, só a passeio, durante um mês. Um lugar em que eu nunca pensara em visitar e que mostrou o melhor lugar que o mundo poderia conceber (embora me falte conhecer todo o resto do mundo). Outro grande desejo da minha vida estava muito bem realizado. E assim como meus desejos nasceram juntos e entrelaçados, eles iriam se realizar juntos e entrelaçados.

No avião, sozinho, num vôo entre Tokyo e Izumo, vislumbrei o imenso e imponente monte Fuji. Pensei e anotei, ali mesmo, no meu diário: "O que aconeceria se a mulher, cujo corpo é o próprio monte Fuji, um dia resolvesse e se levantar e ir embora?". Até hoje não sei a resposta para essa pergunta e nem para tantas outras que surgiram durante a viagem. Mas, como toda boa pergunta, ela nunca saiu da minha memória. Pelo contrário, despertou várias outras perguntas.

Por exemplo: uma bela tarde, depois de trabalhar o dia todo para ganhar pouco e mal conseguir sustentar minha nova família de esposa e gatas, eu caminhava. Caminhava vendo um pôr do sol laranja e a mais movimentada avenida da minha cidade com centenas de carros e pedestres se expremendo violentamente. Não sei qual era o ruído que a cena produzia pois meu mp3-player estava em meus ouvidos. Tocava a música "Sæglópur" do Sigur Rós, do álbum de 2005 "Takk...". Quando o "Takk..." saiu, minha esposa ainda era minha namorada, e ela estava no Japão, de onde me trouxe minha cópia do tal álbum. Ouvindo a música fiquei me pensando em como nos matávamos para trabalhar e não aproveitávamos anda, em como a vida se tornaria selvagemente louca e todas essas outras crises existênciais típicas. Eu via o pôr do sol e me perguntava como ninguém aprava o que estava fazendo só para agradecer e louvar o sol. Mas, logo em seguida, a música acabou e deu início a "Hoppíppolla", também do Sigur Rós e também do "Takk...". O piano suave e alegre iniciava a melodia eos arranjos de corda. Foi com essa música que me casei. E me casei dentro de um ritual pagão, como não podia deixar de ser. E me casei a beira do Rio Grande, no pequeno vilarejo de Peixoto, onde moram apenas trabalhadores da usina hidroelétrica da região. Lá que passei minha lua de mel. Lá mora um lugar do meu coração desde que conheci. As montanhas, as águas, a paz, o vazio...




Com lágrimas nos olhos, surgiu uma nova pergunta: "o que aconteceria se o Rio Grande se levantasse e fosse embora sem avisar nada e nem ninguém?". Voltei para casa correndo, larguei as compras sobre a mesa, liguei meu computador e respondia essa pergunta. Até hoje, julgo ter sido o melhor conto que escrevi (e, inegavelmente, inspiradíssimo no realismo mágico e nof ormato dos diálogos escritos pelo meu maior influenciador desde o ano passado: José Saramago).

O conto chama-se "Na manhã seguinte" e é o conto que encerra a antologia "Dias contados", lançada pela Editora Andross no dia primeiro de agosto desse mesmo ano, na Biblioteca Temática Virato Corrêa, em São Paulo, a partir das 15 horas. O livro conta com 50 contos, sendo dois meus, um argentino (maravilhoso, diga-se de passagem) e um da escritora fantástica e revisora Helena Gomes (que eliminou todas as minhas características de Saramago para manter o padrão da editora). O livro é editado pelo quadrinista Edson Rossato e é organizado pelo administrador e escritor Danny Marks (cujo primeiro livro, "Universo subterrâneo", sai dia 7 de agosto, em Santos, mas minha cópia dos contos, autografáda, já está a caminho) e pelo crítico de cinema e escritor Ricardo Delfim.

Meu conto, "Na manhã seguinte", foi editado e revisado por Danny Marks (um bom amigo bruxo, hoje em dia). A edição foi feita de forma bem respeitosa, com discussões, sugestões e questionamentos dos lados, mantendo minhas palavras, minhas idéias, mas um pouco da visão mais ampla do Danny, afinal, ele era um dos organizadores. o outro conto, "Sete minutos", está na página 43 do livro. E, por opção minha (e sugestão do Danny), foi editado e revisado pelo Ricardo. Como já tinha um conto aprovado no livro, a ansiedade e pressão sobre mim era menor para que se aprovasse outro conto (embora, obviamente, queria muito sentir, de novo, o coração disparar, as mãos e a voz tremerem, os olhos marejarem e a boca se abrir apenas para inspirar e expirar o momento de ler "seu conto foi aprovado, parabéns"). O trabalho com o Ricardo, portanto, não contaria com nenhum proteção e foif eito de forma bem interessante, uma experiência rica para mim, trabalhar com outro editor/revisor. Nós trabalhamos de forma mais incisiva e prática, por assim dizer, com sugestões mais pontuais e drásticas do Ricardo, o que levou a um resultado final bem interessante.

Então, leitores, leitoras, amigos, amigas, familiares e, especialmente, minha amada, sai agora minha primeira publicação oficial e reconhecida. Não é só minha, mas já é um primeiro passo, não é uma editora de nome grande e pesado, mas é uma editora séria que busca lançar novos autores. Meu último grande desejo de vida se realiza. Agora eu posso morrer? Claro que não. Quero continuar casado, quero viajar mais e quero publicar mais e mais.

Mas, quer saber como surgiu o outro conto, "Sete minutos"? Bem, foi com um pergunta. Eu estava feliz e incrédulo de que um conto fora aprovado apra ser impresso em papel e distribuído pelo país. Era uma quinta-feira. Eu estava jantando com miha esposa e nossa situação financeira e profissional já estavam bem melhores (até começávamos a pensar em um dia visitar a Islândia, outro daqueles lugares perfeitos). ela falava sobre como o trabalho dela, na Secretaria da Saúde, era apocalíptico: epidemias, catástrofes naturais, violência. Ela disse que não estranharia nem um pouco se o celular dela tocasse naquele instante, anunciando uma invasão alienígena ou um ataque zumbi. Foi quando me veio a pergunta: "será que a prefeitura tem algum departamento público de segurança no apocalipse?". No sábado, acendi um cigarro, e respondi essa pergunta.