06 janeiro 2009

Expectativa



O ano acabou e começou. Fiquei quase um mês sem nada publicar, pelas mais diversas razões, mas agora estou de volta e com muito material. Então, dentre o que andei planejando (mais expectativas e visões de futuros), decidi começar pelas expectativas a respeito do Sigur Rós para 2009. Por enquanto, a única coisa que se tem de concreto sobre a banda é que os integrantes estão na Islândia, de férias, desde 25 de novembro do ano que acabou. Eles deram dois shows em Londres (no dia 21 e 22 do mesmo mês) e depois deram um show gratuito na capital islandesa no dia 24. Desde então, descansam com suas famílias e em suas propriedades. Devem estar curtindo o natal islandês (que dura treze dias!) e os ritos invernais.


Então, quais são as expectativas? A primeira delas é que, depois de usar imagens de seus shows nos clipes de "Inní mér syngur vitleysingur" e "Við spilum endalaust", eles retomem os clipes em câmera lenta com historinhas. Para isso, os boatos afirmam que além de capturar imagens, desenhar storyboards e escrever roteiros junto com algum diretor, os caras estão em estúdio compondo e recuperando material de sobre de estúdio para usar em algum novo single para o álbum "Með suð í eyrum við spilum endalaust". E as possíveis faixas candidatas para um single circulam entre calma acústica de "Góðan daginn", a famosa "Festival", a pouco épica pouco provável de aparecer em shows "Ára bátur" e triste "Illgresi". Vamos aguardar. Sobre quais músicas estariam no lado b do single, ninguém tem conhecimento. Talvez sejam algumas músicas que surgiram na época do "Takk..." ou "Hvarf-heim".


Claro, nada disso é confirmado, ainda. Talvez, ainda coisa que está próxima de sair é um DVD contendo imagens dos dois shows em Londres realizados ao final de novembro e devidamente citados no início desse tópico. O diretor desse DVD será Vicent Morisset, que já trabalho com vídeos interativos para o Arcade Fire (outra banda que se você não conhece, deveria). E ele prometeu um trabalho bem diferente daquele visto no documentário "Heima", que acompanhava uma turnê do Sigur Rós pela Islândia, dirigido pelo veterano Dean Deblois, e premiado e cultuado em todos os países que puderam assistir alguma exibição. Por aqui, só em cópias importadas (isso é, se o seu aparelho de DVD rodar discos importados).


Sobre o "Hvarf-Heim" e o "Heima", acima citados, volto em um instante, enquanto falo sobre expectativas... O Sigur Rós parece ter uma habilidade fora do comum em criar expectativas e cumprí-las de de uma forma não correspondente às expectativas. Tudo começou com os atrasos na produção "Ágætis byrjun" ou com os anunciados atrasos para a data de lançamento de seu posterior "( )". Pelo menos, eram atrasos avisados com um bom tempo de antecedência e em tempos onde a expectativa sobre a banda era um pouco menor (está certo, "( )" foi muito aguardo na época, a ansiedade pelo novo trabalho da banda só crescia). Mas, depois de ver "Takk..." ter seu lançamente misteriosamente adiado por meses, percebi que havia ali um padrão na banda. Talvez pelo perfeccionismo do pianista Kjarri, talvez pelo perfeccionismo do produtor Ken Thomas, talvez pelo perfeccionista do vocalista Jónsi, talvez pela complexidade dos arranjos do quarteto Amiina, talvez por preguiça, talvez por descaso, talvez por costume islandês, talvez por insatisfação com a qualidade de alguns materiais de trabalho, o fato é que o Sigur Rós sempre atrasa o lançamento de seus trabalhos!


Quando eles anunciam uma data, essa data dificilmente será cumprida. Sequer o atraso será para uma data próxima. Lembram-se do lançamento do single de "Hoppíppolla"? Atrasou. E o single de "Sæglópur", então? Quase um ano, talvez, de atraso. Mas, as coisas começaram a ficar curiosas na primeira metade do ano de 2007, quando um anúncio no site oficial da banda dizia que a banda iria relançar a trilha sonora de "Hlemmur" junto com o DVD do filme e um livro de imagens e informações, iria lançar um single para a novíssima versão para ancestral música "Von" (de seu primeiro álbum, também chamao de "Von"), iria lançar um ep com versões ao vivo e acústicas de alguns sucessos seus acompanhada de um DVD e ainda iria lançar, finalmente, um CD e um DVD com o aguardadíssimo "Odin's raven magic". E como foi que tudo ocorreu?


"Hlemmur" saiu do jeito que eles falaram, só com algumas semanas de atrasos. O single de "Von" virou um EP chamado "Hvarf" que saiu junto com o EP "Heim" com músicas acústicas e ao vivo, com meses de atraso, seguido pelo fantástico filme "Heima", que teve alguns dias de atraso. Além disso, a metade "Hvarf" continha a inesperada nova versão de "Hafsól" (que aparecia no primeiro álbum como "Hafssól"). Ótimo. Depois disso, cumpriram com os prasos e lançaram um novo e impronunciável álbum em meados de 2008 (muito embora a edição de luxo tenha sofrido um atraso de quase dois meses, e as músicas não soaram exatamente como eles anunciavam: um retorno aos primórdios da banda, mais sombrio, com ênfase na bateria e nas orquestrações, entretanto, de fato, mais acústico). E, do que estou reclamando? O que está faltando? "Odin's raven magic", provavelmente a melhor coisa que já ouvi na vida!


Essa obra foi composta em 2001 e foi apresentada em 2002 em Londres, Paris, Copenhagem e Reykjavík. A versão de Paris foi filmada e seu áudio pode ser encontrado na rede para download gratuito e ilegal (mas, por enquanto, é única forma de ouvir essa obra). Entre 2006 e 2007, a banda se reuniu com os outros integrantes do projeto (o quarteto Amiina, uma pequena orquestra, um coral, o autor da peça e o bardopescador Steindór Andersen, com quem haviam trabalhado em raro EP chamado "Rímur") em um estúdio para passar o som de novo e apresentar um álbum com qualidade perfeita, acompanhada de imagens de bastidores e apresentações. Até agora, depois de abandonar qualquer rumor, só se sabe que o álbum está em mixagem e pode ser lançado até dezembro de 2009, com a possibilidade de acompanhar algum DVD.


E do que se trata Ödin's raven magic"? Trata-se de uma opera clássica e erudita composta pelo alto sacerdote da antiga religião pagã dos povos nórdicos Hilmar Örn Hilmarsson, que também é poeta, historiador e tem experiência em bandas de heavy metal, punk, gótico, música eletrônica, techno, rock progressivo, pop e trilhas sonoras (para a "Lenda de Grendel", inclusive, onde foi consultor e atuou em umas cenas de funeral e batismo realizadas em seu país). Além da sonoridade rock do Sigur Rós e da presença de música acústica de câmara dos outros integrantes do projeto, "Odin's raven magic" conta com um xilofone gigante (tocado por três pessoas ao memso tempo) feito de pedras calcárias encontradas nas regiões vulcânicas. O fabricante e seu produto podem ser visto em uma curta cena do "heim", mostrando como aquele deve ser o instrumento de som mais bonito no planeta.


O texto que permeia os sete capítulos e 64 minutos da obra provém do poema "Hrafnagaldur Óðins", presente na coletânea de contos islandeses "Edda", de Snorri Sturlusson, escrita no século XIII depois da coleta da tradição oral junto aos camponeses. No século XIX a autenticidade desse poema em especial foi contestada com o argumento de que ele, na verdade, datava do século XV, um período fundamentalmente cristão e que abominava qualquer resquício de paganismo. Mas, na década de 60, um professor de literatura, historia e mitologia da Islândia (cujo nome eu não me recordo) conseguiu reinserir o poema nas novas edições do "Edda". E, afinal de contas, sobre o que se trata? Trata sobre um banquete organizado pelo deus asgardiano Odin para todos os outros deuses e guerreiros, mas o clima de festa acaba quando os dois corvos de Odin chegam: Hugim e Munim ("memória"e "pensamento", respectivamente). Eles chegam para anunciar que não motivo apra festejar, pois tudo o que se conhece está prestes a ser destruído. Agourentos, anunciam o famoso episódio do Ragnarök, o crepúsculo do deuses, quando Asgard, Odin e muitos outros cairão sob as mãos de gigantes de gelo e fogo, serpentes gigantes e traições do deus Loki.


Então, meus caros, finalizo anunciando que as expectativas são essas todas, por enquanto, e que pelo visto estamos perdendo muita coisa boa nos últimos tempos. E, se os corvos estiverem certos, não teremos muito tempo...

08 dezembro 2008

"Unfinished", "unpublished" e "unedited"






Quando "Os filhos de Húrin" saiu, em abril de 2007, houve muito furor por parte dos fãs de Tolkien. Enquanto alguns torciam o nariz alegando que aquele era mais um caça-níquel por parte de Christopher Tolkien, quase todos ficaram muito felizes por ter a oportunidade de ler um trabalho 'novo' de seu autor favorito. O argumento contra era que Christopher já havia sugado tudo o que podia do espólio do pai e não sabia mais o que inventar para arrecadar mais dinheiro dos fãss da Terra-Média e suas histórias. Ele já havia publicado os "Contos inacabados" (com trabalhos que Tolkien deixou por concluir, como o próprio nome indica) e as "History of Middle Earth" (ou "HoME"), uma série de 12 volumes com rascunhos e projetos abortados para os contos e livros da Terra-Média. Isso sem falar no próprio "Silmarillion", que foi concluído às pressas por Christopher e o amigo Guy Kay.



Enquanto no "Silmarillion", ficou claro que alguns materiais ficaram de fora por não estarem devidamente organizados e outros materiais foram rearranjados para ficarem coesos com o livro todo, os "Contos Inacabados de Númenor e da Terra-Média" mostraram a criação de Tolkien no estágio em que ficou parado, ou nas formas em que evoluiu. Isso foi fantástico pois, além de termos acesso a várias informações importantes a cerca da Terra-Média, também podíamos compreender como Tolkien trabalhava. E foi nesse livro que encontramos, logo no início, a "Narn i Hîn Húrin" (a "narrativa dos filhos de Húrin"). Vestígios de uma história que poderia ter sido muito mais longa e elaborada do que o capítulo "Túrin Turambar" que está na versão do "Silmarillion" publicado.



Ao longo de vários capítulos nos mais diferentes estágios de composição, conhecemos a história de como o humano Húrin é preso por Morgoth, inimigo dos elfos e do valar, e de como cresce e se aventura Túrin, seu filho, em uma vida cheia de desgraças que envolve furtos, assassinatos, maldições, incesto e uma violenta luta contra Glaurung, o primeiro dragão. Essa história estava quase pronta, Christopher mesmo afirma isso para justificar a ausência de alguns capítulos que, na verdaed, já estavam integrando o "Silmarillion". Dessa forma, quando "Os filhos de Húrin" foi anunciado e chegou as livrarias, o que encontramos não foi uma história inédita, mas toda a narrativa dos "Contos inacabados", mais alguns capítulos do "Silmarillion" e passagens das "HoME", organizada de forma coerente e contínua, como o livro que, de fato, poderia ter sido (e quase foi).



A emoção de ler a única história longa da Primeira Era se misturou com a emoção de ler um bom livro. O fascínio que esta mistura gerou, também gerou a pergunta: ainda veremos trabalhos 'inéditos' de Tolkien? A resposta seria, só Christopher sabe. Mas, podemos ter uma idéia do que não foi acabado, publicado ou editado... Por exemplo, desde quando Tolkien começou a criar sua mitologia para a Inglaterar (na época em que o "Silmarillion" se chamaria "Book of lost tales", na década de 1920), ele já afirmava que por toda a história da criação do mundo e da guerra das jóias entre elfos e orcs, haviam três importantes histórias a serem contadas. Três grandes contos daquele Primeira Era. Os contos eram: "Beren e Lúthien", "Filhos de Húrin" e "Queda de Gondolin".



Sobre "Os filhos de Húrin", sabemos que durante grande parte de sua vida ele desenvolveu a narrativa e que Christopher a compilou e organizou durante os últimos 30 anos. Isso tudo foi registrado emc artas, introduções de volumes publicados e entrevistas. Agora, e sobre os outros dois contos? "Beren e Lúthien" começou como um gigantesco poema que nunca foi terminado e que chegou a metade de seu tamanho, apenas. Porém, existem versões desse conto para o "Book of lost tales" (da década de 20), para o "Qenta Noldorinwa" (da década de 30), para o "Quenta Silmarillion" (da década de 60) e finalmente o "Silmarillion" (publicado em 1977), sem contar um outro poema publicado no "Senhor dos anéis". Portanto, considero que um estudo de todas essa versões, mais acréscimos de outros capítulos e passagens de Tolkien sobre aquele período histórico e geográfico, poderiam dar origem à um belo e longo conto a cerca do amor entre o humano Beren e a princesa elfa Lúthien, que juntos conseguem recuperar uma silmaril da coroa de Morgoth.



Claro que só esse conto não ocuparia tamanho suficiente para um livro, portanto, poderíamos acrescentar a "Queda de Gondolin" a esse projeto editorial. Talvez esse seja o conto que mais possua versões e que mais foi trabalhado por Tolkien. Além de ter sido escrito em diversos poemas (alguns ainda inéditos), ele também encontra versões em todas aquelas quatro tentativas de "Silmarillion" citadas acima, bem como versões contadas por diferentes pontos de vista e vários textos paralelos a esse evento, mas com profunda relação (tanto antes quanto depois da descoberta e destruição da cidade fortificada e escondida). Acrescenta-se a isso o conto inacabado "Da chegada de Tuor a Gondolin" (que entre os vários estágios de evolução, trata em detalhes sobre a queda da cidade) e pronto, teríamos um conto quase tão extenso quanto "Os filhos de Húrin". Claro, que Chritopher teria um grande trabalho para organizar e editar o texto de forma coerente e verossímil, mas não seria um trabalho impossível, com tantas referências e textos de apoio, já conhecidos pelos fãs.



Então, se temos dois grandes contos da Primeira Era juntos em um mesmo volume, por que não acrescentar o terceiro? Não, não estou me referindo a publicar "Os filhos de Húrin" mais uma vez, mas em acrescentar o conto "Wanderings of Húrin" (presente no volume XI das "HoME, "Morgoth's ring"), no qual Húrin é liberto doc aiveiro e vaga sem destino pelo mundo, até saber das tragédias de seu filho e sua filha, onde parte para se vingar o mal feito a eles. Embora esse seja o conto menos trabalhado e revisto por Tolkien, é um dos mais detalhados a cerca da Primeira Era. Se mais uma vez acrescentarmos passagens de outras fontes, teríamos aí mais um magnífico conto para integrar o volume.



Assim, já que não custa sonhar, meu livro dos sonhos receberia o pequeno título de "Livro dos três grandes contos perdidos da primeira era, ( ou: que não foram acabados, publicados e editados até os dias de hoje)" e poderia ser lençado a tempo de conseguir laçar o público que está se preparando para assistir o "Hobbit" no cinema. Ah, e como apêndice, poderíamos ter anexados os textos e frases de Tolkien que foram encontrados depois do término das "HoME" (como por exemplo o artigo sobre o poder subconsciente ou telepático dos elfos, ou a frase em que se afirma que elfos podem ter barba, o que justificaria a aparência de Círdan). Então, alguém se habilita a escrever essa idéia para a Tolkien enterprises ou para o próprio Christopher Tolkien? Contem com minha assinatura!

02 dezembro 2008

Susana e representação da liberdade sexual


Mais uma vez aqui, volto a argumentar qualquer coisa sobre Nárnia. Deve ser para encerrar alguma trilogia sobre o assunto, ou para fechar um ciclo a respeito desse meu súbito re-interesse no mundo de Nárnia. Sou fã da série desde 1999, quando li "A cadeira de prata"(é, li fora de ordem). De lá para cá, misteriosamente, cada vez mais a série de livros despertou meu interesse. Eu a conheci somo um consolo para apaixonados por Tolkien (nesse sentido me frustrei, pois uma série quase nada tem algo em haver com a outra), mas cativado pela escrita simples e personagens caricatos em um mundo paralelo e cristão. Parece hilário, mas esses elementos geralmente eu repugno. Mesmo assim, insisti e lutei contra meus temores, sendo afinal cativado por animais falantes.

Mas, o preconceito com Nárnia não foi só meu. Ao longo de todos esses anos (mais de meio século), a obra de C. S. Lewis foi acusada de racismo, machismo, intolerância religiosa e demais discriminações. Uma das principais delas é a questão da sexualidade. Tal teor, praticamente, é inexistente na obra (apesar da presença de faunos, ninfas e do próprio deus Baco) e parece ser rechaçado, de alguma forma sutil. A principal vítima disso tudo é Suzana Pevensie, a mais velha das irmãs e irmãos Pevensie (aquelas quatro crianças que visitam Nárnia no primeiro livro publicado da série, "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", mais tarde, elas são citadas no "Cavalo e seu menino", mas retornam em "Príncipe Caspian).

No último volume a ser publicado e, concomitantemente, o último volume da cronologia (apesar de ter sido o penúltimo livro da série a ser escrito), vemos toda a destruição de Nárnia por meteoros, serpentes gigantes, pragas e guerras. Após todo esse caos, vemos que vários habitantes de Nárnia, incuindo as crianças da Terra, são levadas por Aslam até seu reino, a verdadeira Nárnia. Claro que, obviamente, se trata do paraíso destinado àqueles que estão com cristo até os dias do juízo final. E, mesmo que nem todas as crianças estivessem lá, elas ainda assim chegam até a verdadeira Nárnia (sim, elas morrem em um acidente de trem e renascem para a vida eterna).

Então, ficamos sabendo que todos aqueles humanos terráqueos filhos de Adão e filhas de Eva que já estiveram em Nárnia, tiveram uma segunda e última chance de voltar para lá, mesmo que o prazo para isso já tivesse sido expirado (como é o caso do Pedro Pevensie, que já estivera em Nárnia antes de crescer, e de Lúcia Pevensie, que já estivera em Nárnia três vezes). Curiosamente, ninguém menciona que o tio André Ketterley também já fora para Nárnia e que, por alguma razão, ele não retornara para lá. A razão pode ser simples, dentre duas possibilidades: C. S. Lewis se esqueceu do detalhe que incluíra esse personagem em Nárnia no volume "O sobrinho do mago" que conta a história de Nárnia mas foi escrito após a última batalha, ou C. S. Lewis não quis valorizar o maligno personagem do feiticeiro que desperta Jadis e abre portais entre mundos através de um 'achado' anel atlante.

Partindo da segunda suposição, devemos interpretar que os maus não heradarão a terra de Nárnia, certo? Algo bem cristão, por assim dizer. Pois bem, acontece que Susana Pevensie também não é levada a Nárnia verdadeira. Ok, tudo bem, ela não morre e continua vivendo em Londres, mas é dito que ela cresceu, virou mulher adulta, se dedicou ao trabalho e a vida social, esquecendo-se de Nárnia como se sua viagem e seu reinado fossem apenas uma brincadeira confusa de sua criança. Agora, vamos refletir sobre isso... Susana foi duas vezes à Nárnia, foi rainha durante anos, conheceu o Papai Noel, conheceu Aslam, participou de guerras mesmo se recusando a matar alguém com o arco e as flechas que ganhara, possuía uma trombeta que foi responsável pela salvação de Nárnia na Guerra da Libertação ao lado de Caspian X contra seu tio Miraz. Como ela poderia ter se esquecido? E mesmo que ela tivesse se esquecido, como Aslam poderia ter se esquecido dela?

A solução que encontrei é triste, mas é possível. Susana foi a única a mostrar alguma paixão, um princípio de sentimento que envolve afeto, admiração e erotização. Fica claro e ao mesmo subentendido que ela nutriu algum interesse por Caspian, durante sua última visita à Nárnia. Ao que, logo após, nunca mais voltou para Nárnia. Susana estava crescendo em Nárnia, na verdade, aprendeu muito lá, passou por ritos de passagens muito simbólicos e importantes, para só depois retornar para a Terra com força o suficiente para se tornar mulher. Para quem leu meus posts anteriores, deve se lembrar que citei que achava que Susana faria diferença na "Última batalha", isso por quê acredito que Jadis reflete os mistérios de Susana e de todas as mulheres. A feiticeira branca, a feiticeira verde, a rainha das neves, a habitantae solitária da pétre Charn, é que revela os processos da terra e da noite. Processos esses que só conseguem ser representados por uma mulher.

Assim como Jadis, ao longo de todas as crônicas em Nárnia, mostrou questões de amadurecimento e de papéis sociais e fisiológicos que uma mulher desempenha ao longo de sua vida, também Susana vivencia e revela essa experiência de tornar-se mulher e abandonar um lado mais próximo das donzelas. Penso, portanto, que o que afastou Susana de voltar para a verdaeira Nárnia, sem pecado e sem passado, foi o fato de que Susana por si só abandonaria Aslam e aproximaria do culto a Jadis (culto esse que ela presenciou junto ao príncipe Caspian, deve-se dizer). E, se em um primeiro post falei sobre a religião (que funde mito e humanidade), pude falar sobre o mito no segundo post para culminar com a humanidade nesse terceiro post. A humanidade de Susana Pevensie, a personagem mais humana de Nárnia e uma excelente mulher de verdade, que não precisaria de Nárnia alguma para ser quem deve ter sido.

Inklings: da Terra-média para o espaço


Tolkien conheceu Jack em 11 de maio de 1926 em uma reunião da faculdade. Jack fora recém aceito na cadeira estudos lingüísticos da mesma. A amizade dos dois foi instantânea e, enquanto durou, foi forte. Tolkien influenciou Jack a conhecer a fé (conforme relata no poema “Mythopoeia”), a escrever livros de fantasia para crianças e a participar dos Inklings, uma sociedade de contistas, romancistas e poetas que, além de discutir suas obras ou obras importantes da literatura anglo-saxônica, eram bons amigos e confidentes, gostando de passar as noites de quarta-feira juntos, fumando cachimbo no Balliol College.
Tolkien já tivera outros grupos de estudo e apreciação de produções literárias (como o ‘koalbitters’, ‘mordedores de carvão’ em islandês, numa referência aos mineiros que passam as noites de frio junto ao fogo, contando histórias; ou a T.C.B.S.), mas nenhum grupo foi tão ilustre quanto os Inklings. Além de Tolkien e Jack, também participava desse grupo o fiel amigo de longa data de Tolkien: W. H. Auden, famoso poeta, importante crítico, influente editor e excelente autor.
Jack costumava chamar Tolkien de ‘Tollers’ (apelido que o acompanhava desde criança) e a proximidade entre os dois foi tão grande, que Jack foi um dos primeiros a apreciar a “Lay of Beren and Lúthien” e tantos outros aspectos do mundo que rondava as lendas sobre os elfos, as silmarils e os próprios Beren e Lúthien. Assim, em 1930, com os humores elevados por conta de vinho, Tolkien (ou Tollers) e Jack combinaram que cada um escreveria uma história de ficção científica que remontasse à descoberta do Mito. Tolkien (ou Tollers) escreveria sobre uma viagem no tempo, e Jack escreveria sobre uma viagem pelo espaço.
A história de Tolkien chamava-se “The lost Road” e nunca passou do terceiro capítulo (conforme se vê no quinto volume das HoME, chamado precisamente de “Lost Road and others tales”). O livro mostraria como o professor de línguas Alboin e seu filho, desenvolveriam sua relação até então tão distante, enquanto voltavam no tempo através de sonhos para desvendar um mistério que encontrara em sua biblioteca: uma estrada perdida que segue reta para fora do mundo até encontrar Atlântida, prestes a cair. Atlântida, na verdade, se chamava Númenor (alguém reconhece esse nome de algum lugar?).
Mais uma vez Tolkien impunha sua própria mitologia em obras que não se tratava da Terra-Média. Claro que devemos levar em conta que “O hobbit” e consequentemente “O senhor dos anéis” ainda não tinham nem sinais de existência, mas, ainda assim, elementos como elfos, Morgoth, Sauron, Valinor se faziam presentes durante os tempos de guerra que culminariam na destruição de Númenor por ondas gigantes enviadas pelos valar.
Sim, era um romance dos tempos do “Akallabêth”, o conto publicado no “Silmarillion” e citado no “Senhor dos anéis” a respeito da queda de Númenor ao final da segunda era. E este mesmo tema recorreu numa outra história inacabada (e publicada na nona HoME, “Sauron defetead”) chamada de “Notion club papers”, iniciada em 1945 sobre um grupo semelhante aos Inklings, próximo do final do século XX, que de alguma forma conseguem pistas sobre a corrupção dos homens e a queda Númenor durante tempos de guerra. Parte dessa segunda narrativa foi publicada em forma de versos sob o título de “Imram”, na “Time & Tide” em 1955, baseado nas lendas irlandesas de São Brandão, que chegou até um paraíso nos distantes mares do ocidente.
Jack, por sua vez, escreveu, terminou e publicou um livro sobre Elwin Ransom, que é levado até Marte no livro “Out of the silent planet”. Mais ainda, Jack escreveu uma continuação chamada “Perelandra” (sobre uma viagem do mesmo herói até Júpiter) cuja qual Tolkien (ou Tollers) gostou ainda mais do que da primeira. Entretanto, Tolkien abominou a terceira e última parte do que ficou conhecida como “trilogia espacial” (há anos no prelo de uma editora evangélica), chamada de “That hideous strength”, que culmina em uma viagem até Vênus.
O que é mais interessante nessa série de livros de ficção científica (os primeiros livros de Jack) foi que Tolkien (ou Tollers) encontrou alguns ecos de sua obra na obra do amigo (isso muito antes da amizade dos dois se romper devido a, possivelmente, inveja por parte de Tolkien para com o sucesso do amigo). O mito descoberto nas histórias de Jack era o mito de Adão, Eva e a ascenção e pecado da humanidade. Para tanto, referia-se a um paraíso nomeado como Numinor, onde um casal chamado Tor e Tinidril (Tuor e Idril, humano e elfa na “Queda de Gondlin”?) recebiam a visita de Elwin (variação lingüística e snonora de Aelfwine, “amigo dos elfos” e personagem central do então “Book of lost tales” a primeira versão escrita do “Silmarillion”).
Antes de concluir, é importante frisar que “Jack” era o apelido dado a Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis, que quando escreveu o sexto volume das “Crônicas de Nárnia” em 1955, conhecido como “O sobrinho do mago” referiu-se a anéis vindo de Atlântida. Mais uma mera coincidência ecoando em sua obra ou mais mito revelado na história dos Inklings?

Tom Bombadil e o Homem-da-Lua


Muitas são as lendas, mitos e contos folclóricos a respeito da Lua. Só na Inlaterra, encontramos um fazendeiro que vive por lá, um cavaleiro matando um dragão e muitas outras. Tolkien, que tanto queria recriar a mitologia britânica, não deixou escapar a oportunidade e, por essa mesma razão, trouxe o homem da lua para seus contos. Não exatamente um homem... Tilion era um maia, um servo angelical dos valar. Era Tilion quem ocupava a vaga de timoneiro da embarcação ou da carruagem da Lua, sempre seguindo Árien, a navegadora do Sol. Tilion, apaixonado por Arien, seguia um curso instável quando renascia no leste depois de passar por baixo da terra, mas isso não vem ao caso.


Arien não só ocupava o brilho das antigas lâmpadas ou das árvores que foram destruídas por Melkor, no início dos tempos, antes dos homens nascere. Arien também foi a motivação para que um personagem folclórico surgisse na obra de Tolkein. Em toda a obra, literalmente. O Homem-da-Lua é um personagem recorrente que pertence a universo algum. Tanto habita a Terra-média como outras histórias sobre o nosso mundo, conforme veremos.


A primeira referência pode ser encontrada no "Senhor dos anéis", quando os hobbits cantam sobre ele no Pônei Saltitante, aquela estalagem em Bri. Aquelas mesmas canções, podems er encontradas no livro "As aventuras de Tom Bombadil". Lá, em dois poemas ambos atribuídos a Bilbo, ficamos sabendo como o Homem-da-Lua veste prata e de prata é sua barba e seu cabelo. De prata é a chava que abre as portas de marfim que leva até a escada que desce ora sobre um monte, ora sobre o mar. E o Homem-da-Lua, adornado com pedras preciosas sente falta de cores e de comida, mas costuma mesmo é descer cedo para beber da melhor cerveja, mas nunca no Yule (o natal, para quem ainda não sabe), pois ninguém lhe abre protas no frio. Sabe-se, também, que às vezes bebe demais e tem acordar muito cedo, de ressaca, apra voltar para Lua antes do dia nascer (o que uma vez acabou por deixar que uma vaca chegasse até a Lua).



Uma história tão hilária assim, não poderia ficar restrita a um livro adulto, como "O senhor dos anéis", portanto, não é de se espantar que o encontremos em "Roverandom", aquele livro que Tolkien escreveu apra seu filho Michael, quando este perdeu seu cachorro de brinquedo. O livro conta como um cachorro é transformado em brinquedo e acaba por viver grandes aventuras no fundo do amr e até na Lua, onde mora um dragão e um feiticeiro (que tem algo de Gandalf, assim como os outros feiticeiros da história). Mas, o mais curioso é que entre espinheiros e aranhas (em citações a Shakespeare e alguns contos de fadas), o cão Rover encontra um outro Rover (um cão-da-Lua) e o próprio Homem-da-Lua, que o ajuda a descer para o mar (uma vez que há um caminho que liga o mar até a Lua). E, se não bastasse isso, entre outras coisas, sabe-se como foguetes de festa escureceram a Lua e permitiram um eclipse (fato que, de fato, ocorreu enquanto Tolkien escrevia a história).


Qual a importância dese eclipse? Bem, nas "Letters from Father Christmas", o Homem-da-Lua desce para Terra por conta de uns foguetes que escureceram a Lua e permitiram o eclipse. Esse livro, na verdade, se trata de uma compilação de cartas que Tolkien escreveu para seus filhos por mais de vinte anos, como se fossem de autoria do Papai Noel. Um livro sensível e divertido, com várias histórias e ilustrações, que tem como personagens principais o Papai Noel, Polka um urso polar, orcs malignos e um elfo ajudante do Papai Noel chamado Ilbereth. Um nome muito semelhante a Elberteh, não é mesmo? Elbereth foi um dos nomes dado a Varda, uma vala cujo título significa "Rainha das estrelas".


E entre tantas referências que Tolkien fazia a Terra-Média em suas obras infantis, somos levados a esbarrar em poemas e brinquedos. Dessa forma, fica claro que o final dessa jornada seria Tom Bombadil, talvez o personagem mais enigmático do "Senhor dos anéis". Durante três apítulos do livro (que o próprio autor descreveu como fora do clima e da própria história), travamos contato com esse personagem brincalhão e alienado, que parece só querer cantar e conlher nenúfares para sua esposa (a também enigmáica Fruta D'ouro). Tranjando botas amrelas, jaqueta azul e um chapéu de abas largas com uma pena de ganso (vestimenta quase idêntica ao mago da areia Psmathos Psmathides, do "Rovernadom"), tudo o que ficamos sabendo sobre Tom Bombadil é que ele não é nem humano e tão pouco um hobbit. Pertence a raça alguma é o senhor da Floresta Velha. Por alguma razão, a guerra do Anel não o interessa e sequer Sauron ou o Anel surtem algum efeito mínimo sobre ele. Tom Bombadil está na Terra-Média desde o início e provavelmente será o último morrer, sendo, portanto, o mais velho (como o chamam os elfos).



Curioso por mais informações no intuito de descobrir quem, afinal, é Tom Bombadil, qualquer leitor pode procurar "As aventuras de Tom Bombadil". Entretanto, as divertidas poesias que se encontram lá, nada ou quase nada acrescentam para resolver o mistério. Na verdade, só ficamos mais curioso a respeito desse personagem que desafia os (possíveis) huorns que vivem em suas terras, bem como as aparições de príncipes Cardolans mortos e traidores, enterrados na COlina dos Túmulos, tão perto da Floresta Velha. Sabemos também como ele se encantou imediatamente pela Fruta D'Ouro e fez de tudo para consquistá-la e lhe dar um linda cerimonial e vida de casamento. E os dois parecem ser felizes juntos, principalmente quando sozinhos. Muito embora, Tom Bombadil, que canta sobre si mesmo, faça visitas a alguns amigos animais e ao fazendeiro Maggot (aquele mesmo que cria cogumelos e que perseguia Frodo quando criança). A dúvida a mais que surge é: o Rio é um homem ou uma mulher? Não fica claro em nenhum momento, mas muita coisa aponta as duas possibilidades. Sobre annimais falantes, isso pode ser visto no "Hobbit" e no próprio "Senhor dos anéis".



Então, como resolver Tom Bombadil? Tolkien já disse que ele não é um valar ou o próprio criador Eru Iluvatar. Ninguém mais ousa considerar a hipóteses metafísica de Tom Bombadil fosse o próprio Tolkien. Então, só nos resta fazer um resgat de como o personagem foi criado. E, mais uma vez, um brinquedo do filho Michael entra na história. Era um boneco holandês com uma pena no chapéu. Certa vez, o filho mais velho de Tolkien, John, por não gostar desse boneco, jogou-a na privada. mas, Tom Bombadil conseguiu ser salvo e se tornou o herói de uma história que iria encantar toda a família. A história se passava nos dias do Rei Bonhedig (que ninguém tem a menor idéia de quem seja) e... bem, a história acabava aí. Depos disso, Tom Bombadil virou o personagem de um poema ("As aventuras de Tom Bombadil") em 1932, anos antes de Tolkien pensar em escrever sobre hobbits ou anéis mágicos.



Entretanto, sem nenhum elemento da sua Terra-Média ou do seu "Silmarillion", Tolkien ofereceu os poemas e aventuras de Tom Bombadil (que iriam muito mais longe do que foi) como uma possível continuação para o "Hobbit", mas os editores não ficaram entusiasmados. Tolkien compreendia, assumindo que Tom Bombadil, na verdade, representava o espírito da região campestre de Oxford e Berkshire, que já haviam chego a sua ascensão e agora minguavam. De qualquer forma, aqui vemos, mais uma vez, como de fato Tom Bombadil era o senhor de um lugar e de um tempo, sendo o próprio lugar e o o próprio tempo, na verdade. Assim, Tom Bombadil é a Floresta Velha (enquanto Fruta D'Ouro é o rio Voltavime que cruza a floresta, da mesma forma que Caradhras, aquela montanha ranzinza que ataca a Sociedade do Anel).



Portanto, assim como Tolkien inseriu diversos elementos de sua mitologia particular nas suas obras paralelas (conforme apontei no tópico sobre o "Hobbit"), parece que ele também aproveitou e inseriu elementos d eoutras obras suas naquelas relativas a sua mitologia (conforme também se iniciou a discutir no post sobre o "Hobbit"). Então, entre brinquedos e histórias para família, entre folclore e poesias, a Terra-Média (e toda a obra de Tolkien) é constituída disto: de Tom Bombadil e de Homem-da-Lua.

29 novembro 2008

Uma história contada pelos perdedores









Muito há para se dizer sobre Nárnia. Podemos enumerar algumas curiosidades, ou podemos tratar de sua história e geopolítica. Podemos até refletir sobre suas influências, mas acredito que o que realmente é mais significativo na obra de C. S. Lewis seja o teor religioso presente em seus livros. O conteúdo cristão é tão presente, que se torna quase impossível pisar em Nárnia no cinema ou em casa e não perceber que Aslam é uma figuração de Jesus Cristo, as quatro crianças são como os quatro apóstolos evangelizadores e a Feiticeira Jadis como Satanás, por exemplo.







Mas, levando-se em conta que Lewis abandonou o ateísmo e se tornou evangélico graças a uma conversa com Tolkien (que na verdade era católico), ele não só recontou os mitos bíblicos como os recontou do ponto de vista dos ganhadores (como sempre aconteceu ao longo da história). Dessa forma, questiono: como seriam as "Crônicas de Nárnia" do ponto de vista dos pagãos que adoram o deus Baco, o deus Rio, as ninfas, os faunos e as profecias nas estrelas? O as guerras contra os narnianos e os arquelanos, do ponto de vista dos mouros idólatras da Calormânia? E ainda, como sobreviveram os cultuadores dos mistérios sombrios da demônia das neves chamada de Jadis? Sem contar os romanos conquistadores de terras e caçadores de cristãos que habitam Telmar.







Quando Lewis escreveu a primeira crônica em 1949, "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa" de 1950, ele não pretendia fazer uma série de livros. Sua intensão era apenas fazer uma alegoria do evangelho para crianças, usando-se de mundos de fantasia. O nome surgiu de uma cidade italiana, mas também pode significar "contos profundos" em quênia, uma língua criada por Tolkien (que detestou o livro e quase convenceu Lewis do mesmo). Uma vez que já estamos em terreno italiano mesmo, Lewis resolveu se apoderar da mitologia greco-romana para povoar seu mundo com centauros, minotauros, faunos e ninfas. As crianças que visitaram Nárnia de fato visitaram sua casa durante a segunda guerra mundial, mas tinham outros nomes. Depois disso, foi só incluir um leão e uma feiticeira com nomes em persa (significando "leão" e "feiticeira").






Só no ano seguinte, quando Lewis deu início a um livro chamado "Return to Narnia" (mais tarde publicado como "Príncipe Caspian") é que uma série foi planejada. Foi o amigo Roger Lancelyn Green quem sugeriu chamar a série de "Crônicas de Nárnia" (uma sugestão muito bem aceita por Lewis). Assim, de 1950 até 1956, uma vez por ano as crianças eram presenteadas com algum livro novo sobre Nárnia e sobre Aslam (o único personagem que aparece em todas as histórias). Uma vez que a ordem publicada é diferente da ordem em que foram escritos, para explicar melhor meu ponto sobre as guerras santas de Nárnia, vou usar a ordem em que se desenvolve a história, ok?






De acordo com o "Sobrinho do mago", foi no ano 1 de Nárnia, quando Aslam criou todas as paisagens e habitantes daquele reino, que a feiticeira Jadis foi trazida de seu mundo de pedra chamado Charn através de anéis atlantes de alguns humanos da Terra (o professor Diggory). Até então, não havia religião alguma, apenas alguns deuses da terra e Aslam. Enquanto muitos habitantes pareciam apenas festejar e dançar com os deuses (como ocorre na tradições familiares pagãs da Itália) o culto de outros habitantes realmente passou a ser para com Aslam. Jadis ainda não desenpenhava nenhum papel importante nesse momento. Vemos aí que, se para os cristãos, esse livro trata da Criação, se ele tivesse sido escrito or pagãos, ele trataria daquele momento em que os imperadores cristãos de Roma permitiam cultos a Isis e Mitra em suas cidades, ou quando os druidas irlandeses toleravam as igrejas católicas que eram erguidas para adorar mais um outros deus. É um momento de paz e convivência como desejamos hoje.






Então o tempo passa, a Arquelândia é fundada, as Ilhas Solitárias são incorporadas a Nárnia e a rainha Jadis retorna em 898, para dar início ao longo inverno (que foi do ano 900 ao ano 1000, quando quatro crianças entraram por um guarda-roupa e se tornaram os reis de Nárnia). "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa" se trata, na verdade, da morte e do renascimento de um deus. Para um cristão, essa é a palavra dos evangelhos, mas se a história tivesse sido contada pelos pagãos, provavelmente seria dito algo como: 'o inverno representa aquele período mítico em que a deusa (Jadis?) está enlutada pela morte de seu consorte (Aslam) ao mesmo tempo em que espera o nascimento de uma nova esperança em seu ventre (o Aslam reformado após a conversa e o sacrifício junto a Jadis), quando a primavera retorna, imitando os ciclos da terra das plantas que secam quando o sol se afasta e das flores que renascem quando o sol se fortalece'.





Uma nota rápida e importante, o monte de Aslam, onde magia antiga e profunda é feita, onde runas sobre uma mesa contam histórias de Nárnia e marcam a morte e o renascimento do grande leão Aslam, é chamado Arslan Tash ("leão de pedra" em turco). No nosso mundo real da Terra, esse lugar é um sítio arqueológico onde se investiga sobe Lillith, a primeira mulher anterior a Eva que mais tarde se tornou um demônio e a grande inspiração para Jadis. Curioso, não é? E questão dos nomes turcos voltará mais adiante, garanto.






Parece esquisito olhar sob essa ótica? Talvez não seja tanto se pensarmos que muitos mitos se repetem nas mais diversas culturas e que muitos costumes e símbolos foram incorporados pela Igreja Católica quando levou sua palavra a populações pagãs, obrigando-os a aceitarem-na como vedadeira. Esse momento histórico pode ser visto perfeitamente em "Príncipe Caspian", quando vemos Telmar tomando todas as terras de Nárnia e apagando as lendas narnianas (ou, Roma conquistando terrenos e convertendo todos os pagãos). Então, concluo que esse processo iniciado no ano 1, quando 'seguidores de Aslam' e 'seguidores dos deuses' conviviam juntos, chegou a um conflito no ano 1998, quando os 'seguidores de ninguém' caçaram e desmereceram os 'seguidores de Aslam e dos deus' (notem como em Nárnia havia uma integração do deus Aslam junto com os outros deuses da terra, semelhante a forma como os druidas se comportaram na Irlanda). Claro que o rei Caspian X mudaria o rumo dessa situação em 2303, mas algo muito interessante ocorre nessa época.






Durante a chamada "Guerra da libertação", Caspian X descobre que ainda existem lobisomens, feiticeiras e anões que cultuam Jadis. Não é interessante que Jadis tenha um culto? Não é interessante que seus cultuadores fossems eres deformados e habitantes do submundo? Vemos aqui, então, que "Príncipe Caspian" poderia ter sido contada por cristãos (como foi), por pagãos (como razoavelmente foi) e por satanistas (como Lewis jamais cogitaria). O satanismo é uma religião como qualquer outra e merece respeito e não estigma. Não vou entrar no mérito da questão de como é o satanismo real, mas em Nárnia podemos conjecturar algumas coisas.






O culto a Jadis, provavelmente, pregava o poder de realizar desejos e necessidades básicas, encarando todo ser como o animal que realmente é. Além disso, fica claro que os cultuadores de Jadis são aqueles que divinizaram uma figura histórica (tal qual os egípcios faziam). Mais ainda, os cultuadores de Jadis eram de alguma forma descriminados pela sociedade em que viviam e se recolhiam para os recônditos mais ermos do reino de Nárnia. Portanto, creio que se "Príncipe Caspian" fosse contata pelos maiores perdedores da história (mais do que os narnianos escondidos ou os telmarinos derrotados), veríamos uma história sobre grupos pequenos de excluídos tentando se aliar aos vizinhos anrnianos, enquanto encontravam uma forma de impedir o crescimento demasiado do império Telmar (em pleno auge de seu verão bélico) através do desvendamento dos mistério de Jadis: onde uma criatura pequena e mortal deixa sua existência de solidão e alcança glórias divinas.





Bem diferente do que lemos no livro ou vimos no filme, não é? Talvez Lewis tenha deixado essa margens interpretativas propositalmente, talvez não. O fato é que podemos entender qualquer história sob os mais diferentes pontos de vista. Claro, que em alguns momentos fica um pouco mais difícil enxergar Nárnia sem ser pelo cristianismo, por exemplo: "A viagem do Peregrino da Alvorada", no qual Lúcia, Edmundo e o primo Eustáquio viajam pelas Ilhas Solitárias ao lado do rei Caspian X e do rato solado Ripchip, 3 anos depois da Guerra da Libertação. Esse livro mal trata sobre conflitos religiosos, focando-se quase que unicamente no mistério do batismo e do sacrifício (de acordo com interpretações cristãs, é claro). Eu até poderia indicar como os ritos pagãos de apresentação de uma criança aos deuses ou os ritos de iniciação em um sacerdócio pagão se assemelham a essa realidade do batismo, mas seria chover no molhado e fugiria do tema. Além do fato de que já foi dito o quanto as religiões se misturaram e se assemelharam ao longo dos tempos. E, um último bom motivo para não se aprofundar nessa questão é que muito disso já pode ser entendido no culto a Jadis (está bem, eu assumo, li o livro há tanto tempo que mal me lembro dele).





A história continua com o casamento de Caspian X em 2310 e o desaparecimento de seu filho Rillian em 2345 (mesmo ano da morte de sua esposa). Mas é só 11 anos depois que os Filhos de Adão e as filhas de Eva (nomes dados as crianças terráqueas) voltam para Nárnia. Essa história é narrada em "A cadeira de prata" (que poderia ter sido chamada de "Terras desoladas e selvagens" ou "Sob Nárnia"), um dos poucos sem a participação de criança alguma Pevensie. E esse seria outro livro a tratar muito pouco sobre conflitos religiosos em Nánia se não fosse por alguns detalhes próximos da conclusão da aventura.





Apesar da personagem Jill se preocupar em achar os sinais que Aslam dá para ela (par encontrar e salvar o príncipe Rillian), o momento mais importante de toda a história é quando descobrimos através de gnomos que habitam o submundo de Nárnia (onde a noite é eterna e tudo é novidade) que há um Pai Tempo faminto girando as rodas do mundo. Nárnia será extinta (como se confirma mais adiante na série). Não bastasse essa figura saturnina de um Chronnos, somos apresentados a um Feiticeira Verde. Não são poucos os boatos e referências que sugerem que a Feiticeira Verde e a Feiticeira Branca sejam a mesma pessoa. Teria Jadis trocado as neves pelas festividades de outono (conforme se vê na "Cadeira de prata")? Jadis torna a habitar o submundo e as beiras do abismo, sendo seguida por criaturas desprezadas planeja atacar Nárnia por baixo. Tal qual Jadis já enfrentara outros reinos de homens, a Feiticeira Verde ludibria Rllian como um Satanás.





A Feiticeira Verde, figura que parece amar música e comida, veste as cores da primavera mas fala sobre o outono, estações que circulam ao redor do verão, quando o deus sol se mostra no ápice. Primavera e outono, respectivamente, também são estações destinadas as figura divinas das donzelas em flor da idade (quando sua sexualidade desabrocha e seu encanto se torna mais poderoso) ao mesmo tempo que os frutos nascem (como as donzelas que engravidam para se tornarem divindades maternas). Seria a presença do Pai Tempo um indicativo de mudanças? Afinal, primeiro houve a divindade rainha Jadis e depois a divindade donzela da Feiticeira Verde. A ordem das sazonalidades do mundo poderia estar invertida e esquisita devido a influência de Caspian e Rillian em Nárnia. Um mundo natural governado por homens foge ao controle e fica sob um controle não-natural, muitas vezes. Não é à toa que Nárnia iria acabar em breve: os cultos de outono ficavam guardados para populações escondidas em cavernas e florestas, enquanto o cristianismo de um império apra Aslam era clamado aos quatro cantos do reino.





Mais do que a vida do cristão semeando sua entrada no céu contra as tentações de Satanás, "A cadeira de prata" poderia se tratar de um apelo ambientalista as religiões que desconectam o home de sua natureza animal. A força do mundo é muito maior que qualquer coroa ou estandarte, Jadis mostrou isso uma vez e tentou mostrar de novo. Falhou. E assim chegamos aos momentos finais de Nárnia, como "A última abtalha" (também, o último livro a ser publicado na série).





Partindo as profecias bíblicas do apóstolo João na prisão, quando as religiões se unissem, esse seria o sinal de que o anticristo nasceu e que o mundo estaria perto de seu fim. Talvez, não tenha sido a toa que o criacionismo radical de Lewis tenha visto um macaco (o ancestral evolutivo do homem) como o papa negro que serviria como arauto da última batalha por Nárnia, quando a religião dos calormanos se uniria religião dos narnianos. É aqui que presenciamos Tash, o único oponente legítimo de Aslam. Em 2555, sob o reinado de Tirian, Manhoso (o macaco) propõe um culto unificado a Tashlam, marcando o início do fim previsto pelo Pai Tempo.





É importante notar que os calormanos já haviam sido explorados no livro "O cavalo e seu menino", o único inteiramente passado me Nárnia, no qual o menino Shasta foge da Calormânia rumo a Nárnia, sempre sendo seguido por Aslam. Lá descobrimo que a Calormânia é como um império otomano, cujo símbolo é uma crescente e os governantes são sultões sob abóbadas e mesuitas, cercados por areia e calor, turbantes e túnicas, cimitarras e arabescos. Só assim podemos concluir que talvez a Calormânia seja islâmica. E uma vez que para muitos, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo se trate da mesma religião cultuadora de um mesmo deus, Lewis poderia ter se sentido ofendido e observado aí um sinal do fim dos tempos, o apocalipse se aproximando na união dos ícones de Tash com Aslam. Mas, então, por que batizar o deus cristão com um nome turco?





Talvez, se a história fosse contada pelos calormanos, de fato Aslam e Tash seriam a mesma divindade, mas com símbolos e em culturas díspares. Talvez, assim como os turco-otomanos sincretizaram o cristianismo na península ibérica durante o século IX, os calormanos poderiam viver em paz regrada com os narnianos. Talvez os cavalos dos calormanos falassem e fosse respeitados, também. Nunca saberemos, pois Lewis não só acabou e reconstruiu o mundo de Nárnia nas terras de Aslam (o paraíso?) como contou toda essa história sob a ótica dos vencedores, como sempre acontece na história.




Penso que tudo teria sido diferente se Suzana tivesse participado desse último livro, mas isso fica para um outro post...

28 novembro 2008

O chamado de Dagão



"Call of Cthulhu" não só é o nome de um popular e maravilhoso RPG, como também o do conto mais famoso de Lovecraft. Aqui, pela primeira vez conhecemos o famoso grande deus antigo Cthulhu (tão importante em sua obra), como começamos a ver uma sistematização dos mitos que o envolvem. E Cthulhu não poderia ser descrito de outra forma além de uma gelatina de limão na forma de um gigante barrigudo, com cabeça de polvo, pata de vaca, asas de morcego e alguma coisa de elefante. Parece absurdo? Então, olhe a figura ao lado e leia o resto deste post. Tem muitos mais absurdos.




O primeiro deles, para os incautos, é que Cthulhu não é exatamente uma criação de Lovecraft (assim como alguns outros elementos de suas obras). Cthulhu, algumas vezes, pode ser identificado como Oannes ou Uan ou Adapa ou Abgallu, um deus fenício-babilônico metade homem e metade peixe enviado pelo Criador com o propósito de civilizar a humanidade. Mas, além dessa espécie de tritão, Cthulhu costuma (e deve) ser identificado com Dagon (ou Dagão, no nosso idioma). Dagão é um divindade semítica da agricultura e da pesca, adorado principalmente pelos filisteus em um templo na cidade de Ashdod. Como punição por idolatrar a imagem de dito demônio, Deus (aquele dos cristãos, sabe?) destruiu as pedras do lugar e mandou uma ifnestação de ratos e hemorróidas assolar a população.



Esta história sobre Dagão pode ser encontrada na "Bíblia Sagrada", nas passagens: Juízes 16:23, Samuel I 5: 2-7 e Crônicas I 10:10. Lá sabemos como Dagão enfrentou Sansão. Mas, essa não é a única passagem literária na vida desse deus que é ao mesmo tempo cria, servo e o próprio Cthulhu. Ele aparece brevemente como uma versão dos mitos medievais sobre o kraken em obras de lord Dunansy e do galês (adorado por Lovecraft) Arthur Machen, como uma espécie de Asmodai (deus da magia cerimonial) conhecido na obra como acqua hominis. Porém, as melhores referências sobre Dagão estão em Lovecraft mesmo. Nas contos "Dagon" e "Sombra sobre Innsmouth".



No primeiro deles, que leva o nome da divindade, somos confrontados com um sobrevivente de guerra que chega a uma ilha espanhola e literalmente dá de cara como um deus monstro saído do mar. Na outra (em formato de noveleta foi o primeiro e único livro de Lovecraft publicado em vida, sem contar os contos em revistas de ficção científica e horror, apesar do desagrado do autor com o ritmo dessa história) conhecemos um personagem que visita a estranha e assombrosa cidade de Innsmouth, que parece guardar um segredo sombrio em seu passado e em seus habitantes metal e fisicamente deformados. A história de suspense segue para um ritmo de pânico e medo quando é descoberta uma igreja chamada 'Ordem Esotérica de Dagon' (esse religião de fato passou a existir no final dos anos 60 e hoje possui templos e sacerdotes na América do Norte e em alguns outros pontos pelo globo). O clímax revelador e supreendente torna esse conto uma obra prima, que mais tarde foi transformado em filme pelo especialista em Lovecraft, Stuart Gordon ("Dagon, 2004").


Para quem quiser trocar sua pele por escamas, suas traquéias por guelras, seus membros por nadadeiras ou suas pálpebras e espaço entre os dedos por membranas, rezem para o pai Dagon e a mãe Hydra (aquela serpente grega, que dispensa mais apresentações, certo?). E torçam para que o todo poderoso Cthulhu atenda suas preces, tornando-o em um de seus Deep Ones (como são chamados os "seres das profundezas" que rezam na Esoteric Order of Dagon, E.O.D.). Dúvida que dê certo? Aguardem meu post sobre o "Necronomicon" ou tentem vocês mesmos em casa.